CRÓNICAS
FRANCESAS (XIV)
A casinhota não dispunha de
água canalizada , os ratos passeavam pelo tecto desforrado, no chão da cozinha
a ausência de grande parte dos azulejos expunha o ventre da terra, o quarto de
banho era uma daquelas latrinas à antiga fancesa, cada incursão no dito era
acompanhada de cheiro pestilento com um banho de urtigas que ladeavam o
apertado carreiro de acesso.
Havia um português de nome
Américo, natural de Viana do Castelo, homem de cinquenta e tal anos, grisalho,
baixote, de ameno convívio, veio para
França em criança, casara-se com um francesa e quase se esquecera de falar a
língua mãe. Desde a infância nunca mais
ouvira palavrear a língua mátria. Quando soube da nossa existência veio
eufórico ofertar a sua amizade, tagarelando num portugês afrancesado aproveitou-se para nos convidar a desaterrar o
seu quintal e rasgar uma vala para abrir umas escadas na traseira da casa.
Finda a tarefa, em dois domingos pela manhã, ofertou-nos uma opípara refeição:
um assado de vitela regado com todas as
venturas do deus Baco.
Surgiram na hora dois cunhados franceses
a visitar o nosso anfitrião, meu tio logo tratou de lhes mostrar um envelope com o endereço de
dois amigalhaços da terrinha , um era ex-cantoneiro,
colega de ofício, outro um pequeno
negociante o “Ismael das vitelas”, um tipo folgazão de sorriso sempre aberto ao canto da boca,
ambos andavam pela França a “binar” (1) beterraba.
De imediato os afáveis e gentis franceses juntamente com o
Américo se prontificaram conduzir-nos no domingo seguinte ao tal vilarejo a
visitar as ditas criaturas. Viajámos pelo nordeste de França cerca de hora e
meia, atravessámos a cidade de Reims e avistámos a majestosa catedral, referência sumptuosa que se grudou na retina
da memória.
Arribados ao tal lugarejo, avistámos uma dúzia de portugueses ao longe, entre
infindáveis verdejantes outeiros, vergados pela cintura, rosto pendente sobre o
solo a mondar beterraba. Meu tio
disparou uma estridente assobiadela e de seguida gritou: “ Ismael,
Ismael”, soerguerem-se todos a um tempo e olhando-nos desataram a esbracejar,
sorridentes, como se lhes tivesse surgido um clarão de esperança.
Aproximaram-se, mal atilados,
barba e cabelos desgrenhados, e vieram mostrar os seus modestíssimos aposentos,
por ali permacemos a indagar da terreola
de nascimento de cada qual a palrar sobre a dureza extrema do trabalho de
mondagem, ajoelhados na terra, curvados
ao sol ardente, doridos das costas e dos joelhos, outros queixavam-se de urinar
sangue. Sobre o descomunal esforço havia a recompensa dos francos amealhados para os pequenos sonhos da aldeia: comprar uma leira,
junta de bois ou acabar de pagar as
suas casas erguidas sobre a fiança de um padrinho compadecido ou compadre firme.
Entretanto o Manuel, o tal de rosto
patibular e somítico, aliciara o cunhado para a França, um indivíduo que viera
seduzido pelas farófias francesas do taralhouco que nunca nem ao de leve, pensara
no trauma induzido ao familiar—um menino de copos de leite , escriturário—ao
seduzi-lo para um trabalho árduo e brutal: cortar e carregar árvores e alombar
madeirame.
Chegou o desditoso carregadinho de carteiras
de cigarros “Paris”, “Português Suave”, garrafas de aguardente e brandy numa quinta-feira de
opulência e bajulação. Foi bem recebido a apaparicado enquando durou a
abastança, porém o Manuel ausentou-se no sábado, todo o dia a
trabalhar, ao domingo, como era
seu hábito, vestia a fatiota de ver a Deus e partia na sua bicicleta a veranear, sem
nunca dizer do seu destino. Presumia-se que ía sózinho pelas “pubelas” (2)
esquadrinhar bugigangas no lixo:-frasquinhos de vidro, carteiras velhas, pedaços
de pneu, parafusos, fios elétricos e outras inutilidades que apareciam em
casa e sobre as quais nunca falava da
proveniência.
Nesse sábado, notámos o recém-chegado,
incomunicável, fumando desalmadamente, a
palmilhar na estrada contígua a casa, para cima e para baixo num desaforo, ensimesmado, de olhos absortos no chão.
Ninguém previa o cenário caótico que nos aguardava ao chegarmos do tal passeio nesse domingo à
noite. Os vidros das janelas e pedaços de garrafas semeados por todos os recantos da cozinha. O
homem a sangrar pelo rosto, deitado no chão, embrulhado num cobertor, com um
atilho a amarrar-lhe as pernas e os
braços.
O Teixeira, perante o espectro da pobreza e
desolação aos quais se tinha vinculado oficialmente pelo prazo de
um ano, através de contracto de trabalho, descambou furioso, num ataque
de loucura, três homens possantes aquietaram-lhe a loucura.
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Notas: (1) aportuguesamento do
francês biner (mondar)
(2)
“ “ “
poubelle (lixeira)