CRÓNICAS
FRANCESAS (X)
Fechada a noite, pernoitámos numa
humílima casinha de pasto onde travámos conhecimento com um comerciante que se
prontificou trazer-nos gratuitamente para a cidade da Guarda. Aqui arribados, pela madrugada, saímos a pé da cidade, rumo à
estrada nacional, a pedinchar boleia.Uma alma caridosa conduziu-nos até Fornos
de Algodres e por lá ficámos a esmo, à mercê de um outro condutor apiedado
que, porventura, nos transportasse para
a Aveiro.Evadiram-se as horas, na berma
da estrada , à sombra de um arvoredo , perante uma paisagem de terra árida,
pedregosa, gretada pela seca. Meia tarde, sem almoço, e boleia não surgia. Ali, a uma vintena de metros,
semi-encoberta pela ramagem do arvoredo,
uma placa indicava a estação do caminho de ferro e para lá nos dirigímos
esfaimados.
Havia no largo deste pacífico e
ignoto lugarejo, uma taberna na sua mais mais genuína expressão: um enorme balcão, meia dúzia de toscas mesas , acompanhadas de seus rudes banquinhos, três pipas gigantescas e uma grande travessa
de sardinhas aloiradas, entre fartas rodelas
de cebola , a saltitarem no desejo de
ser tragadas.Meio litro de vinho numa bilha rústica , sobre a mesa
de pinho , com uma folha de papel pardo a servir de toalha , pão fresco e meia
dúzia de sardinhas a cada um. Soube-nos a manjar do céu, por meia dúzia de
escudos. Comprámos bilhete de comboio, éramos os únicos passageiros na estação,
aguardando na sala deserta, bafienta, entre caixotes e sacos, até que um silvo
rasgou o marasmo do silêncio, anunciando a chegada.
Desfrutámos a aridez da paisagem com suas fragas e ribeiros perdidos entre
urzes e mato rasteiro. Eis-nos chegados
a Ilhavo rente ao anoitecer.O meu
companheiro de aventura regressou à sua profissão de barbeiro, eu retornei às
abomináveis lides da taberna e auxiliar meus pais na quintarola arrendada , enquanto gizava um rumo a dar à vida.Por sugestão de um
velhote, fiel devoto dos “traçadinhos” e
crente nos poderes sacerdotais de conseguir emprego, roguei ao Padre Sebastião Rendeiro os
seus preciosos encómios para um emprego
de escriturário na fábrica Vista Alegre. O reverendo, cofiou o queixo,
recostou-se na cadeira, esgravatou a
cabeça e lá me foi dizendo , com falinhas mansas e conformistas que,
afinal, não dispunha das influências que o povoléu lhe atribuía. Saí da
sacristia de alma enxuta, sem uma vírgula de esperança.Tentei alistar-me na
Marinha, pedi a um capitão reformado, morador na Malhada, que me desanuviasse o caminho, o velho lobo
do mar, pronunciou-se nestes termos
desolantes: sem o sétimo ano completo não poderia alistar-me no curso de
oficiais, e, com o segundo ciclo, teria
que iniciar como grumete, ou seja, a partir da tábua rasa. A ideia de voluntariar
no Exército não me agradava nem um
centavo, apesar, meio desesperado, inquiri no quartel de Cavalaria em
Aveiro, junto de um sargento que me
remeteu para um coronel, um cavalheiro respeitável , grisalho, ainda atlético ,
com o poderio das armas estampado no rosto, que não me aconselhou a voluntariar.Prosseguindo,
em cata de emprego, falei com um
respeitável ancião , creio que Salomé
de apelido , morador numa estreitíssima viela , num daqueles
labirínticos becos entre a Igreja e o cemitério, rogando a intervenção
do seu filho, funcionário
superior , para um emprego nas Finanças.O
senhor foi afável e prestimoso. Indicou-me com precisão o local
da Repartição das Finanças em Aveiro,
inculcou-me esperança , reiterando
que seu filho me ajudaria.Para lá me dirigi, um edifício nobre que ostentava no frontispício
o escudo esculpido em pedra .Subi umas escadarias de pedra e deparei-me de
imediato com o tal chefe de Finanças que
só conhecia pela figura hirta, compenetrada,
de óculos eclesiásticos, e pela lambreta que conduzia, um veículo elitista no tempo. Lancei o meu pedido, de imediato ele inquiriu:
- Completou o segundo ciclo? - primeira
pergunta à qual respondi afirmativamente, saboreando de antemão com meus botões o emprego garantido.
- Que idade tem? - dezassete,
respondi. Logo ali me estilhaçou a esperança dizendo: - Oh homem, venha cá
quando completar dezoito anos - adicionei esta desolação às anteriores..De
seguida, pedinchei na Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau, através de
um rapazote meu conhecido que auferia na época
o mirabolante salário de mil e oitocentos escudos mensais.Abordei o
Director, um jovem advogado que, em
conversa despachada, no corredor do
edifício , me infundiu um luzeiro de
oportunidade, contudo , o emprego
finou-se na esperança.
Bati no portão do palacete do
Director da fábrica da Vista Alegre. Ainda hoje recordo os espasmos estomacais
provocados pelo ladrido do enorme cão, furioso, sempre que batia na aldraba do
portão.
Veio um homem gigante, embrulhado
num luxuoso sobretudo, distante, com seus óculos ricalhaços a olhar do seu
metro e oitenta este ignoto plebeu que lhe seguia os passos como um rafeiro
- Senhor Director!...enquanto ele
seguia em passo estougado, resoluto, com o pedinte à ilharga -Senhor Director,
insisti, estou à procura de emprego, agradecia imenso, se houvessse uma vaga
de escriturário.
Com palavras enxuta , para se
desenvencilhar do estorvo, e com o fastio
de quem não quer ser perturbado, enxotou-me assim:
- Dirija-se ao escritório e
prencha uma ficha, e por lá fiquei arquivado no ficheiro do esquecimento.
Barbosa Tavares
Novembro de 2006