BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XII)

 

 

Era tal a ilusão francesa que o meu tio, meio-irmão de meu pai, fruto de uma relação ilícita de meu avô com a cunhada, de tão eufórico com a ideia de libertar o filho da guerra colonial e ele próprio amealhar uns tristes francos, logo abdicou do seu quinhão da herança que lhe cabia, fruto da luta insana que minha avó travou com o marido para que este perfilhasse o filho ilegítimo.

Chegou o que considerávamos no tempo, a boa nova de França, em Janeiro de mil nove centos e sessenta e seis, o tão almejado contracto de trabalho para o que se presumia ser uma fábrica de serração de madeiras.

Na Junta de Emigração do Porto, aquando dos exames médicos, deram-nos uma belíssima brochura com magistrais edifícios e monumentos em Paris com vistosas pontes sobre o rio Sena e, logo ali, o sonho rendilhado em francos resplandeceu sobre a magistral arquitectura parisiense.

Quando recebi o passaporte com suas lustrosas capas azuis, senti a libertação de quem parte esperançado no sol maior da estranja, porém já envolto na nostalgia da despedida e ausência da namorada a troco do esquivanço da guerra, sem a consciência que iria desaguar na peleja da saudade pelo canteiro matricial.

No dia seis de Abril de mil novecentos e sessenta e seis, meu tio, primo, meu pai e eu, partimos rumo a França num comboio ronceiro que consumiu parte da manhã e da tarde de Aveiro a Vilar Formoso, mais a noite inteira a galgar terras de Espanha.

Em Irún, com Biarritz à vista, desfrutámos por umas horas do sabor a maresia gaulesa enquanto aguardávamos o cumprimento das formalidades alfandegárias e o comboio que nos levaria a Paris.

Arribados à cidade da luz pela manhã, na gare de Australitz, deslumbrámos com aquela azáfama de gente em corropio, entre altifalantes que não paravam de anunciar partidas e chegadas, com intermináveis filas a aguardar ligações para outras gares e outros destinos europeus.

Um táxi despejou-nos na gare du Nord. Aguardámos um bom par de horas, enquanto jovens fardados, em jeito de despedida, entrelaçados nas namoradas, atracados pela cintura, permaneciam amorosa e demoradamente ligados pela língua, enquanto os polícias olhavam impassíveis as cenas amorosas.

Viajámos cerca de duas horas entre florestas e lugarejos até chegarmos ao desfecho final, uma obscura vilória de nome Anizy-le Château. Na estação do caminho de ferro deserta, aguardavam-nos os dois filhos do patrão, cada qual com uma carrinha que nos conduziram ao logement.

Sob um céu pardacento chuviscava e uma densa neblina carregava o ar de estranha nostalgia. Atravessámos a vila e fomos descarregados numa casinhota desamparada, solitária, num local meio ermo, rodeada de silvas e urtigas, e seguimos por um carreirinho vergados sob o peso das malas. Quatro portugueses vieram ao nosso encontro, mal atilados, rostos sombrios, provindos da gleba, órfãos da pátria, todos minhotos, apenas dispunham dos braços para granjear o magro sustento das terras que mal lhes consentia a paga das rendas, por isso rumavam a França, de olhos vendados, esfacelados nos Piréneus, a ofertar os braços, tais filhos do acaso.

Constava-se até que um deles dissera ao patrão num francês de mendigo, a rogar piedade e vendendo-se ao desbarato: "se patron donner moi dez francs par jour e manger, ça va bien", ou seja, se o patrão lhe desse dez francos por dia e comida, sentir-se-ia plenamente recompensado.

Gente cujo sonho maior consistia em farturinha de comida e amealhar para uma casinha a erguer na aldeia e uma ou duas courelas no amado canteirinho genésico.

Em pouco tempo, a distância da pátria, a saudade, as horas livres ao fim de semana, enquanto se cozinhava, lavava e remendava a roupa, permitiam conhecer os queixumes, venturas e desventuras daquelas almas.

Soares, o mais afouto, novato e resoluto, adorava deitar faladura. Albino, baixinho, de olhos vivos e perscrutantes, recatado e respeitador nunca metia a foice em seara alheia. O José que os franceses apadrinharam de malgross (gordo, malfeito) e logo os portugueses baptizaram de "malagrosso", era um tipo de rosto vermelhusco que nem pimentão, sanguíneo, gordalhudo, sorria a propósito de tudo e de nada, entroncado que nem tronco de carvalho, bonacheirão e acriançado para a idade de pai de dois tenros filhos que deixara, em Vila Verde, no Minho.

Francisco, um antigo moço de lavoura, cabeçudo, rosto patibular, a todos olhava de soslaio, era antipático, esquivo, avaro, e só se interessava pela conversa se esta lhe trouxesse benefício.

 

                                                                                                                     Barbosa Tavares

                                                                                                                     Fevereiro de 2007