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BRUNA VIANA |
Bruna Viana nasceu em Lisboa e reside em Montreal, no Canadá.
Há muito que sinto nos dedos o decifrar da tua rota: rumo que leva ao mar, azul que nos
separa, há muito poente na versão dos dias. É a distância que se ergue, invisível,
imperiosa, e dita destinos de exílio. Busco-te no mapa dos meus sonhos. Entrevejo-te nas núvens que acumulo, sem saber, entre rasgões de céus meus e um azul que perdura. Falo de ti e assisto ao meu nascer, em cada palavra, cada
sonho, cada ausência.
Levo-te na bagagem com que vago, oscilante entre a tua terra e terras. Mais que país,
mais que hinos, há bandeiras desfraldadas a evocarem família, história, a cultura dum povo,
o despertar permanente do homem sitiado na nação. Trago comigo a loucura de ser Lisboa sem estar nela, em toda a parte. E correm de mim, como que para o mar, o Tejo, os pombos do Rossio, os pavões brancos, arqueados nos jardins do Castelo, a solidão noturna dos mil candeiros que disfarçam largos de sombra na rua. Assisto, silenciosa, ao derrubar da noite e das vestes, e vejo Lisboa erguer-se vitoriosamente para mais uma viagem de luz incandescente e orvalhada. Penetro então, com ela, em cada brecha de madeira, cada arcada, onde séculos deixaram vertígios de outras vidas e outros sonhos, e entro em cada porta, cada beco, sem preâmbulo. Há vasos de mangericos, bichos de seda, roupa pendurada entre duas varandas de Alfama, ruídos de eléctricos, ranger de rodas, máquinas, pregões, cantares nos tanques, na rádio...
Sou deste bairro e sou daquele. Há células de mim em toda a parte. Trago comigo a cidade inteira e surpreendo-me, longe, a murmurar pormenores que o pintor do destino parece ter criado,
secretamente, só para mim, nas visões de infância. E beijo-te, terra, suavemente, na memória. |