CRÓNICAS
FRANCESAS (VII)
Nas longas horas de cativeiro cada qual
historiava o processo de negociação com
os en-gajadores ou seus interpostos comparsas: custo e forma de pagamento da aventura guiada,
geralmente em torno de quatro a cinco mil escudos por “saltante”, o lugar secreto da reunião em Portugal,
a forma de atravessar ambas as fronteiras-- as sapatilhas e roupa leve
aconselhada para transpor os Perinéus--e outros temores intercalados entre calamitosas peripécias.
Havia um processo típico e algo criativo que , confirmado o êxito
do sucesso , garantia o pagamento da factura do “salto” ao engajador. Os familiares em
Portugal, retinham metade da foto do “saltante”. Este, uma vez arribado em França, remetia-lhes a outra metade. Juntas ambas, de forma a completar com precisão a foto
que havia sido rasgada em dois pedaços, as contas seriam saldadas com o “passador”.
Os longos diálogos não se confinavam aos aspectos dolorosos e anedóticos da aventura em busca do sonho
francês. Com tempo de sobra nas mãos e solidariedade
prisional a germinar fraternidade , entrava-se na esfera íntima da cada uma daquelas vidas.
Um homem dos seus trinta e pico anos,
algarvio, ensimesmado, absorto na sua amargura,
parco nas palavras, metera-se a construir sua casa. Endividado até ao catulo, em trinta
e cinco contos, uma dívida de se lhe tirar o chapéu, em meados dos anos
sessenta, resolveu embarcar na aventura francesa. Outro, dos lados de Vagos,
exibia uma pequena ferida na perna atingida
de raspão, ao ser baleado próximo da fronteira, quando viajava sonegado no
porta bagagem de um Citroen, um carro elitista
, ao tempo conhecido na gíria por “boca de sapo”.
Um jovem marinheiro chorava e soluçava
copiosamente. Naquele exacto dia e naquele preciso momento devia embarcar para
Angola, em missão militar, e antevia o desfecho do castigo por desertar na semana de licença concedida para se despedir da família.
Na sua maioria, os presos provinham de
Fafe, Viana do Castelo e Valença do
Minho, entre os quais se contavam,
alfaiates, pedreiros, ferreiros, padeiros, sobretudo homens do campo que
mourejavam do raiar da aurora ao sol posto,
escravizados por rendas que mal lhes
permitiam a miseranda côdea existencial.
Deste jeito, entre sonhos franceses, desalentos e histórias rocambolescas,
decorreram três semanas presidiárias em Valladolid, acrescidas a uma em Burgos,
com o mesmo vestuário no corpo, de onde
a onde salpicado de água em
furtivas prestações.
Eis-nos a caminho de Salamanca, num sábado, em meados de um Abril
soalheiro, com paragem e almoço na prisão local, antes de prosseguirmos para
Vilar Formoso.
Pelo caminho fazíamos atemorizadas conjecturas sobre o modo como a Pide nos
trataria. O chefe da dita, era um tipo gordalhudo, com uma enorme papeira a
respirar autoridade e arrogância por todos os poros. Todos os outros agentes
exudavam na fisionomia plena au-
to confiança e irradiavam um respeito amedrontado que provinha do nosso temor perante uma polícia temível em
cujo historial constavam tormentosos e desumanos tratos que sempre escutara desde
criança.
Enquanto aguardávamos a instrução do
processo, havia um agente que se
divertia com o facto de um dos detidos, em vésperas de alinhar para a Guiné, em
missão militar, ter sido aprisionado ao tentar
passar, clandestino, a fronteira em companhia da esposa, enquanto
esta incluída num grupo que se distanciara uns cinquenta metros, lograra
transpô-la com sucesso.
O Pide e o preso trocavam piropos e gracejavam com esta situação dramática. Um, para se divertir com a
situação humilhante do desertor , este , creio, fingindo alinhar na diversão, para suavizar o
seu tormento, fazendo das chagas
heróismo. O agente que me interrogou era um jovem cordato, afável e
polido. Serviu para confirmar as
excepções à regra, como de resto em tudo na vida.
Um breve interrrogatório com perguntas
sobre formação escolar, confirmação da identida-
dade e estado civil. Eis-nos a
caminho de Almeida, onde aguardámos na prisão
local até ao dia do julgamento.
Vila apacatada, olvidada do mundo, prenhe de melancolia , não conheci em
Portugal terra mais serenamente desolada.
Na entrada, uma muralha a servir de
porta , fortaleza de pedra
inexpugnável-- evidência de temores e questiúnculas de outrora entre “nosotros
y nuestros hermanos”.
Transposta a portaria , umas casitas singelas e sombrias mais a infinita paciência de uns burricos famélicos
à solta , que pareciam sem dono, especados
no tempo a mastigarem uns ressequidos
tufos de erva.
Vislumbravam-se umas oliveiras entediadas num cenário soturno, atravé das
janelas da prisão. Esta era uma casa antiga, tranformada em presídio, que mais
se assemelhava a abegoaria de lavrador
abastado, com quatro janelas gradeadas no andar superior. Não albergaria mais
de catorze “hóspedes” em seus tacanhos
quatro quartos e uma exígua saleta. O
carcereiro , esposa e filha habitavam o
rez do chão. Tinha um nariz adunco, arroxeado que expressava nitidamente a sua
devoção ao deus Baco. Desssem-lhe cigarros e vinho e o mundo era-lhe
sinfonia.
Era uma alma insipiente e acomodatícia, pai de uma moçoila abonecada de
rosto, embora gorduchona, pela qual o meu companheiro de aventura desde logo se apaixonou.
Chegados à prisão, um dos presos, que presumíamos ser agente disfarçado ,
pela fisionomia e requintada casaca de cabedal ostentada, abordou-nos com um certo ar de secretismo. Num
gesto entre amistoso e intimidatório, afirmou num tom de voz segredado:
--Amigos, tenham muita cautela. A
verdadeira Pide é aqui. Em Vilar Formoso é apenas o início do processo. Vocês
terão que confessar toda a verdade-- apontou na parede umas manchas,
bem notórias, de sangue vivo e acrescentou:
--O chefe não tolera mentiras, olhem
de novo aquela parede. Daqui vocês
seguem para o forte, ou, conforme ele entender,
cumprem aqui o
restante termo da prisão..
Veio jantar numa azadinha panela de alumínio. Batatinhas novas com bacalhau
a nadar entre paladoso e loiríssimo
azeite virgem. Poucos se atreveram a ir além da primeira batata.
Todos se entreolhavam apreensivos e
pálidos, perante a parede salpicada de sangue e
iminência do “autêntico” e aterrador interrogatório da Pide.
Barbosa Tavares
Brampton,
Ontario, Canada
Julho
de 2006