CRÓNICAS
FRANCESAS (III)
Vagueámos pela cidade em longos passeios, até mergulharmos nas entranhas da noite. Entrámos num bar,
onde ”nuestros hermanos”, no
rubro da emoção, estridentes, devoravam cerveja por enormes canecos de vidro, no
delírio da tourada que decorria na televisão.
Senti nitidamente que os Espanhóis eram mais ébrios de sangue, mais vibráteis
no desafio perante a morte do touro, que nós Portugueses, mais comedidos e
condescendentes nas lides do toureio.
Vergados pelo cansaço e alguns temores, venceu a sonolência. O nosso “passador”, relembra: domir num
hotel, sem passaporte, seria arriscadíssimo. Deambulámos, pelos arredores da
cidade, com redobrada cautela, em busca de um esconderijo, seguro e recatado,
onde consumir a noite.
Havia um velho carro de cavalos abandonado, num ermo, com lenha e cepos
informes, sob o mesmo, para ali atirados à sorte . Acertou-se que dormiríamos
às estrelas, acantoados entre os tais cepos. De hora a hora acordávamos com os galhos
do madeirame a penetrar na carne, a desejar que a noite se esvaísse rápida.
Vigiavámos em derredor, a perscrutar
algum bulício: o olhar em busca do rastro de um qualquer polícia.
Apesar do vigilante dormitar, a abóboda celestial era de azul-veludo, semeada
de estrelas, a infundir esperanças
francesas.
Rompe-se a manhã, ainda com vestígios nocturnos. Surge o nosso
“passador”, com a frescura de uma noite bem dormida no hotel, a
inquirir, com ar desanuviado de alívio,
logo que nos enxergou, sobre a noite dormida ao relento. Rumámos à estação
do caminho de ferro. Comprei um jornal Espanhol, talvez num desejo
inconsciente de tornar insuspeita a Lusa
proveniência. Três bilhetes para Salamanca. Arribados na cidade, consumimos o
tempo a vaguear pelas ruas, enquanto o nosso “passador”
procuraria um tal Espanhol, perito em
transpor gente nos Perinéus.
Ancorámos num parque onde ternos avôs passeavam ,de mãos dadas, seus netos,
enquanto, jovens namoriscos entreolhavam-se, em lances de ternura, sentados em
bancos de pedra ladeados por esmerados canteiros de flores.
Por ali permanecemos horas a fio, saboreando , reluctantes, os nóveis sabores da paisagem
salamanquense, até que nosso
mentor arribou com a boa nova: dormiríamos em casa do tal Espanhol.
Na manhã seguinte, prosseguiríamos viagem. Palmilhámos o centro da cidade
com seus prédios seculares e clássicos, dos quais ressaltavam a centenária
Universidade, entre outros belos edifícios de requintada traça arquitectónica.
No bulício matinal da cidade a despertar, eis-nos na estação dos caminhos
de ferro, um edifício altaneiro a fervihar de gente. O “passador” adquiriu quatro billhetes com destino a Vitoria. Ele e o seu cúmplice
Espanhol, precavidos, seguiam numa outra carruagem, para, em caso de falhanço,
permanecerem a recato
das implicações legais.
Sobre os trilhos do comboio, comtemplámos uma Espanha ensoneirada,
apeadeiros desolados e casebres tristonhos,
lugarejos assombrados numa pobreza pasmacenta, que o comboio ia galgando num
tédio pressuroso.
Em Medina del Campo, havia que fazer o transbordo que nos levaria a
Vitoria. Aqui se deu o malogro da operação. Neste rodopiar ,imbuídos num caudal
de gente, deparámos com um enorme dístico em letras garrafais, onde se lia:
CUIDADO CON LOS RATONEROS .
De imediato, levei as mãos à carteira e olhei o meu cúmplice, também ele de rosto apreensivo.Decorrido
algum tempo de viagem, surgiu o cobrador
, exigindo um pagamento extra de vinte pesetas. Não tinhamos em nosso poder uma única
moeda ou nota espanhola.
Os nossos mentores não souberam futurar o que se revelaria ser um deslize fatal. Eu e o meu companheiro de aventura
balbuciámos , aflitos, em busca de solução.
O cobrador olhou-nos perplexo, afincadamente .Sugeri que um de nós
teria que se dirigir à outra carruagem, em busca das ditas pesetas. O
meu companheiro decidiu-se. Avançou de imediato ao encontro do “ passador” e do tal Espanhol que supúnhamos
Mestre em galgar os Perinéus.
Pela certa, o revisor terá participado à Polícia que dois portuguesinhos,
suspeitos, intimidados, sem “plata”, iriam clandestinos, a caminho
de França.
Não tardaram quinze minutos. Entra na carruagem um detective.“Passaportes
por favor. Policia, passaportes por favor”,enquanto dobrava a lapela do
casaco, a mostrar a identificação
policial.
Fiquei congelado, o meu companheiro de aventura, estarrecido, olhámo-nos cientes do cárcere
que nos aguardava . Foi-nos dito que sairíamos na próxima paragem,
exactamente na estação de
Burgos. Dois polícias aguardavam-nos.
Somos levados para o edificio da mesma, numa saleta, onde havia dois exíguos quartos
laterais, ambos com um tosco banco longitudinal, num dos quais nos sentámos, desolados , a lacrimejar a nossa desdita. Deram-nos umas sanduíches de
anchova, mal atiladas, e dormimos vestidos, sobre as tábuas do soalho denegrido
, num aziago Sábado de Março de 1965.
Barbosa Tavares
Dezembro de 2005