CRÓNICAS
FRANCESAS (VI)
Entre longas conversatas,
aulas bíblicas diárias e um pequeno recreio de meia hora num recinto murado a
preceito, a relembrar a muralha da China, mercávamos na cantina bolachas e ”una
cerveza” e pontapeávamos uma bola tresmalhada, surgida nos pés, fruto de
uma “peladinha” no asfalto entre a espanholada.
Neste viver encarcerado,
consumiu-se uma semana, até que chegou a
ordem de transferência para Valladolid, não para todos os portugueses mas
apenas para um grupo que me incluía com meu companheiro de aventura.
Uma alegria imensa
percorreu-nos. Vislumbrou-se a proximidade de Portugal.Tínhamos cumprido o que
considerávamos ter sido o nosso
fadário prisional: uma semana de prisão cumprida
em Burgos.Nem ao de leve, antevíamos as três semanas prisionais que nos
aguardariam em Valladolid.
Seguimos, algemados aos pares, em duas arcaicas
carrinholas militares, cobertas por um toldo azeitonado, sentados na
carroçaria, em rijos bancos de madeira, escultados pela “Guardia Civil” com seus peculiares bonés achatados na nuca e
espingardas a tiracolo.
Era uma manhã solarenga
com algum sabor de liberdade. Durante o trajecto contaram-se anedotas e até os “carabineros” pareciam de boa catadura.
Não vislumbrei sombra de mágoa ou ressentimento em nenhum rosto.
Chegados em Valladolid, fomos
desalgemados e, de imediato, encarcerados de novo, numa prisão que mais se assemelhava a um convento.
Contígua, uma catedral com suas torres imponentes, erguidas em magnífico
recorte arquitectônico.
Eram tantos os presos – exactamente
oitenta e cinco – que, à míngua de celas disponíveis, foram colocados num
enorme pavilhão, sem resquícios de traços
humanos, em colchões a esmo, semeados pelo chão.
Deram-nos uma marmita de
alumínio, empenada, cheia de vínculos negros nas dobras das amolgadelas, na
qual o cozinheiro que com seu ajudante carreava um enorme caldeirão, despejava
duas enormes conchas de sopa , dando-nos
em seguida um pão, feito de farinha alba de neve, finíssima, que absorvia a
saliva e se empapava no céu da boca.
O ajudante de cozinheiro,
um rapazote de cabelo ruivo e fato de macaco – estou a vê-lo – oferecia-me pão
para além da maquia regulamentar, talvez condoído pela magreza da sopa. Eu aceitava
não apenas por mim, mas sobretudo, para repartir com o meu companheiro de
aventura ou algum comparsa mais
esfaimado.
Consumiam-se os dias em longas conversatas, o
tempo sabia a eternidade. Havia gente de Fafe, do concelho da Guarda, alguns alentejanos e algarvios. Cada
qual dava conta das suas malogradas aventuras pirenaicas.
Um tipo de Trancoso, nos seus quarenta e poucos
anos, semi-enlouquecera, gemicava dia e noite e lamuriava-se de chagas que
ninguém sabia ao certo se eram do corpo ou da alma.
Veio um cura anafado, com
seu rosto beatífico e palavras de mansidão, apelar à nossa paciência por entre
as nossas lamúrias e queixumes. Zoava entre os detidos o punitivo presságio de
que, a não sermos recambiados de volta a Portugal, antes das cerimónias
religiosas pascais,uma semana adicional
de cárcere nos aguardaria, dado que a vida quotidiana em Espanha , por assim dizer, paraliza na Semana
Santa
Numa memorável tarde,
aconteceu uma quase loucura colectiva. Cansados de dormir no chão e das
condições sub-humanas de higiene – não nos era permitido sequer um banho, nem tempo de recreio – os presos desataram
aos berros, num pandemônio guerreiro, ululando e desferindo as marmitas de alumínio pelo ar,
em movimentos circulares, tais discos voadores em rota de colisão de encontro às paredes e janelas.
Foi tal a arruaça que o
tal semi-louco de Trancoso, aproveitando
a sarabanda, escapuliu-se, estulto, por entre a rebelião, com o cozinheiro e
seu ajudante impávidos, especados perante o cenário tresloucado. Entrementes, veio
o carcereiro que, antes da distribuição da sopa, contava as cabeças perfiladas
duas a duas.Contou e recontou. Faltava uma. Foi o delírio colectivo. A
algazarra subiu de tom, uma chusma de vozes trovejou quase em uníssono em
protesto desordenado e alta gritaria.
Não tardaram cinco
minutos. Ouviu-se um toque de clarim que prenunciava um estado de temor num
ressoar sinistro de imposição militar ao silêncio. Uma figura militar
imponente, cuja capa e galões emanavam respeito dois guardas armados de
metralhadora perfilaram-se defronte ao portão de acesso ao enorme pavilhão
presidiário. Em tom grave e firme, o ofical apenas se limitou a dizer: “Silencio por favor” e o silêncio reinou
absolutamente, poder-se-ia escutar um
alfinete caído no chão.
De novo perfilados, nova
contagem , faltava a tal alma que se escapulira
no meio da algazarra e se
anichara
num dos corredores de
acesso à Igreja, resguardado num nicho
de santo. Surgiu um cardume de guardas que, em minutos, desalojaram e trouxeram
o “fugitivo” de volta ao nosso convívio.
Impunham-nos o dever de
assistir à missa dominical. Eu tentara, tomado de revolta, argumentar que não dispunha de sapatos em condições nem roupa condigna para participar nos preceitos
religiosos, mas logo o carcereiro me retirou os argumentos, retruquindo que até
descalço e esfarrapado, eu deveria participar nos Santos Evangelhos.
Enquanto assistia à
missa, observei atónito que nas celas laterais ao corredor central da igreja,
havia jovens emcarcerados com o nome, idade e número de anos das penas inscritos em letras
negras sobre um fundo verde-azeitona. Eram sentenças penosamente dilatadas no
tempo: iam de doze a vinte e três a anos. Mais tarde, em conversa corrida com o
cozinheiro, em razão da minha perplexidade sobre a extensão agonizante de penas
tamanhas sobre gente tão jovem , dissera-me que se tratavam de presos
políticos, alguns deles implicados em
acções terroristas. Reinava o caudilho e sua inclemência sobre os
oposicionistas não tolerava afrontas ideológicas nem se detinha sobre os ideais
da juventude, por vezes tresmalhada mas
sempre generosa . Dei-me conta que morrer por conta de Salazar, ao serviço da
defesa das suas “inalienáveis” parcelas de África, que mais nos serviram de martírio que glória , seria menos torturante que apodrecer a vida num cárcere por uma ideal político.
Barbosa
Tavares
Brampton, Ont. Maio de 2006