BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (XIX)

 

 

Os dias prosseguiam doridos: saudades atrozes da mãe,  da namorada, salário  e trabalho  peníveis naquela mísera serração. Bastava antecipar a lembrança do futuro inverno soterrado entre  troncos de madeira cobertos de neve  no  lamaçal na oficina manhosa  sem resguardos para além de um tosco telhado de chaparia,  perante um patrão somítico  para quem  valia mais uma trave de carvalho que um homem.  Havia razões de  sobra para  justificar a nossa evasão daquele presídio.

O ambiente crispara-se ainda mais,  desde que o patrão me chamara ao escritório  e, na presença do filho,um navalhão corpulento e barbudo, troglodita de metro e noventa apodou-me de  agitador,  revolucionário  e  ameaçou  trucidar-me  numa próxima oportunidade com  um camião–atrelado de vinte toneladas.

Enraivecido, desferi dois murros sobre  a secretária e disse-lhe que nem ele, apesar do seu  tamanho , nem o camião me intimidariam em busca da justiça. Ergui a voz e reafirmei que iria prosseguir até ao final a queixa no Ministério do Trabalho, que as intimidações só serviriam para acelar a rescisão do contracto logo   que a lei permitisse. Furioso, levantei-me de supetão e ao sair bati com a porta , estrondosamente,  com o sangue em labaredas.

Antes uns dias, quando fui acometido de  dor no apêndice , apresentei-me a entregar uma nota do médico ao patrão, este desdenhosamente atirou o papel  ao chão . Sabendo dos nossos movimenttos secretos para para quebrar o contracto, tocou-me com a mão no ombro e apontou-me o dedo em riste.

Disse-lhe que não ousasse tocar-me , desferi um soco  no guarda lama de uma velha furgoneta,  olhei para ele furibundo e contive-me em respeito aos seus cabelos brancos.  Na carroçaria da dita meu pai e tio observavam a cena enquanto carregavam aparas e serradura. Egueram ambos as forquilhas no ar e com gestos ameaçadores dirigidos a patrão e bramiram em português:

--Se ele te tocar , vaza-se o bandido e enterra-se no forno de queimar a lenha , que era um enorme caixote feito de bidons soterrado ao fundo de uma pequena alameda de choupos ao fundo da qual emergiam incessantes fumarolas , fruto da queima contínua das aparas.

O patrão arremedou-os num trautear  trocista  e eu senti-me tão indignado que me apartei sem dizer palavra.

Tornava-se imperioso fugir daquela situação penosa  e recorrer aos encómios de Monsieur Acácio benemérito e  apóstolo da causa emigrante  em terras gaulesas que nos granjearia trabalho na tal fábrica das lentes.

Com o emprego firmado , eu  e meu tio,  após deslocação  à cidade de Provins, consultado  o benfeitor,  regressámos a Paris rente ao anoitecer. Perdido o comboio , pernoitámos na gare à espera da manhâ seguinte afim de prosseguir viagem.   

Aquela noite soube a eternidade. Eu e meu tio sentados nos bancos da “gare du Nord” a dormitar, despertados pelos polícias que indagavam a nossa proveniência, estranhado  aquelas duas almas por ali semeadas em plena  madrugada. Notaram pela certa tratar-se de ordeiros  emigrantes  que nada mais aspiravam além de trabalho no  granjeio de  meia dúzia de francos. Expliquei-lhes: os hóteis em Paris eram carissimos para os nossos minguados recursos, preferíamos uma noite ao relento que desembolsar uma semana de salário a troco de meia dúzia de horas dormidas no confortável leito de um hotel. Por ali cirandámos até ao romper da manhã entre um dormitar vago e sobressaltado nos bancos e a  palmilhar dentro e fora da gare  vendo  as montras dos estabelecimentos. Por volta das três  da madrugada o tempo congelou  e a angústia grudou-se nos emormes ponteiros do relógio. .

Mais umas voltas fora e dentro da gare. Num ápice seis da manhã. Paris fervilhava de trânsito Num corropio de táxis e  o grito aflitivo das ambulâncias numa azáfama que estonteava as meninas  dos olhos e zumbia estridente nos ouvidos.

 Eis-nos de regresso a Anizy-le-Château, à minúscula vilória , com emprego prometido a polir lentes ópticas, na satisfação de vislumbrar o final do calvário na serração de madeiras.

 Arribados, todos os colegas de trabalho mostravam surpresa pela nossa ausência e arrojo, enquanto o patrão fumegava de raiva pela nosso atrevimento em mandar às urtigas um contracto que nos amarraria naquele de degredo por um ano.

                                                                                                                                                Barbosa Tavares

                                                                                                                                                Outubro de 2008