BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XVIII)

 

 

Meu tio carteava-se com um cantoneiro, antigo colega de profissão,  que fora para França atafulhado

de filharada, cujo primogénito um rapazote esfuziante de vida, Franklim de sua graça,  possuía um carro  novo em folha, um feito assinalável em meados dos anos sessenta para um jovem luso em terras gaulesas.

Nas cartas trocadas,  o tal amigo de meu tio ufanava-se de ganhar quase o dobro do nosso mísero salário numa fábrica de tubos de cobre  nos arredores da cidade de Provins , Departamento de Seine-et- Marne numa região altamente industrializada que atraía milhares de jovens, sobretudo portugueses escapulidos à guerra do Ultramar.

Apareceram-nos numa bela tarde soalheira de  Junho, pai e três filhos num belíssimo “Taunus”,  azul-turquesa, a reluzir , novíssimo,  lá nos confins do nordeste gaulês , próximo da Bélgica onde mourejávamos , a ofertar seus valiosos préstimos.

Uma nova esperança ressurgiu na presença desses amistosos concidadãos. As suas palavras que falavam de uma outra França por nós desconhecida ressoavam a tábua de salvação.

Através da generosidade do chofer, cujo sogro  Monsieur  Acácio era uma espécie de protector venerado dos portugueses que lhes obtinha contractos de trabalho,  ajudava em busca de alojamento e servia de tradutor e intérprete  a quem rogasse  seus préstimos.

Os nossos anfitriões falavam em usinas, fábricas de plásticos, lentes,  adubos, indústrias por todos os recantos onde havia trabalho a rodos para quem o desejasse melhor remunerado que na região agrícola e florestal do Departamento de L’Aisne onde vivíamos. Ofertámos uma petiscada fartamente regada a vinho e cerveja aos nossos convivas,  e a tarde consumiu-se em recordações mátrias, na aferição do sonho em terras gaulesas e no delinear de  melhores  empregos.

Após demorado conciliábulo intra-familiar decidimos: eu e  meu tio sem darmos patavina a ninguém,   íriamos falar com a tal alma caridosa em busca de orientação para fugirmos de um patrão desalmado e de um emprego penível e mal remunerado.

Manhã cedo tomámos o comboio rumo a Paris até à Gare du Nord, depois palmilhámos um bom pedaço até à Gare de L’Est e viajámos cerca de duas horas até uma vilória cuja vida girava em torno de uma imensa  fábrica de tubos de cobre circundada pelos bairros residenciais do operariado e   estação ferroviária. Dali, tomámos um táxi que e  fomos ao encalço de Monsieur Acácio. 

Era um tipo nos seus quarenta e poucos anos , farta cabeleira grisalha a cobrir parte das orelhas e falas mansas, um homem cordato com personalidade vincada , de maneiras afáveis para quem viera das agruras do campo, sempre de mãos abertas para quem se lhe dirigisse em busca de auxílio.

Nada cobrava pelos seus serviços,  embora os necessitados sentissem a obrigação de o recompensar pela amabildade e préstimos, de facto era-o pela maioria que ocorria à sua generosidade e bem o merecia pela cortesia e prontidão em ajudar seus concidadãos.

Amancebara-se com uma portuguesa muito mais jovem, após corte com a  esposa, um escândalo sussurrado naquele tempo e, enquanto convalescia de uma doença grave, aprendera francês bastante para “ desemerdar” a portuguesada , expressão afrancesada na girândola emigratória que correspondia lusamente à nossa propensão para o desenrascanço.

Visitámos o nosso filantropo num local meio ermo, demominado Pongelot onde só existia a tal fábrica de lentes que empregava dezenas de portugueses e um enorme prédio antigo de quatro  pisos e frontíspico mal atilado em pedra com alguns remendões de cimento, um autêntico pardieiro com um rasgão no centro-- garagem que atravessa o dito de lado a lado-- sem portas, onde se amontoava sucata a esmo.

Aqui se aboletava parte do operariado, na sua maioria portugueses, espanhóis, italianos e polacos, entre os quais o nosso protector que foi connosco ao Centro de Emprego averiguar  possibilidades de trabalho e mudança de Departamento com o à vontade e confiança de quem tinha familiaridade com os funcionários e palmilhava desinibido os corredores das repartições do Estado.

Dispúnhamos de uma carte de travail com a designação do emprego e Departamento que limitava o

exercício deste. Não se mudava de profissão à toa, apenas com a designação de manouvre que permitia apenas o desempenho de tarefas manuais. Os movimentos dos emigrantes eram me- ticulosamente controlados quando não se confinavam ao estabelecido na tal carta de trabalho e residência Com oferta de emprego obtida na fábrica das lentes, através do empenho de Monsieur Acácio, reacendia-se em sonho  o pesadelo francês.

                                                                                                                                      Barbosa Tavares

                                                                                                                                         Junho 2008