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ALBERTO MARTINS |
Alberto Martins residiu no Canadá.
Gervásio parecia sonhar. Longe do ambiente que o rodeava, só pensava em Portugal. Pobre de si e pobre pátria, reflectia desesperado. País de sol brilhante como pérolas, de céu azul como o mar, de casas brancas como a neve e de povo oprimido como cordeiros. Começava a sentir um impulso de revolta. Os anos de vida errante e os sacrifícios de homem solitário despertavam-lhe a consciência. Abel tinha razão. Era em Portugal que os portugueses precisavam de lutar, a fim de adquirirem os direitos de gente livre. Um emigrante nunca passava dum animal vendido. Novo aviso aos alto-falantes, nova crise de nostalgia, lágrimas e uma exclamação inco ntida: - Quem me dera acompanhá-los!- disparou o velho num tom abafado. Daniela animou: - Não desanime , que também há-de chegar a sua vez, senhor Manuel. E deixando-lhe um aceno de simpatia, lá se foi acompanhada de Abel, direita ao guiché de controlo. Um pouco animado com o auxílio moral da rapariga e interrogando-se acerca das suas previsões de regresso à pátria, Gervásio saiu a correr, procurando um lugar que lhe permitisse ver os jovens embarcar. - Se calhar é a última vez que os vejo - disse ele, com os olhos fixos numa fila de passageiros, pista fora. Olhadela à frente, olhadela atrás, começava-se a impacientar, quando viu aparecer o casal na rectaguarda do cordão. Iam-se embora, iam para a Europa, Deus os acompanhasse! Abençoados rapazes que tiveram a coragem de partir de bolsos vazios. Admirava-os. Do topo da escada, os dois jovens voltaram a despertá-lo. Novos acenos, frases atiradas ao ar, que não chegaram a meio do percurso e logo, um silêncio profundo como se o Mundo tivesse acabado. Portas fechadas, material arrumado, sinais luminosos em ordem e o avião ia arrancar. |