CRÓNICAS
FRANCESAS (XVII)
Aos fins de semana, a partir do meio dia de sábado, finda a colheita da
beterraba, mercavam-se as mercearias, vassouravam-se os aposentos, lavava-se a
roupa com água provinda de uma torneira
pública que distava uma boa
centena e meia de metros da casinhota,
sendo esta transportada em várias incursões com o corpo arqueado ao peso do regador.
À noite escutava-se um aparelho de rádio arcaico que tinha as feições
de um caixote sonoro da segunda guerra e nos consumira um bom naco da tarde a
encontrá-lo. Palmilhámos as ruelas da pacata vilória em busca da tal casa especializada na qual deparámos com um
autêntico museu de rádios antigos
apinhados em prateleiras , outros pelo chão derramados a esmo. Após referirmos
Portugal e escutado o parecer do dono da oficina , fechou-se o negócio por cem francos novos.
Nesse sábado ocupámos a noite na ânsia de captar emissoras portuguesas até que um sinal roufenho e intermitente deu conta da
Emissora Nacional a irradiar música folclórica. Foi uma emoção prenhe de
alegria nostálgica , convencidos na nossa inocência que àquela distância seria impossível
captar emissoras portuguesas.
Ao domingo à tarde dembulávamos eu e meu pai, sem rumo definido, pelos arredores da vilória na descoberta de
novos cenários em longas passeatas. Deparámos com um rio de pequeno caudal onde
uma embarcação parecia elevar-se acima do nível das águas. Intrigados,
abeirámo-nos para observar os movimentos da comporta a fechar-se
junto a um declive.Uma mulher ainda jovem, bonita e nutridinha, fardada a preceito, que presumimos ser a
capitão , assomou ao convés e acenou-nos risonha.
Os dias decorriam numa lentidão pasmacenta, inventavam-se judiarias
para libertar a monotonia opresssiva. O Francisco o tal macambúzio de rosto
patibular, avesso a amizades que
não lhe rendessem benefícios, aos
domingos, vestia-se a rigor, fato gravata.
Partia a solo cirandando
pelas lixeiras em busca de
inúteis miudezas, acabando por chegar a casa noite dentro.
Murmurava-se na caserna ,
sobretudo devido à sua prolongada
ausência—porém eu nunca acredi-tei--que ele teria cativado o coração de uma francesa.
Acabado de sair, montado no seu biciclo
numa das suas rondas dominicais ,
logo ali se estabeleceu um conciliábulo sobre a forma de lhe pregar uma
monumental patifaria.O Soares que era
mestre nestas andanças de patifagem, colocou um balde plástico- uns bons dez
litros de água- pendente da parede sobre a porta de entrada em tal posição que,
ao a abrirem um pequeno dilúvio desabaria
sobre a cabeça da vítima. Todos se foram
deitar, fingindo que dormiam a aguardar a hora do desfecho da maroteira.
O plano traçado foi eficazmente atroz.
Enraivecido, cabeça a escorrer, num
banho imprevisto o Francisco
desatou a praguejar impropérios contra
este aquele e aqueloutro. Todos se
insurgiram ríspida e autoritáriamente a clamar inocência a uma só voz .Afinal
não fora ninguém senão a Divina
Providência. O nosso homem não
teve outro remédio senão tragar mansa-mente a humilhação.
Eu já havia manifestado abertamente a intenção de não levar a termo o
contracto e naturalmente levaria comigo de arrasto meu
pai, tio e primo. Pensámos em criar um clima de suspeição com apropriados imbróglios
de forma a alarmar o patrão e criar-lhe
um clima de sobressalto para a eventual perda de quatro dos seus afincados trabalhadores.
Sabíamos que o “malagrosso” (1), um tipo vermelhusco, anafado e servil
que se derretia em sorrisos de serventia bacoca se encarregaria de levar ao
patrão todo e qualquer sinal do nosso
descontenta-mento.
Nem de propósito!... Num domingo , rente ao meio dia , não se sabe de
onde, surgiu uma portuguesa, quarentona,
perfumada e vistosa,. perdida em busca de um endereço que nenhum de nós conhecia
. O Soares logo tratou de exibir os seus valiosos préstimos e ofereceu-se para gentilmente servir-lhe de
cicerone. Levou a dama a um restaurante,
acompanhou-a ao comboio , sem antes , segundo contaria mais tarde, ter
desfrutado em pleno dos seus abonados dotes de Dom Juan.
Ardiloso e inventivo, este
minhoto finório, sabendo dos nossos planos de rescisão do contracto logo
aventou a ideia que deveríamos circular o boato que a tal senhora viera da parte do Consulado de
Portugal em Paris, examinar as condições higiénicas da habitação e averiguar o cumprimento das leis de trabalho
estabelecidas no contracto.
Dito e feito, no dia seguinte,
tal como havíamos previsto, veio o
patrão , apreensivo e cauteloso , com palavras mansas, indagar-me sobre as
funções da senhora. Limitei-me a cofirmar
a “veracidade” dos factos e elaborei a meu gosto sobre as perguntas que a
“funcionária” hipoteticamente fizera.
(1) aportuguesamento do
francês mal gross (gordalhudo , mal
feito)
)