CANDEIAS LEAL


Candeias Leal nasceu na Candelária, Madalena do Pico, Açores. Em 1973 emigrou para o Canadá. Reside em Toronto. Colabora na imprensa lus-canadiana, nomeadamente no "Semanário"
É autora dos livros "Arquipélago de Solidões"-1998 e "Valeu a pena"-2000.


Página pessoal da autora:

CANDEIAS LEAL



Olhar Vazio


Com as mãos nos bolsos das calças já sem cor, olhava os campos.
As pequenas serras que formam a sua ilha, a ilha montanhosa que ele tanto adora, a terra que lavrou com a sua enxada, muitas vezes regada com o suor do rosto, hoje entregue à natureza por não ter um sucessor que a continue a arar.
Com o olhar perdido nos terrenos, eu tentava adivinhar os seus pensamentos. Não era difícil. Aquele olhar vazio, já sem ilusões, lembrava-me o homem sonhador de alguns anos atrás, que se levantava pela madrugada para fazer dos campos bravios um jardim, voltando a casa já noite, de cesto à cabeça onde carregava as ferramentas do seu labor. Alguns sonhos foram realizados, mas talvez que o olhar vazio perguntasse se teria valido a pena...
Por mim, acho que sempre vale a pena realizar um sonho porque, no fim da caminhada, há sempre algo para relembrar; mas a verdade é que são muitas as vezes que nos perguntamos, será que valeu a pena? Talvez fosse isso que ele pensava...
Ou talvez tentasse enxergar a criança rebelde, pirraceira que foi, o adolescente que sofria por algo passado, o homem forte e vaidoso, que foi um dia, ao tomar a mulhar jovem e saudável como sua companheira, mas que, infelizmente, um ano após o casamento adoeceu, fazendo dele um desesperado e malcontente com a sorte.
Ou será que pensava no fruto do seu amor, a filha única de quem julgou fazer sua continuação. Só que, por ironia do destino, os sonhos dela eram outros. Sonhos que talvez ele achasse absurdos e tentasse mudar. Tal como ele, a filha era uma sonhadora que não desistia deles. Alguns realizou, outros ainda não. Mas pelos quais continua lutando mesmo sabendo que vai indagar-se também um dia se tudo valeu a pena.
Será que aquele olhar pensativo se pergunta o porquê da vida ser assim injusta, sem graça, sem valor, ao admitir que um dia a vida se apaga e as terras ficam com o mesmo aspecto com que lhe vieram ter às mãos? Ou será que pensa se houvesse ajudado a filha nos seus sonhos ela talvez se encontrasse agora junto dele? Não, não deve ser isso que ele pensa...
Talvez sinta saudades. Sim, é saudades que ele sente. Saudades da criança que ele tanto protegeu para que nada de mal lhe acontecesse. Saudades das videiras floridas, dos cachos frescos das uvas, do cheiro do vinho a fermentar ou já maduro nos cascos; da terra húmida e fresca para a sementeira da batata e até dos dias árduos de trabalho na ceifa das ervas ruins, quando cansado mas forte ainda, continuava perseguindo seus sonhos.
Ou será que está arrependido de algo que fez errado? Não! Tal como a filha, ele não se arrepende do que faz. Talvez hoje compreende que cada um tem os seus sonhos e que ninguém os pode mudar.
Talvez relembre os netos e a neta quando o vão visitar, já homens e mulher feitos e se pergunte como terá sido a infância deles. Que foi descuidada junto de uma mãe que soube lutar por eles. Faltou-lhes algo todavia, o afecto físico e presente do avô, coisa que as crianças tanto apreciam. E como se sente ele, ao lembrar que não teve o prazer de os ver crescer, nem andar com eles ao colo, nem com eles pela mão, nem de lhes contar histórias? De ser, enfim, um avô de verdade?
Será que o homem de olhar vazio pensa em tudo isto? Talvez. Porque sendo eu como sou e sendo ele o autor dos meus dias, só poderá ter vindo dele parte da pessoa que hoje sou.