AIDA TRINCÃO


Aida Trincão nasceu em Torres Novas. Reside em Toronto.

Escreve literatura infantil: "O senhor ouriço", "O Fatigat", "Elizabeth Pereira".




VOZES


Fui obrigado a sair
Eu. Maputenho.
Eu Hermínio.
Vivo aqui sem asas. Sem poder voar, pensar.
A neve paralisa-me o cérebro. O frio chega-me ao coração.
Fui obrigado a sair.
Eu. Minhoto.
Eu. João de Matos.
Eu vivo aqui. Agora tenho que dizer "yo" em vez de "Eu".
Aqui estou como uma criança. Falo mal e necessito
de constante ajuda para adquirir o indispensável.
Fui obrigado a sair.
Eu. Ribatejano.
Eu.Adelaide Mendes.
Voltei à aldeia. Voltei à minha tão pobre e ingénua aldeia
de paredes tão brancas.
Fui obrigada a sair.
Eu. Lisboeta.
Eu. Carlos Salgado Sousa de Godinho.
Eu. Aqui estou. Só, repetindo cadeiras de medecina
Numa universidade nos Estados Unidos porque sou português.
Fui obrigado a sair.
Eu. Sargento Matias.
Dirigi-me ao Norte.
Aqui estou. Deram-me uma espingarda. Continuo a exercer a minha profissão.
Isto não me interessa. Quero regressar ao meu torrão.
Queremos voltar.
Queremos sentir novamente o sol a crestar-nos a cara,
o vento a despentear-nos, o sangue das florestas,
a vibração dos tambores, o cheiro a catinga.
Queremos voltar à nossa terra.