DOMINGOS DA COSTA GOMES


Nasceu em 1920, em Chaves.

Domingos da Costa Gomes, que até recente data colaborou semanalmente , com vigorosa crónica, no Semanário Transmontano, foi durante toda a sua vida um cidadão exemplar, tanto no desempenho da sua profissão como ilustre advogado, como democrata e anti-fascista que lutou contra a ditadura, em prol da Democracia e da Liberdade.

Muito novo entegrou o MUD(juvenil) e a Comissão Nacional do Movimento da Paz, tendo chefiado a delegação portuguesa à Assembleia da Paz que em 1955 se realizou em Helsínquia. Em 1958 ajudou a instalar um aparelho de fronteira para passar clandestinamente para o estrangeiro os perseguidos e dirigentes políticos da oposição. Um desses dirigentes foi Álvaro Cunhal que acompanhou, clandestinamente, a Paris.

A sua corajosa luta levou-o às prisões da Pide e ao exílio, primeiro na Europa e mais tarde no Canadá.

Foi a 8 de Maio de 1966 que, juntamente com a mulher e uma filha de tenra idade chegou a Montreal onde permaneceu vários anos e se implicou activamente na vida da Comunidade.

Para além de colaborar assiduamente com artigos de carácter político e social no jornal Luso-Canadiano, dirigido por Henrique Tavares Belo, foi ainda dirigente e presidente do Movimento Democrático Português de Montreal, onde conjuntamente com outros anti-fascistas, nomeadamente Rui Cunha Viana, desenvolveu intensa campanha de denúncia do regime totalitário que então amordaçava Portugal.

Em 1970, no tempo da "primavera" de Marcelo Caetano, regressou finalmente a Portugal onde continuou sempre a sua corajosa luta por um mundo melhor e mais fraterno. Faleceu em Julho de 2003.




Crónica de um exilado
O MILAGRE DO QUEBEQUE...



Há três anos um português imigrado nos Estados Unidos de visita a Portugal para tratar de uma pequena herança havida dos pais, pediu-me que lhe lesse uma carta que a filha, então com seis anos, lhe escrevera de Fail River, onde habitavam.

Na carta, escrita em inglês, quase sem erros, a pequenita pedia: "please, dada, write me in english to understand you -por favor, papá, escreve-me em inglês para te entender...

É que o pai, semi analfabeto, teve que pedir em Portugal a quem lhe escrevesse uma carta para a filha e esta não entendeu o português no qual a carta fora escrita.

Fiquei triste ao pensar nos muitos milhares de portugueses (porque não dizer milhões?) que, por esse mundo fora, arrastam a sua sina de ter que ganhar o pão que a Pátria, mal administrada, lhes não dá. Analfabetos ou quase, obrigados a aprender uma língua diferente, a lutarem com inúmeras dificuldades e, mais tarde, uma vez adaptados, sem poderem ensinar aos filhos a língua materna. Com necessidade de contactarem com os filhos, é na língua que eles aprenderam na rua e na escola que procuram entender-se, mas com limitações verdadeiramente trágicas.

Em Champigny-sur- Marne, onde existe um bairro de lata no qual vivem em desgraçadas condições cerca de 15.000 portugueses que trabalham na região de Paris, encontrei crianças portuguesas que, por iniciativa da Mairie, frequentam a escola francesa e que acabam por falar melhor o francês do que o português.

Por toda a França as centenas de milhares de portugueses que por lá labutam jáfalam uma mistura de francês e de português que não é nem uma nem a outra língua. E isto apesar de algumas corajosas iniciativas de estudantes e exilados políticos que têm procurado, com inúmeras dificuldades e sacrifícios, ajudar culturalmente os portugueses.

Mas este desenraizamento dos portugueses, este cortar as ligações com a Mãe-Pátria, que lhes não dá o pão, o que significa?

Porque é que os portugueses das eras de quatrocentos e de quinhentos conseguiram levar a cultura e a língua portuguesas às Sete partidas do mundo, porque é que subsistem ainda vestígios bem visíveis disso em certas partes da India, de Singapura, de Ceilão, porque é que os portugueses de outrora conseguiram o milagre do Brasil e hoje assistimos ao triste espectáculo a que me referi?

Algo de grave se passa na Pátria Portuguesa.

Será, como dizia Camões, porque um fraco rei faz fraca a forte gente?

No Quebeque, aonde me trouxe a minha sina de português, criado debaixo da ditadura salazarista, afinal igual à de tantos outros, uns fugidos à repressão da PIDE outros fugidos à fome e à miséria, vim encontrar o milagre de uma nação (porque não lhe chamar assim?) de expressão francesa que conseguiu sobreviver a todas as vicissitudes que a cercavam.

Abandonados no, Século pela monarquia francesa decadente, por que milagre os 32.000 franceses que viviam no Canadá conseguiram sobreviver culturalmente depois da entrega da Nova França à Inglaterra?

Todas as vezes que oiço aqui falar em francês, a muitos milhares de quilómetros da França, fico agradavelmente surpreendido. E é bem a isso que tenho tentações de chamar O milagre do Quebeque, milagre igual ao do povo galego que continua a falar a doce língua de Rosaliá de Castro e de Curros Enniquez, milagre igual ao do povo catalão, milagre igual ao do povo vasco que, apesar da fronteira que o divide entre a Espanha e a França, fala a mesmo língua, quer tenha nascido em França quer em Espanha, milagre igual ao do povo da Flandres que continua a falar orgulhosamente o flamengo. E isto apesar das proibições, das violências, dos cantos de sereia, da traição de muitos intelectuais e sobretudo daqueles para quem o vil metal tem maior importância do que tudo o mais.

Foi sobretudo nos campos, no seio da gente humilde e dos trabalhadores do campo, que as diversas línguas nacionais se mantiveram vivas.

Mas, pergunto, por que razão aqui no Quebeque, os descendentes dos franceses continuaram entre si, numa coesão verdadeiramente extraordinária, a falar e a escrever o francês, enquanto os portugueses emigrados se mostram desunidos, roídos pela intriga, contaminados, mesmo no estrangeiro, pela repressão de um regime fascista e pela intoxicação de uma cultura adulterada e falsa? E porque não afirmar também que os muitos milhares de emigrantes portugueses estão abandonados pela organização diplomática que o salazarismo mantém no estrangeiro e que raras excepções contrariam?

Por que razão uma grande maioria de portugueses não conseguem falar com os seus filhos, aqui nascidos, em português? Por que esta espécie de vergonha de ser português? Por outro lado por que razões a maioria dos emigrantes portugueses, aqui no Quebeque, enviam os seus filhos para as escolas onde o inglês é a língua dominante? Se por um lado deviam beber no exemplo do Quebeque sobretudo a esperança e a confiança no futuro da língua e cultura portuguesa. e procurar descobrir as razões de decadência actual, sem menosprezar nem esquecer o exemplo heróico de uns tantos milhares de portugueses que se não cansam de erguer bem alto essa mesma Cultura.

Aqueça-nos e sirva-nos de lição o exemplo de uns tantos que não deixaram apagar o facho dessa Cultura aceso e alimentado desde as cantigas de amigo do rei D. Diniz até aos escritores, aos cientistas, aos artistas, aos professores, aos jornalistas, aos homens simples que, dentro e fora do País, não permitiram que a Cultura portuguesa caísse no lodaçal das míseras louvaminhas ou descesse ao nível a que a quiseram levar os lambe-botas de todas as esferas que proliferam em Portugal.

Além desses, uma outra esperança nos aquece. Tal como Leopold Senghor, presidente da República do Senegal e grande poeta da língua francesa, também

o Dr, Agostinho Neto, dirigente do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), médico e poeta, é em português que escreve os seus poemas nos quais canta a miséria do seu povo mártir.

Um amigo meu, exilado na Europa por ter desertado do exército na Guiné não ter querido colaborar numa guerra injusta, contra um povo que luta pelo direito de ser livre contou-me que encontrara no bolso da farda de um guerrilheiro do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), morto pelas tropas portuguesas uma cartilha das primeiras letras... em português!

Sim, é verdade, os guerrilheiros da Guiné aprendem a nossa língua, a língua em que Camões, contou a epopeia dos descobrimentos!

Também na Universidade de Leiden, na Holanda, encontrei um jovem estudante negro de Angola, ali a estudar com uma bolsa, que me informou que através do Secretariado do Comité International d’Etudiants, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) procurava jovens portugueses exilados que estivessem dispostos a ensinar a língua portuguesa aos negros de Moçambique refugiados no Tanganica.

Será que, para além dos sórdidos, apodrecidos e perecíveis interesses dos amadores do dinheiro, os povos da Guiné, de Cabo Verde, de 5. Tomé e Príncipe, de Angola e de Moçambique repetirão um milagre idêntico ao do Quebeque e ao do Brasil salvando a língua portuguesa? Creio que sim, apesar da luta que a mediocridade trava para que tal não aconteça.

Creio firmemente que o nosso pequeno povo, constituído por alguns milhões de homens e de mulheres simples e honrados, que deu ao mundo novos mundos conseguirá ainda esse milagre.

Mas entendamos: não o milagre que nos caia do céu pré fabricado, mas o milagre feito com as nossas mãos, com o nosso cérebro, com a nossa coragem, com a nossa honradez e com o profundo amor que nos merece a Terra - Mãe.

(publicado no Luso Canadiano de 15 de julho de 1967)