BARBOSA TAVARES

CRÓNICAS FRANCESAS (IX)

 

 

Escrevi uma carta lamuriante a meu pai que, de imediato, prontificou afiançar-me, viajando de  Ílhavo a Almeida numa frágil motoreta, ”Famel-Ilo” de seu cognome, uma viagem arrojada por estradas maltratadas,  estreitas e curvilíneas, num tempo em que a “IP5” nem sequer  em sonho se vislumbrava.

Em Mangualde, partiu-se-lhe a forquilha da dita e teve que pernoitar nesta vilória, aguardando a chegada da peça original, provinda da fábrica em Mourisca de Vouga, a fim de prosseguir viagem.

Uma bela manhã, de sol dourado, o carcereiro chamou-me, dizendo que um senhor aguardava-me à porta da cadeia. Presumi tratar-de de meu pai. Desci as escadas, envolto numa sensação de liberdade e, do lado de fora da porta, já na rua, entre tímido e envergonhado, apertei-lhe a mão em sinal de agradecimento. Admirei-me por  não me recriminar pelo falhanço do “salto”, ele que era expedito ao  apontar os defeitos da prole.

Seguramente, comoveu-se, sem nada dizer, por sentir o filho encarcerado quatro semanas numa peripécia gorada  em que fora cúmplice, embora norteado pela mais bela  das intenções.

Decorreram alguns anos, até que eu  reconhecesse a grandeza deste gesto patriarcal,  talvez por ser demasiado jovem.

Dirigimo-nos ao Tribunal acompanhados por  um ajudante do carcereiro. O escrivão exigiu cinco mil escudos pela caução e adiantou o nome de um tal advogado na Guarda, um Pires-qualquer-coisa, de agoirenta memória, com o qual eu teria uma refrega na Ordem dos Advogados.

Fui de imediato liberto. Regressei a Ílhavo, compenetrado do meu minúsculo e silenciado papel de herói. Fiquei pelas tarefas  caseiras, ajudando, a contragosto,  nas lídes da lojeca  e numa quintarola  arrendado pelos meus pais,  enquanto aguardava julgamento.

O meu colega de aventura, orfão de pai, vivia com a mãe que enviuvara jovem, era-lhe o único amparo e, não dispondo de cinco notinhas de mil, aguardou até ao dia de julgamento, seis semanas de cárcere que lhe valeram um dinheirão.

Na verdade, quarenta e poucos dias  em liberdade custaram ao meu progenitor quase cinco mil escudos.Senti remorsos pelo elevado custo deste libertação,  quando um operário fabril se esmirrava por ganhar entre vinte e quatro a trinta escudos diários.

Entretanto, surge uma carta do tal advogado a requerer a minha presença no Tribunal da Guarda. Foi por altura da festa da Nossa Senhora dos Campos, com suas merendas e arraiais onde desfilavam prendadas moçoilas num lugar paradisíaco entre areia, cactos, pinheiros e acácias com

sua  ramagem verdosa,  pontilhada  de   amarelo , entrelaçada nos pinheiros.

Perdi a festa e as meninas. Segui, melancólico, de comboio para a Guarda. Arribado, dei três voltas pela cidade inóspita onde não conhecia vivalma, num domingo banhado de luz, até recatar-me numa pensão de terceira classe. O sol entrava a rodo pelas janelas, corri as cortinas  e  deitei-me, rogando  que a noite caísse célere para me livrar daquela tormenta e regressar a Ílhavo.

Na manhã seguinte, dirijo-me ao escritório do tal advogado de tormentosa  memória,  exibindo a carta. Resposta enxuta da secretária:

--O Senhor Doutor não está. O julgamento não é aqui mas em Almeida, emudeci de espanto, protestei tartamudo e enraivecido, brandindo a carta.

--Está aqui,  escrito pelo punho do Senhor Doutor, manda-me apresentar no Tribunal da Guarda  e ninguém sequer comparece, isto é no mínimo indecente,  protestei. A secretária fez ouvidos de mercador,  eu saí a resmungar impropérios. Aflito, dirigi-me a um taxista rogando que de imediato me conduzisse a Almeida onde naquela hora decorria o  julgamento.

Ai de mim ,  pensei com os meus botões, se não fosse aquela notinha de mil  que meu pai me dera para estas e outras eventualidades.

Chegado ao Tribunal de Almeida, decorria o julgamento. Ninguém se me apresentou, nem o advogado nem alguém por ele nomeado,  para me defender a pele. Contei a história ao escrivão de direito e aguardei coisa de quinze minutos pela decisão do Juíz. Lido o veredicto numa dúzia de linhas, rápido o desfecho: dois anos de pena suspensa.

Abracei o meu companheiro, julgado com idêntica pena, que me aguardava na audiência. Entretivemos o restante da tarde, passeando pelas muralhas de Almeida, tagarelando, namoriscando. Ele, com a tal moçona, rechonchuda, filha do carcereiro, eu, com uma amiguinha que  encomendada para lhe servir de cicerone  e, em simultâneo, minha  companhia.

 

                                                                                                                     Barbosa Tavares

                                                                                                                     Outubro de 2006