BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (VIII)

 

 

Encurralaram-nos, um grupo de cinco, os últimos arribados à cadeia, num quarto de  onde saíamos  à medida que chamavam para o interrogatório. Fui o primeiro a ser chamado a depor. Na saleta central: uma mesa talhada em pinho, três indivíduos em redor da mesma, uma arcaica máquina de escrever, um tosco banquinho rasteiro, onde o réu sentado aguardava julgamento, tendo pelas costas os presos, que, de pé, ao alto com a parede, aguardavam , desfadados e risonhos, o desfecho do  veredicto.

O escriturário dactilografava , ou fingia que, enquanto um dos agentes inquiria e anotava a idade  de nascimento, nome dos pais,  profissão, estado civil e outros dados pessoais.

Num repente, a arfar, esbaforido, entrou o chefe. Vestido a preceito, fato preto, gravata aprumada, um homem maduro, nos seus cinquenta, meão, rosto de algoz e chicote na  mão direita. Num tom de voz sinistro, misto de cinismo e carrasco, que intimidaria o mais afoito, bramiu:

--Juram que confessam toda  a verdade?-- especou o olhar furibundo e prosseguiu--Só quero saber a verdade. Se apanho uma única mentira, é o forte que vos espera-- enquanto lançava mimosos àpartes: seus bandidos, covardes, vendilhões da pátria.

--Porque queriam sair de Portugal? Seus canalhas... Não ganhavam o suficiente!..— e erguia a voz , num tom aterrador, enquanto batia com o chicote a estalar  violentamente sobre o tampo da mesa.

Dito isto, perguntou aos funcionários se já haviam recolhido toda a  informação e  cobrado os dez escudos relativos à instauração do processo. Depois, voltando-se num repente, perante os   julgados,  disparou num tom  de voz aterrador.

--Onde quereis cumprir a sentença?— na sala reinou uma silêncio medonho por uns tormentosos segundos. Eis quando, um do presos da audiência--todos elas participavam no julgamento—subitamente com um brusco safanão, puxou o banquinho onde eu me sentava. Caí  aparatosamente sobre o traseiro no soalho, de pernas escancaradas para o ar, num cenário irrisório e patético. Ouvia-se o fungar e  o som das gargalhadas reprimidas dos presidiários. Neste exacto  momento, apercebi-me que estava perante uma  farsa exímia. Levantei-me, enxovalhado, olhei em derredor,  respirei aliviado. O chefe, com um aceno , mandou-me juntar  ao  grupo dos presos assistentes.

Ordenaram um novo detido a ser julgado, que, por coincidência, seria  o meu colega de aventura. Este, logo que entrou na sala, mirou-me afincadamente  no rosto, em busca  de sinal de esqimose ou resquícios de sangue.

Eu pisquei o olho e lancei  um  meio sorriso para desanuviar-lhe  o pavor  e incutir  tranquilidade.

Após o julgamento, o  “chefe” propunha: os dez escudos do processo revertiam em garrafões de vinho a  ser partilhados pelos concordantes, sendo o dinheiro devolvido a quem discordasse deste tributo ao deus Baco.

Todos anuíam, plenos de satisfação, mum suspiro de alívio, porém , finda a  temível farsa, um dos julgados, um lisboeta , mecânico da VW, de corpo franzino e rosto de cera,  entrou em choro convulsivo. Ninguém se atrevia a convencê-lo  que se tratava de uma bem urdida paródia para  aterrorizar os presos recentes  e quebrar a monotonia da vida prisional..

O “chefe” e seus coadjuvantes  levaram mais de uma hora a persuadi-lo  desta verdade. Por mais que se desunhassem em explicações, cada vez o seu choro era mais intenso e soluçante.

Não seria de admirar o pânico sulcado naquela alma derramada em soluços. O “chefe” confidenciara que por ali passaram guardas da GNR e Polícias da PSP , ufanos  de nada terem confessado à  autêntica PIDE em Vilar Formoso, alí, escancaravam as portas da alma até Almeida confessando até aos mais ínfimo pormenor todos os meandros  do “salto” para França.

O Ti João carcereiro, a tal alma inofensiva de nariz arroxeado que prezava a pinga e uns cigarritos

ofertados,  dizia-se, abominava esta prática de julgamento urdida pelos presos, feita à laia de di- vertimento com os tormentos  de quem havia peregrinado pelas prisões espanholas e passado pelos temores da PIDE, porém na noite do julgamento, os farsantes encharcavam-no de vinho,    pregando-lhe uma monumental bebedeira , deixando-o inerte, de modo a procederem a seu bel-prazer.

                                                                                     

                                                                                                     Barbosa Tavares

                                                                                                                                   Brampton,Ont.Canada