BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XIII)

 

 

Colocadas as malas nos aposentos, um dos portugueses mais prestimosos e solícitos, Soares de sua graça, levou-nos à mercearia local onde tratámos de copiar o modelo alimentar em vigor: macarrão, arroz, açúcar, fressura, cabeça de porco e umas garrafas de vinho mais baratucho.

Ao entrar no estabelecimento, havia uns chocalhos no topo do interior da porta que desatavam a tilintar logo que esta se abria e um odor estranho e nauseante, penetrava as narinas, creio que provindo dos queijos, das carnes a marinar e condimentos.

De seguida fomos visitar a fábrica que não passava de mal atilado telheiro de zinco, sem portas, onde laboravam dois chariots, uma serra circular e um amontoado de traves de carvalho aparelhadas. Havia um recinto enorme, um autêntico lameiro, com enormes troncos apinhados à espera de descasque e duas montanhas de serradura amaralecida ao longo de anos.

O patrão era um sessentão, de pouquíssimas palavras, boné castanho enterrado até ao limiar dos olhinhos coruscantes, rapaces, um corujão de olhar distante por detrás de uns aros metálicos, um ser que viera ao mundo para operar o seu amado chariot, aparelhando troncos de carvalho, parecendo que o remanescente da vida era-lhe completamente alheio e inútil.

Colocou-me em ajudante da serra circular, com um velho que diziam ser argelino. Alto e enxuto de carnes, com umas incipientes barbichas, mal encarado, antipático que nem um bode montanhês. Bastava uma pequena desatenção no devolver da madeira semi-cerrada para ele resmungar como um rafeiro tinhoso, rosnando e fazendo caretas agressivas em tom ameaçador.

Tolerei a primeira e segunda semanas. Depois, passei a responder às provocações com berros e gestos provocantes e impropérios:- "salaud" (porco, sujo), "foux, vieillard" (velho, tolo), " ferme ta gouelle" (fecha as goelas).

Foi remédio santo, a partir daí, só muito raramente o velho envinagrado ousava rosnar. Nunca vi da parte daquela alma agreste e insípida o mínimo gesto de amizade ou sequer esboço de lânguido sorriso.

De vez em quando ouvia-se do chariot, posicionado em linha horizontal ao meu lugar de trabalho a meia dúzia de metros, um gemido estrondoso; era a folha da serra a estralejar, o encontro com um pedaço de "ferraille", fragmentos de granada, metralha ou balas perdidas da segunda guerra alojadas na madeira, em torno da qual gerava-se um círculo arroxeado, uma ferida, como se esta rejeitasse a invasão do corpo estranho.

Ao romper da manhã, a tarefa consistia em limpar a serradura das maquinetas e, num carrinho de mão, sobre várias tábuas a servirem de caminho, descarregava-se o produto tão alto quanto possível no topo de dois Himalaias de aparas de madeira e serradura bolorenta.

Eram três a quatro carradas que eu fazia num corropio vivo e me deixavam a camisola colada ao corpo, um mapa de suor extravasava a camisa logo ao dealbar da matina. O patrão numa tentativa de me extrair o máximo do sebo dissera a um francesinho, auxiliar de seu pai num dos chariots que fizesse exactamente este meu trabalho.

O garoto esfalfou-se numa maratona, possivelmente, superou-me em dois ou três minutos. Executada a tarefa pelo meu rival, o patrão com todo o seu ardil chamou-me, apontou o indicador direito sobre o seu relógio, limitei-me a desprender, desdenhoso, um largo e irónico sorriso, assim como quem disparata ao inverso.

Da tosca fabriqueta avistavam-se várias cruzes de pedra, bem acima do muro do cemitério fronteiriço que me suscitavam uma invocação ao Altíssimo, rogando-Lhe que protegesse minha namorada, aplacasse a obsidiante saudade, e também para que aquele tempo, penosamente parado, decorresse célere para desenvencilhar-me daquele tormentoso ofício.

Veio o primeiro pagamento quinzenal: umas notinhas lustrosas e alguns francos em moeda num envelope. Nesse dia chuviscava e fomos todo o caminho a pé envoltos numa capa plástica, parámos debaixo de chuva a contar os francos, com água a escorrer pelos olhos, alegremente a fazer operações cambiais. Um franco rendia cinco escudos e oitenta centavos nesse longínquo tempo e, cada dia de trabalho, em termos ilíquidos, correspondia a cerca de cem escudos.

Fazíamos uma longa caminhada, coisa de um quilómetro quatro vezes ao dia, na ida e vinda do trabalho, dado que vínhamos almoçar a casa, até que meu pai resolveu comprar uma bicicleta assucatada por cinquenta francos a um francês vermelhusco de saca a tiracolo que passava parte da tarde abancado numa taberna situada no nosso trajecto diário. Deste modo eu adiantava-me no biciclo meio desengonçado, na hora do almoço, para aquecer o tacho do macarrão, batatas e fressura de porco com que se nutriam os quatros familiares.

 

                                                                                                                     Barbosa Tavares

                                                                                                                     Maio de 2007