CRÓNICAS
FRANCESAS (V)
Um dos presos, um rapazote espanhol, abordava-me de quando em vez, oferecendo os seus serviços para lavar a roupa interio a troco de meia dúzia de pesetas. Um outro jovem rivalizava na oferta por cinco. Desdo logo, estas almas eram desprezivelmente apodadas de “maricons”, pelos restantes presos, ainda que ninguém cuidasse de averiguar a veracidade de tão lestas e peremptórias afirmações.
Ao domingo, havia rancho melhorado, com direito a televisão por duas horas—uma benesse da qual ninguém prescendia. Pela primeira vez, escutei um filme americano falado em espanhol. Fiquei a saber que, na vizinha Espanha, não permitiam a retransmissão de filmes estrangeiros a não ser dobrados na própria língua.
Logo me ocorreram as legendas dos pouquissimos filmes, aos quais eu assistira no “cinema dos Vizinhos”, no Ílhavo mitificado pela infância, mais as vastas súplicas a meu pai, quando lhe solicitava cinco escudos para ver um filme, ardilosamente adjectivado, num daquele longos e longínquos panfletos que faziam antever majestosos cenários de índios e cowboys no far west americano, tal como no fascínio dos temas bíblicos.
Quando eu falava no que seria, por assim dizer, o pecaminoso desejo de ir ao cinema, ressoava de imediato, em tom de reprimenda velada, a voz patriarcal: “Rapazinho, come e bebe, que isto de dar de comer aos olhos não enche barriga”.
Eu remoía constristado esta desventura de não poder desfrutar dos prazeres fílmicos que antevira deleitosamente, cuja perda sentia como um sonho falido.
Tratando-se de um filme religioso, com alguma súplica à minha mãe, lá surgiam cinco esforçados e gemidos escudos. Depois, para ressarcir meus pais do inútil dispêndio, tinha que lhes contar em pormenor todas as cenas bíblicas e tocantes dos “ Dez Mandamentos”.
Fazia-o com algum enpenho dramático, para lhes suscitar o prazer de os arrebatar para os próximos cinco escudos, nem sempre com o almejado sucesso.
Os filmes da nossa infância possuem o inefável condão de nos fazer levitar a mente por mundos-outros, num tempo em que o espírito sedento de novas realidades e devaneios anseia por cenários deslumbrantes que tendem a eternizarem-se no arquivo da memória. Dos prazeres cinematográficos, terei desfrutado uma famélica meia dúzia.
Ainda hoje me ressinto desse frustrante sentimento, quando miúdo, espreitava cenários deleitantes pelas frinchas da porta principal, com o porteiro agastado, a vigiar a miudagem, com aquele ar de quem sacode moscas do fruto apetecido, enquanto nos apinhávamos para colher uma imagem fortuita revelada no entreabir da porta.
Retornando ao trilho prisional: foram três semanas de convívio forçado com todas as castas de prisoneiros. Havia um tal Palma, destemido e afoito, que dizia conhecer Paris como a palma das suas mãos, sempre atilado a rigor, primoroso no seu fato e gravata, resolvera enveredar pela belamente renumerada—em caso de sucesso—profissão de “passador”.
Já havia sido bem sucedido em duas ou três ocasiões, porém, nesta tentativa, a sorte fora-lhe madrasta. Ao transpor a fronteira com trés confrades algarvios no seu automóvel desembocara com seus comparsas no cárcere.
Nas longas horas encarceradas, falava-se, sobretudo, dos fascínios franceses, nada de Espanha. Admirava-nos o facto dos espanhóis disfrutarem da liberdade total de emigrar por essa Europa afora, sobretudo para França e Alemanha. Bastava-lhes requerer um passaporte que, por via de regra , nunca lhes era negado.
Um espanhol grisalho e vivido, apresentou-nos a sugestão de nos alistarmos na Legião Espanhola. Seriam quatro anos, findos os quais, estaríamos aptos e livres para emigrar sem impecilhos legais. Essa possibilidade ressoava a ouro sobre a nossa inocência. No dia seguinte, ouvimos, de outros prisioneiros, coisas pavorosas sobre a Legião Francesa e, de imediato, encerramos o nosso entusiasmo.
Os dias consumiam-se num ritual conformista de um prisioneiro, sem outras culpas para além de querer evadir-se da guerra, forjar uns francos e pavonear-se num belo Citroen (ah!.. o tal boca de sapo...), Peugeot ou Renault, com ares de pacóvio vencedor.
Ocorriam longos grandes conciliábulos sobre os sonhos franceses, histórias de passadores apanhados pelos carabineros com camiões carregados de fardos de palha, no bojo dos quais se escondiam portugueses e outras peripécia não menos ousadas.
Particularmete dolorosa, foi a história de um português que, com um pé retorcido, fora aban- donado ao seu destino nos Pirinéus numa noite de treva cerrada. Temendo morrer à míngua, com o espectro da morte a bailar-lhe em pânico, tomado de pavor, implorara socorro a todos os santinhos. Após horas a caminhar sem nexo nem norte, tombando aqui, erguendo-se acolá, vislumbrou um pequeno luzeiro e para lá se dirigiu manquejante.
Seguindo o tal pontinho de luz, deparou-se-lhe uma velha choupana, alcavalitada, entre fraguedos, no sopé da montanha, onde vivia um velhote solitário, com seus gados, num lugarejo ermo e desolante.
O ansião ao vê-lo aflito, a tiritar de medo e frio, chamou-o para a lareira, fez-lhe um café e logo se apercebeu da tragédia desta alma , a solo, tresmalhada, perguntado-lhe se queria entregar-se à Polícia.
Ele anuira lesto e satisfeitissimo. Delirante de alívio, pensando que, nas mãos das autoridades, desfrutaria de abrigo seguro e regressaria à sua aldeola, sem sobressaltos, ao aconhego pobre da família. Logo após chegar a Portugal , rumou a Fátima a pé, em cumprimento da promessa feita na sua pavorosa aflição - considerava ter sido miraculado.
Mas tarde, por feliz acaso e numa circunstância de todo imprevisível, encontrei-o no Consulado de Portugal em Paris e ambos nos reconhecemos de imediato. Creio que pela dimensão trágica que ele me testemunhara, ainda hoje conservo viva na memória, o rosto deste desafortunado-venturoso português.
Barbosa Tavares
Brampton, Março de 2006