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ou um daqueles raros privilegiados que já se cruzaram com o espírito do 10 de Junho. Não o 10 de Junho façanhudo e
belicoso das paradas imperiais de outras eras. Não o épico 10 de Junho a cheirar ao ridículo nacionalismo da raça lusitana,
nós que somos nobre miscigenação de tantos povos. Tão-pouco o 10 de Junho das Comunidades só relembradas
ciclicamente em tempo de eleitoralistas discursos esvaziados de qualquer visão futurista.
Hoje sei-o por experiência própria, o espírito do 10 de Junho
foge de tão pomposas celebrações como o diabo da cruz. Refugia-se na alma simples do
povo. Manifesta-se em raras ocasiões. Nos mais inesperados lugares. Espera pacientemente tempos melhores.
Passou-se há alguns anos. Eu estava
lá, na hora certa, no lugar certo. Em New Bedford. Numa
tarde esmagada pela canícula. Em vésperas do 10 de Junho.
A Casa da Saudade de New Bedford
organizara o lançamento de um dos meus livros e eu, retardado por arreliadores contratempos, levara mais de oito
horas para vencer a viagem de carro entre Montreal e New Bedford. Já estava, para ser franco,
alarmantemente atrasado. Além disso, perdido naquele dédalo de ruas, iria
perder um tempo precioso antes que pudesse localisar a Casa da Saudade. Só um
milagre poderia remediar a situação.
Mas, para minha salvação, o milagre
aconteceu. Ao dobrar uma esquina, um homem
de cara curtida pela vida observava o vulto hesitante do meu carro. Com
o ar sereno de quem está ali à espera, de mangas arregaçadas para cumprir uma
missão.
“Este tipo tem cara de português”
pensei, talvez influenciado pelo facto de saber que metade da população
daquela cidade piscatória é de origem
portuguesa.
-O senhor sabe onde é a Casa da
Saudade? - perguntei-lhe em português.
A cara requeimada de pescador
rasgou-se num sorriso aberto. A resposta, pronta na ponta da língua, chegou-me no melodioso falar açoriano:
- Ainda fica longe daqui. Quer que o
leve lá? –E ainda mal as palavras estavam ditas, já estava sentado a meu lado,
pronto para me servir de cicerone.
O homem tinha razão. Ainda nos
fartámos de andar. Sozinho nunca daria, a tempo e horas, com o sítio. Saíra-me a sorte grande. Mas eu
começava a inquietar-me pelo meu benfeitor.
- Agora, tão longe, como é que vai
voltar para trás? Que maçada lhe dei!
- Não se preocupe comigo. O tempo dá
Deus de graça. Olhe, é aqui esta casa.
Preparava-me para me desdobrar em
mil agradecimentos mas já ele, lesto,
saltara do carro.
- Qual é o seu nome? – mal tive
tempo de perguntar.
Os olhos bons e serenos do homem
cruzaram-se com os meus.
- José Pacheco.
E desapareceu.
Não, aquele homem, com quem o destino
me cruzara os passos, não era o José Pacheco. Apostava a vida em como era o
espírito do 10 de Junho.
(Nota: Consta que neste ano de 2005 o espírito do 10 de Junho anda à solta em Montreal.)