MANUEL CARVALHO


O espírito do 10 de Junho



S ou um daqueles raros privilegiados que já se cruzaram com o espírito do 10 de Junho. Não o 10 de Junho façanhudo e belicoso das paradas imperiais de outras eras. Não o épico 10 de Junho a cheirar ao ridículo nacionalismo da raça lusitana, nós que somos nobre miscigenação de tantos povos. Tão-pouco o 10 de Junho das Comunidades só relembradas ciclicamente em tempo de eleitoralistas discursos esvaziados de qualquer visão futurista.

Hoje sei-o por experiência própria, o espírito do 10 de Junho foge de tão pomposas celebrações como o diabo da cruz. Refugia-se na alma simples do povo. Manifesta-se em raras ocasiões. Nos mais inesperados lugares. Espera  pacientemente tempos melhores.

Passou-se há alguns anos. Eu estava lá, na hora certa, no lugar certo. Em New Bedford. Numa tarde esmagada pela canícula. Em vésperas do 10 de Junho.

A Casa da Saudade de New Bedford organizara o lançamento de um dos meus livros e eu,  retardado por arreliadores contratempos, levara mais de oito horas para vencer a viagem de carro entre Montreal e New Bedford. Já estava, para ser franco, alarmantemente atrasado. Além disso, perdido naquele dédalo de ruas, iria perder um tempo precioso antes que pudesse localisar a Casa da Saudade. Só um milagre poderia remediar a situação.

Mas, para minha salvação, o milagre aconteceu. Ao dobrar uma esquina, um homem  de cara curtida pela vida observava o vulto hesitante do meu carro. Com o ar sereno de quem está ali à espera, de mangas arregaçadas para cumprir uma missão.

“Este tipo tem cara de português” pensei, talvez influenciado pelo facto de saber que metade da população daquela  cidade piscatória é de origem portuguesa.

-O senhor sabe onde é a Casa da Saudade? - perguntei-lhe em português.

A cara requeimada de pescador rasgou-se num sorriso aberto. A resposta, pronta na ponta da língua,  chegou-me no melodioso falar açoriano:

- Ainda fica longe daqui. Quer que o leve lá? –E ainda mal as palavras estavam ditas, já estava sentado a meu lado, pronto para me servir de cicerone.

O homem tinha razão. Ainda nos fartámos de andar. Sozinho nunca daria, a tempo e horas,  com o sítio. Saíra-me a sorte grande. Mas eu começava a inquietar-me pelo meu benfeitor.

- Agora, tão longe, como é que vai voltar para trás? Que maçada lhe dei!

- Não se preocupe comigo. O tempo dá Deus de graça. Olhe, é aqui esta casa.

Preparava-me para me desdobrar em mil agradecimentos mas já ele, lesto,  saltara do carro.

- Qual é o seu nome? – mal tive tempo de perguntar.

Os olhos bons e serenos do homem cruzaram-se com os meus.

- José Pacheco.

E desapareceu.

Não, aquele homem, com quem o destino me cruzara os passos, não era o José Pacheco. Apostava a vida em como era o espírito do 10 de Junho.



(Nota: Consta que neste ano de 2005 o espírito do 10 de Junho anda à solta em Montreal.)