BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XV)

 

 

Segunda-feira, ao emergir  da manhã surgiu uma ambulância em casa para conduzir o ainda tresloucado ao  hospital. Fui destacado pelo patrão para acompanhá-lo e servir-lhe  de intérprete. Durante o trajecto falava insistente numas batatas compradas  a  minha mãe que não pagara  e queria dar-me o dinheiro.

Apaziguei-o,  dizendo-lhe que não se afligisse,  minha mãe era paciente  e aguardaria  o pagamento quando ele regressasse a Portugal—regresso que eu presentia iminente—e ele a insistir, obcecado,  na dívida imaginária, até que arribámos no hospital.

Deparámos com um conjunto de edifícios de belo recorte arquitectónico, uma abadia do século XIX  recolhida entre centenários e frondosos arvoredos,  que fora transformada num gigantesco hospício mental. Toda a vida quotidiana girava em torno deste famoso hospital , denominado Prémontré, nome desta vilória ,  pelos franceses cognominada de   ” la ville des foux”, ou seja  cidade dos loucos .

Entrámos numa sala espaçosa  a aguardar  a vinda do médico. Pelos corredores cirandavam doentes com estranhas bizarrias; um abanava a cabeça de lado a lado como a pretender em vão libertar-se de um fantasma que o torturava, outro gesticulava e falava para si próprio sem cessar, um outro, cabisbaixo, de olhos fitos no chão, dava dois curtos passos e parava  a contemplar  o tecto,  alheado em absoluto do mundo circundante.

Entrámos num pequeno consultório, o médico  perguntou-me se conhecia o paciente e quis saber todos os pormenores que antecederam o acto de loucura, descrevi o cenário tal e qual me fora contado pelas testemunhas. A um sinal do médico , veio um enfermeiro injectar-lhe um potente sedativo , após uns segundos já o Teixeira dormia serenamente , o clínico decretou que o  paciente iria repousar uns dias e deveria regressar a Portugal logo que possível para usufruir do apoio emocional da família.

Regressei ao trabalho.  Uma estranha sensação de angústia apossou-se de mim, uma inquietação que demorou horas a dissipar, inconscientemente abalaram-me as  imagens de loucura testemunhadas , só meses decorridos viria a compreender   a razão de ser daquela perturbadora emoção.

A vida prosseguia ronceira na serração e avizinhava-se a mondagem da beterraba. Meu tio e padrinho que num acto de boa vontade nos atirara para aquele suplício,  rogava agora   que o ajudássemos nesta penosa tarefa.

Sentíamos a dívida pelo contracto de trabalho por ele   conseguido  e  o dever moral impunha-nos  ajudá-lo porque o seu gesto de boa vontade  sobrelevava as agruras do emprego que nos obtivera. Meu pai e tio, após longas e penosas horas a descascar árvores de machado em riste  palmilhavam cerca de cinco quilómetros,  directos da fabriqueta ao “farme” e dobravam o dorso a mondar beterraba até ao cerrar da noite , voltando de novo a pé para casa , por volta da meia noite ,  ainda frescos e felizes  a assobiar  porta dentro.

Competia-me e  ao meu  primo cozinhar e lavar a roupa, limpar a casinhota, entrementes,  à socapa, eu escrevia uma carta à namorada , dado que meu pai entendia que o filho devia casar rico e,  para vigiar o namorisco, tinha o cuidado de se antecipar  após ter a sua própria bicicleta , para  surripiar as cartas namoradeiras,  evidentemente não sabendo que eu e o Soares que era jovem e lesto havíamos pactuado para ele se antecipar na recolha do correio e entregar-me  as ditas cartas.

Meu pai suspeitava desta manobra,  esquadrinhava a minha mala em busca da correspondência. Eu sabia disto porque durante  almoço,  fazia jocosos comentários pelo facto da minha namorada não desfrutar de dotes terrenos. Dizia perante os presentes : “ uns não têm grande escola e arranjam gajas ricas”,  enquanto outros com estudos preferem  aquelas que apenas têm o “chão do bufo” e  o “lameiro das  regadas”, eram alusões desprimorosas   que reduziam  uma pobre à mera posse dos  orgãos  genitais com nomes brejeiros para  as risíveis propriedades  que não detinham. No mais absoluto silêncio  eu cumpria o dever  do respeito filial  com o sangue a espumar  de desespero.

Um belo dia , por sinal data  histórica , num domingo, 10 de junho ,  entendi que não iria mondar beterraba, recusei-me , dizendo que iria ficar em casa a cuidar das tarefas domésticas e também com o sentido de escrever  carta  prolongada e lamurienta à namorada. Não fui, deixei que todos partissem e fiz finca pé em não ir.  Não tinha decorrido uma hora  veio meu primo com este severo  recado patriarcal : “teu pai manda dizer que, ou vens ou ele vem-te buscar pelas orelhas” Desabou em mim  uma faísca de ira. Desferi um pontapé com tal violência na mala de viagem pousada sobre o soalho onde guardava a melhor fatiota vinda de Portugal  que esta ficou amolgada, vociferei, praguejei e lá segui irado a resmungar todo o caminho até chegar ao campo de beterraba

                                                                                                                       

                                                                                                           Barbosa Tavares

                                                                                                  Brampton, Ont. Canada

                                                                                                                Agosto de 2007