CRÓNICAS
FRANCESAS (XX)
Felizmente, poucos dias decorridos, surgia carta do Ministére du Travail a
requerer a nossa apresentação na cidade de Laon, cidade-capital do Departamento
de L’Aisne, para resolver o conflicto após a queixa apresentada contra o patrão sobre o incumprimento das condições
estabelecidas no contracto de trabalho--alojamento indigno e
não pagamento das horas extraodinárias.
Eu tinha-me dirigido numa motocicleta emprestada, pertença de meu tio e
padrinho que laborava num farme a
ordenhar vacas numa aldeola a caminho da cidade-capital. No trajecto deparei
com uma alma solitária que caminhava pela berma da estrada entre infindos
campos de beterraba vicejante. Pelo jeito
de caminhar com o casaco a tiracolo, humilde e surrado, senti
tratar-se de um português .Parei, perguntei-lhe de onde era natural,.se estava
bem e precisava de boleia. Respondeu-me ser do Concelho de Sever do Vouga, ía a
caminho da casa de um confrade que andava no amanho da beterraba e vivia nas
redondezas, estava próximo, agradeceu os meus prêstimos, desejei-lhe boa sorte
e prossegui viagem.
Arribado na cidade desconhecida,
deambulei perdido, desatinado em busca do Ministére
do Travail, pará aqui, pergunta acolá , até desocultar o local destinado.
Situava-se na parte histórica do burgo, a meio de um encosta onde pairava um
castelo afidalgado e casas apalaçadas com perfil monárquico em pedra escura erguidas. Subi uma escadaria
de pedra, entrei numa sala e deparei no
corredor com uma tabuleta que designava as várias repartições de Estado. Entrei
na saleta designada, aguardei o
funcionário que se encontrava numa sala contíngua por detrás de uma
escrivaninha sobre a qual assentava um
moderna máquina de escrever.Um tipo de fato azul, engravatado a rigor e extremamente polido, abordou-me,
certifiquei-me do local exacto e logo despejei de uma assentada
todos os agravos patronais.
Elaborei em catadupa todos os malabarismo do patrão, com o sangue a
esfervilhar. O funcionário escutou atento
e afável e disse-me para apresentar todas as reclamações por escrito, incluindo o cálculo das horas
extraodinárias que nos eram devidas e
lhe enviasse prontamente tudo pelo correio.
Assim procedi, não tardou convocatária
a requer a nossa apresentação para contestar o patrão de viva voz .Havia um único taxista na vilória. Um
francês atípico, altíssimo e magricela, rosto escaveirado, bigode farto e
retorcido, lunetas grossas e circunspecto, que era também o proprietário de um café onde pontificava
a filha, uma menina recém-orfã, serena e esbelta de olhos ramalhudos e cabelos
fartos amarrados na nuca , viçosa no rosto e aristocrática no porte. Entrei no
café, o taxista estava num recanto a ler
o jornal a saborear um cigarro. Puxei do endereço e perguntei-lhe se nos poderia conduzir àquele
local no dia aprazado pelas dez horas da
manhã. “Oui ,certainement mon vieu., pas
de probléme”, respondeu prestimoso e cordial.
Eis-nos de repelão no gabinete do Ministére
du Travail. Tio, primo, meu pai e eu próprio. O funcionário levou-nos para
uma sala onde, sentados em redor de uma
mesa ampla, aguardámos a chegada do
patrão. O ambiente era de nervosismo e crispação, sobretudo da minha parte, dado
que me competia servir de porta-voz e intérprete do grupo.
Chega o patrão, senta-se do lado oposto da mesa. O funcionário ergue-se da
cadeira e diz-me para apresentar a
queixa. Levantei-me de supetão da mesa, apontei ao patrão o dedo indicador a
fumegar e, num assomo de indignidade, desferi: “Este senhor é um gatuno, um
sanguessuga dos portugueses, um larápio
que rouba o sangue e suor dos infelizes”.
O patrão ruboresceu, olhos faíscantes por detrás das hastes metálicas dos
óculos, embatocado, sem tugir nem mugir.
O funcionário interpelou-me num tom apaziguador : “ Monsieur Tavarez, por
favor, calma., calma...”
Puxei do papel onde tinha elaborado o cálculo das horas extraodinárias. Meu
pai e meu tio interferiam a uma só voz: “ Não queremos
dinheiro nem nada desse bandido, queremos apenas que o contracto acabe hoje
mesmo”, traduzi com ênfase a vontade manifesta
de expungir aquele calvário.
O patrão anuiu de imediato, exigindo uma condição: deveríamos abandonar de
imediato o alojamento e não permanecer nem mais um segundo além do tempo
necessário para emalar os nossos parcos haveres.