CRÓNICAS
FRANCESAS (II)
Por alvitre do mentor-engajador, elaborou-se o seguinte estratagema: ao despedir-me do emprego de guarda livros em gestação, alegaria subtilmente ao meu patrão que—a não esquecer a existência da Pide—meu avô, vivente, para as bandas de Sever do Vouga, num vale esplendoroso, de verdes milhos, em socalcos incrustrado, entre penedos e pinheirais, estava gravemente enfermo
Meus pais, por exigências da vida, não podendo cuidá-lo, eu iria para a “serra”, investido nas minhas filantrópicas funções de neto-velador, por volta de quatro semanas.
Menti, cândido, nos meus dezasseis anos, convicto que o Eldorado me aguardava, ciente que nunca mais teria que confrontar o meu ex-patrão, caracterizado pelo obstinado puxar de calças às ilhargas com os cotovelos—creio que para evitar nódoas das mãos oleadas—enquanto cuspinhava repetidamente.
Quando regressei da aventura francesa, ainda tive a tímida coragem de lhe pedir o mês de salário em atraso. Quase me escorraçou, vociferando: “ Então...deixaste-me enrascado, tudo em desordem , e ainda me vens pedir o salário!...”
Compreendi de imediato a minha incorrecção laboral. Virei as costas humilhado e nem sequer ousei apresentar queixa no Tribunal de Trabalho, como alguém sugerira.
Fui com a minha mãe à “Tricana” do Senhor João Teles--um vero gentleman, respeitadíssimo e prezado, de finíssimo trato e insuperável cortesia. Na loja, abrigava como protegido e auxiliar, o Bento, alma de rosto sombrio, olhos cavos nas órbitras, absorto num mundo-outro.
Estranhava aquele ser que conhecera desde a infância. Nunca detectara na sua alma a mínima emoção, parecia-me, aparentemente, ausente da vida. Era-me um drama pressentido, num conformismo enigmático.
Mercou-se um par de sapatilhas e duas camisas. Eis-me, com meu companheiro de aventura e o ”passador” a caminho de Vilar Formoso, com um pequeno embrulho debaixo dos braços, fito na ideia da libertação da guerra , esperançado numa vida abarrotada de francos.
Na Pampilhosa, enquanto aguardava o comboio para a Guarda---um rebate na alma.Subitamente pensei—onde irá desaguar esta aventura?—apartado de meus pais, do meu videirinho e misérrimo emprego de seiscentos escudos ao mês. Um levíssimo frémito, de nostalgia de minha mãe e de Ílhavo , perpassou-me o corpo.
Senti-me desprotegido, ao Deus dará, porém, não era este o momento de baquear.Lançados os dados, havia que prosseguir a despeito de qualquer temor ou reluctância.
Para não infligir desânimo ao meu companheiro de viagem, abafei as emoções na sombra da inquietação. Na longa viagem, apercebera-me de um Portugal que me era desconhecido: uma desolação pedregosa que o comboio, ronceiro, ia desbravando, com uivos soltos, por entre riachos, fragas e mais fragas.
De onde a onde, um homem emergia , talhado no magro húmus, por entre urzes e granito, cajado na mão, manta pelo ombro descaída e uma vintena de ovelhas e cabritos , numa beleza agreste, a relembrar o duro fadário destas gentes.
Na Guarda, cidade altaneira e fria, pernoitámos numa daquelas pensões recatadas, caseiras, num quarto humilde, ornamentado pela bacia de esmalte, jarro esboicelado e mobiliário a ressumbrar antiquidade.
O nosso “ passador” , homem pleno de estultícia, não achava precavido avançar de uma tirada para Vilar Formoso, no seu entender, seria mais avisado prosseguir cautelosamente.
Em cada rosto, sizudo e circumspecto, de olhar fincado, vislumbra-se um potencial agente ou “bufo” da dita.
No dia seguinte, avançámos para a fronteira e por lá ficámos numa casinhola de um dos conluiados do nosso engajador, à espera que os ventos soprassem de feição, isto é, que a rede de engajadores rasgasse a tal clareira de acesso a Espanha.
Pela noitinha dentro, numa suavíssima e luarenta noite de Março—uma dúzia e meia de passos. Num ápice , galgámos a fronteira, estavamos em Fuentes de Onoro, com a emoção telúrica de haver transposto terras de Espanha. Um minúsculo automóvel aguardava-nos . Em menos de meia hora, estávamos em Ciudad Rodrigo. Fiquei sempre com a convicção que eram os próprios alfandegários , e outros que tais, a manobrar, na penumbra , estas tramóias trans-fronteiriças a troco de umas bem segredadas notas.
Barbosa Tavares
Outubro de 2005