BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XI)

 

 

Voluntariamente, concorri à Força Aérea, ao curso de sargento-piloto-aviador. Sonhava voar. Influências da proximidade de São Jacinto, com sua base aero-naval, aviões de treino em piruetas  sobre a faixa do areal entre Barra e Mira enquanto, delirantemente  sustinha a respiração, preso ao destemor do piloto que, parado o motor, descia em louca vertigem, em parafuso-helicoidal, até que o motor roncava aflitivamente, como quem prega uma finta à morte, ascendendo em vertical.

Queria viver aquele desafio e emoção no sonho de libertar  os pés da terra,  vogar livre nas nuvens,  saborear o romantismo das meninas prendadas e casadoiras que adoravam fardas, sobretudo com asas.

Meu pai, entre algum temor e brio de antever um filho piloto, foi ao Notário conceder-me autorização, sem antes me acautelar dos riscos, ressalvando, com reluctância, que a escolha era da minha inteira lavra. Do Centro de Recrutamento da Força Aérea, na Rua Newton, em Lisboa, nunca se dignaram responder-me. Ainda fui à capital inquirir sobre a minha inscrição. Um cabo escriturário,  assim que me viu de óculos , a falar de pilotagem, tratou de me desmotivar oferecendo-me outras especialidades. Disse que preenchia todos os requisitos de visão exigidos, tal como dito pelo  oftalmologista  e,  frustradissimo,  virei as costas de imediato.

A única lembrança que permaneceu de Lisboa foi vaguear entre eléctricos e rios de gente,  que eu nunca imaginara. Meio desnorteado com tanto frenesim , já entrado na noite, acenei a um táxi e pedi que  me levasse ao hotel mais próximo. O taxista nada sabia da minha magra algibeira, nem eu conhecia nenhuma daquelas pensões mais em conta, deixou-me na Rua da Alegria , à porta do Hotel Bragança. Paguei cinquenta escudos por uma meia dormida, uma vez que, fascinado pelo bulício nocturno da cidade, fiquei esquecido na varanda do hotel,  preso ao tilintar dos eléctricos,  e,  quando despertei,   metade da madrugada escapulira-se.

Regressado a ÍIhavo, surge um cheque emitido pelo tal advogado, pela quantia de cerca de quinhentos escudos. O  tal (i)responsável pela minha defesa, que eu nunca enxergara  e do qual apenas sabia o nome,  teve a ousadia de surripiar aos  meus progenitores cerca de quatro mil e quinhentos escudos.

Senti-me defraudado, revoltadíssimo. Escrevi-lhe uma carta azeda, informando-o da minha decisão de apresentar queixa na Ordem dos Advogados,  e assim procedi de imediato. Para meu espanto, não tardou resposta da dita Ordem, informando que iria receber a descrição pormenorizada dos honorários do notável sacripanta que arranjou formas de apresentar um rol de telefonemas, custos de representação, emolumentos, custos judiciais e outras atrabiliárias manhas com que se descartou.

Voltei à refrega numa carta, concedendo-me o prazer de analisar jocosamente todas as parcelas e remeter-lhe resposta abarrotada de ironia. A  Ordem no seu parecer entendia que os honorários praticados estavam em linha de conta com a prática da classe. Aliás, que outra resposta seria de esperar? Fito na ideia da ida  para   França, com o tempo a escapulir-se , dei a causa por perdida, mas ficou-me o regozijo de ter exercido plenamente o meu direito à indignação. De tal maneira isto me afectou a percepção da classe -– com a devida ressalva para os nobres e dignos jurisconsultos –- que ainda hoje ninguém me expungiu esta nódoa que se impregnou na minha porventura obliterada visão dos causídicos.

Um advogado luso-canadiano, haveria de confirmar a minha fundamentada descrença sobre os tribunícios ao revelar-me um dia , em jeito de quem diz a verdade , parodiando.

–––Sabia que há duas pessoas que estão autorizadas a mentir em Tribunal?

–––Uma delas, – respondi – deve ser o advogado! E a outra? – perguntei-lhe.

–––O polícia –  respondeu, este,  com  um risinho codicioso.

*

Respondi a inúmeras ofertas de emprego publicadas nos jornais da época, sem obter uma única resposta. Com dezassete anos e serviço militar pela frente, ninguém ousava oferecer uma oportunidade. Surgiu a luminosa idéia de voltar  a França pela via legal. Meu tio-padrinho fora numa dessas levas de homens de Sever do Vouga e lugarejos limítrofes para a apanha da beterraba e acabara por se tornar feitor de um abastado senhor de um farme com mais de cento e cinquenta cabeças de gado leiteiro.

Roguei-lhe  com clemência, em duas cartas pungentes, que me conseguisse um contracto de trabalho, para esquivar à tropa.

Segundo me contaria mais tarde,  creio que numa hora aziaga , precisou fazer uma salgadeira e dirigiu-se a uma serração em busca de tábuas, numa vilória, a mais próxima do lugar ermo onde vivia de nome Anizy-le-Château, no nordeste de França e pleno de boa vontade, perguntou ao dono da serração se dispunha de trabalho para quatro sonhadores do sonho gaulês.

Veio a resposta decorridos dois meses, em forma de contracto de trabalho, abarrotada de esperança para quatro mourejantes a saber: meu pai, tio, primo e eu próprio, todos sequiosos de francos e  dispostos a esquartejar árvores pelo magríssimo salário mínimo de lei, exactamente um franco e noventa por hora, com alojamento grátis.

 

                                                                                                                     Barbosa Tavares

                                                                                                                     Dezembro de 2006