CRÓNICAS
FRANCESAS (IV)
Na manhã seguinte, domingo airoso
e soalheiro, seguiríamos, para a cadeia
, num táxi, algemados em parelha. O polícia que nos aguardava numa sala ricamente
adornada—deveria ser um oficial de alta patente—grisalho, aprumado, fardado a
rigor, respirava autoridade e começou por ironizar, ao ver-nos chegar,
algemados em par , gracejando: ”Parecen
los novios”, e sorria num gozo
deleitoso, enquanto um subalterno aparelhava a máquina de escrever na elaboração
do relatório.
--Su nombre? Nombre de su padre y
su madre? El dia y ciudad de nascimiento?
Um dos oficiais achava uma graça
imensa quando referíamos o vocábulo lembrar por recordar, e ria com outros polícias, enquanto o interrogatório prosseguia, minucioso, num extenso quarto de hora.
Quanto surgiu a pergunta
sacramental:--porque entrámos em Espanha sem passaporte? A lição estudada a
preceito, saltitou ,desassombrada, na
ponta da língua.
--Queríamos ver o Real Madrid—Benfica.
Em Portugal , devido à nossa idade e situação de guerra no Ultramar, nunca nos emitiriam passaporte.
Levados pelo fervor clubista, decidimos
avançar por nossa conta e risco
nesta aventura—apenas
isto—queríamos ver o glorioso Benfica na
semi-final da Taça da Europa.
O nosso passador acentuara,
repetidamente que a palavra França, em caso de interrogatório policial, não
deveria constar do nosso vocabulário,obviamente mais apostado em defender a sua
pele, em caso de malogro da aventura, que propriamente em nossa defesa.
Dali seguimos para o presídio. Serviram-nos
lentilhas com pedacinhos de carne de vaca encravados em ossos ponteagudos, empapados numa mistela
amarelenta.
Ali nos acantonaram com dezenas
de presos, fautores dos mais variados delitos. Alguns portugueses vieram ter
connosco, a indagar das nossas peripécias, apresentando-se curiosos e irmanados no fado prisional.
Na minha ingenuidade, escrevi uma
carta ao nosso Embaixador em Madrid,
rogando o favor da sua prestimosa intervenção diplomática. Na resposta
,aliás, sem delongas, veio uma carta com uma civilizada reprimenda, por havermos
transposto a fronteira sem passaporte, sugerindo que aguardássemos o desenrolar
do processo nas mãos das autoridades
Espanholas.
Durante a semana, fomos
recrutados, para desatafulhar o aterro de umas obras operadas na cave da prisão.
Com um cesto carreado a duas mãos, eu e meu
companheiro de aventura, gozámos o sol, em liberdade vigiada, durante algumas
horas, despejando o entulho numa vala fronteira ao presídio.
Ainda sugeri ao meu companheiro,
mais em tom de paródia que realismo:--se fugissemos? Dois guardas prisionais,
estavam ali a dois passos, de ar soturno, hirtos, de arma em riste. Além do mais,
sem grandes dinheiros, nem alma conhecida em Espanha, que nos restava senão a
via da plena resignação?
Durante três semanas desta
hospedagem prisional, alguns dos presidiários, em jeito de granjear a nossa
intimidade, segredavam-nos a razão de ser da clausura dos prevaricadores.
Um “passador” Espanhol contava-nos recambolescas peripécias, algumas intercaladas
entre o cómico e o trágico: Portugueses em camiões, sonegados em caixotes,
entre fardos de palha e gado, outros anichados em câmaras frigorificas ,
fingindo-se carne congelada, até ao dia em que estultos alfandegários
desvendaram a marosca.
Carros conduzidos por temerários chauffeurs que se recusavam a parar à
ordem dos carabineiros na fronteira, com portugueses na mala a serem
desapiedadamente alvejados.
Horripilantes aventuras nas quais a vida se colocava em jogo nos Pirenéus, por entre carreiros
íngremes e precipícios de arrepiar o mais afouto, com os “salteantes” a
seguirem agarrados numa corda, para se não perderem ou despenharem em
tenebrosos desfiladeiros, nas trevas da noite.
A mais pungente tragédia consistia
na ameaça de abondono por parte dos “passadores”, quando algum contorcia um pé,
ou adoecia, tornando-se um impecilho no prosseguimento da caminhada pirenaica.
Surgiam incendiadas disputas entre
o “passador” e membros do grupo que se recusava abandonar um companheiro ferido à mercê do destino que
não poderia ser outro senão morrer à míngua num abandono terrificante.
Em momentos crispados de tensão o
“passador”exibia a pistola em sinal de imposição da sua ordem, mas o grupo
solidário, elevava a voz, fazia coro da sua indignação e carregava às costas o companheiro vítima de entorse, e
todos se revezavam neste hercúleo esforço, até ao desfecho da travessia pirenaica.
Entre os presos havia toda a
casta imaginária de personagens. Um velhote, de farta cabeleira prateada, retraído,
de parcas palavras. Dele se dizia em
surdina entre os presos mais antigos: ao
surpreender a esposa em flagrante delito de infelidade, desferira-lhe um golpe
de machado com tal fúria de vingança,
que a cindira em duas metades.
Havia sobretudo, refinados
carteiristas de primeirissima classe e outros
prevaricadores menores. Eu, para
resguardar a preceito meia dúzia de notas, recatava-as à noite, no interior do
colchão de palha e, durante o dia, escondi-as, aconchegadas dentro de um
saquinho plástico com uma pregadeira cravada na camisola.
No intervalo do recreio, um
recinto muralhado a preceito, enquanto alguns pontapeavam uma bola,
outros mercavam na cantina uns cigarros,
um pacote de bolachas e “ una
cerveza” , enquanto nós portugueses, num grupinho de cinco, vociferávamos
entre dentes, por estarmos ali misturados com toda a sorte de delinquentes pelo simples facto de havermos transposto a
fronteira sem passaporte.
Havia um negro, creio que senegalês,
que me fizera crer ser artista e ter contracenado
com Brigitte Bardot. Pedira-me que lhe escrevesse uma carta em Francês, que lhe
fora endereçada quando a artista se
exibia no máximo esplendor dos seus “dotes” artísticos.
Havia, sobretudo “ratons”, de tal sorte proficientes e
hábeis no manejo da sua arte que até luvas,
peúgos e outras peças de vestuário menor desapareciam misteriosamente
do interior da prisão, para nunca mais serem enxergadas.
Tinhamos aulas de religião que
antecediam o almoço: consistiam na leitura e interpretação da Bíblia . O
professor, homem delicado e cortês, pedia a um aluno para ler um naco da Bíblia
e, de seguida, analisava com profundas ilustrações verbais o texto lido.
Calhou-me, na primeira aula, a
leitura do Génese: “In el principio créo
Dios los cielos y la tierra. La tierra era caos y confusión y oscuridad por
encima de la abismo, y un viento de Dios aleteaba por encima de las aguas. Dijo
Dios:” Haya luz” y huve luz”.Vio Dios que la luz estaba bien, y apartó la luz de la oscuridad; Y lhamó Dios a la luz “dia” y la oscuridad lha lhamó “noche”.
Y atardeció y ameneció: dia primero. Dijo Dios: “ Haya um firmamento por en
medio de las aguas, que las aparte unas de otras.”E hizo Dios el firmamento: y
apartió las aguas de por debajo del
firmamento, de las aguas de por encima del firmamento. Y assí fué. Y lhamó Dios
al firmamento ”cielos”. Y aterdeció y ameneció: dia segundo.
Digo Dios: “ Acumúlense las aguas por debajo del
firmamento en un solo conjunto, y déjesse ver lo seco: y assí fué.Y lhamó Dios
à lo seco “ tierra”, y al conjunto de las aguas lo lamó “mares”; y vio Dios que
estava bien”.
E a leitura prosseguiria até ao
final do primeiro capítulo.
Barbosa Tavares
Brampton, Dezembro , 2005