CRÓNICAS
FRANCESAS (XVI)
Pelo caminho rumo ao “farme”, a pedalar no biciclo decadente, amaldiçoei mil vezes a
vinda para França , porém a ira
dissipou-se com o ar campestre e soalheiro entre a imensa verdura dos outeiros
e o dorso vergado a mondar beterraba até ao anoitecer.
A ideia de permanecer naquele suplício entre a
serração e ajudar meu tio a mondar baterraba aos fins de semana , como se não bastassem dez horas
diárias em ajudante de uma serra circular, tendo por “mestre” um velhote argelino de má
catadura que arreganhava as ventas e contraía as narinas à mínima discrepância,
gerava imensa angústia. Para emoldurar
este penível quadro, havia , de onde a onde, uma incursão pela floresta a carregar camiões com rolaria de choupo com as lesmas grudadas na madeira a liquefazerem-se entre os dedos—uma repulsão que me
causava nojeira e desencanto total com a França.
Pensei em regressar a Portugal e cumprir a tropa. No jornal ” O Ilhavense”, pediam-se
ajudantes de administrador de posto para
Moçambique, senti uma vontade irreprímivel de me candidatar para fugir daquela
penúria, ainda que tivesse de ir combater
para África sem qualquer resquício de convicção. Aventei a hipótese a meu pai que logo me returquiu severamente.
--Tu queres é ir pra Portugal pró namorisco.Então
eu sacrifiquei-me tanto para te salvar da guerra e vens agora falar-me
em ir pró o Ultramar!..
Naquele tempo, mais que ousadia, seria
sacrilégio um filho argumentar a
sabedoria patriarcal . Deu-se a hipótese do regresso por encerrada , a única esperança residia em finalizar o
contracto firmado por um ano e depois mudar de cidade, provavelmente
para os arredores de Paris onde os empregos eram mais e melhor remunerados.
Os dias prosseguiam pasmacentos, faltavam
agora dez meses—uma eternidade para quem sofre—e levar a termo este suplício.
Dei comigo a engendrar a forma de rescindir o contracto, baseado no incumprimento das regras pelo patrão. Deste meu plano dei conta à merceeira que se tornara meia confidente do
meu desalento e frustração.
Era uma dama trintona, vermelhusca , sangue à
flor da pele, simpatiquissima, que personificava a tão querida expressão francesa “gentilesse”.
Manifestava uma certa simpatia e amabilidade pela nossa condi- ção de emigrantes, talvez pela dureza da vida e
ausência das nossas famílias, escutava
as minhas lamúrias, sobretudo o que eu dizia sobre a desumanidade do patrão. Garantia
que
eu não tinha hipótese de o vencer
,afirmava ser este rico e influente, e fora tão ávido de fortuna que, durante a segunda guerra colaborara com os alemães na denúncia cruel dos
seus compatriotas para assim apoderar-se dos seus bens.Era e uma figura
sinistra , usurária e desdenhosamente
apelidada pelos franceses de “ collaborateur”
Na serração, meu pai e tio faziam agora de
calceteiros , sobre um terreno de lama ressequido onde no inverno repousavam as árvores a aguardar descasque , com tijolos desmoronados de um
velho forno de uma arcaica fábrica de
tijolo que o patrão comprara por tuta e meia.Após uma semana de calcetagem, meu
tio, fruto de uma semana de canícula e
do esforço descomunal a carrejar tijolos e assentá-los , dobrado e de cócoras sobre os joelhos deu em urinar
sangue e viera para casa convalescer.
Num dia tórrido, sol a prumo, entremeado de
pavorosas chuvadas, tive uma dor no apêndice, fui ao médico e entreguei o
certificado ao patrão para justificar a ausência de um dia de trabalho.Este, agastado e de má catudara , atirou o dito para o chão.
Senti um remoínho de vento no estômago . Silenciosamente, dobrei-me para apanhar
o certificado e segui para casa desolado.
Deitei-me vestido sobre a cama, sem nada dizer a meu tio que repousava num
quarto lateral..Uma tal vaga de desolação com um garrote de saudade à mistura,
varreu-me a mente, desferi um tal grito
lancinante na lembrança de minha mãe que
meu tio veio a correr aflito inquirir sobre o meu estado de saúde.
O velhaco do patrão sugava a suprema
ingenuidade dos portugueses, aproveita-se do seu servilismo e, aos domingos de
manhã, convidava os mais simplórios a
carregarem-lhe um camião com atrelado de rolaria de madeira de choupo.Finda a
tarefa, pagava-lhes com um assado de carne e batatas, uma garafita de vinho: os desventurados consideravam-se luxuriosamente pagos.
Em caso de acidentes de trabalho, os
espoliados continuavam a trabalhar com os dedos esfarrapados e outras fracutras
menores. Sabiam que assinavam documentos para o
seguro mas nunca lobrigavam sequer
a memória de um franco.
Estas e outras injustiças enfureciam-me ao
rubro. Jurei vingar-me . Analisei o contracto de trabalho de fio a pavio para
anotar todas as violações .Elaborei uma carta, no francês que sabia para o Ministério da Agricultura na qual denunciava as condições miseráveis da habitação mais as
sete horas que nos eram surripiadas para
além do pagamento suplementar das horas
extraodinárias.