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DIANA DE MOURA |
Diana de Moura nasceu em Castro Verde, no Alentejo, em 23/3/53. Vive agora em Halifax, no Canadá. Passou também por África, em Angola. Desenvolve a sua actividade profissional como vitralista e professora de artes. Outras páginas sobre a autora: Ela olha-o todas as manhãs como olharia o castanho denunciador duma doença, a invadir o verde das folhas das azáleas do seu jardim. -Será que as vou salvar? Tem salvado as azáleas, a ele perdeu a ilusão. A casa azul fica a sudoeste de Halifax, no Point Pleasant Park, tesouro verde a beira- mar. A 10 minutos da baixa, usufrui dos encantos do campo. O jardim que a circunda parece não ter fronteiras, comungando do mesmo espaço verde. A primavera atrasada, trouxe por fim as tulipas, o pássaro azul, as abelhas. O corvo mais barulhento que os cães da Liana, levantam finalmente voo arrastando com eles o grito. Os esquilos do topo da árvore, provocam atirando nozes. Todo este cenário me pertence, suspira Anaid. Todas as manhãs um "raton laveur", basculha o lixo, e um cão chamado rudy, se a voz da dona não mente, quando estérica o chama, resolve no seu jardim, deixar a sua marca. Não suporta a apatia da dona, e grita, da janela do seu quarto, ao animal tentando afuguentá-lo. Até ao dia em que a pequena familia, depois do divórcio a adquiriu, a casa azul testemunhou dramas terríveis. Os "Lit" deixaram-lhe a marca, quando um acidente terrível deixou a família em farrapos. De quatro filhos, dois restaram e o casal passou então a errar pela vida, por caminhos opostos. Não se suportavam e um dia ele ao entrar em casa viu vazio, seguido de um divórcio feroz. A mulher acusou-o de adultério, com a jovem esposa de um colega 15 anos mais jovem. Ele desmente retratando-a de demente. Um mês depois, o marido da pretendida amante morre eletrocutado a cortar a relva, e procura consolo nos braços dele: - tu que passaste a dor de perder os teus filhos, ajuda-me a suportar a minha... Ele não se fez de rogado. Drogados na química do amor, não tiveram tempo de viver a dor, dos respectivos dramas. Dois anos de fantasia, de viagens, da grande vida... Até que um dia, Douaine Raymond, na qual ele era sócio, devido à recessão que carcomia a economia do Canadá, lhe ofereceu um "package" e um certificado de demissão. O desnível de idades, tomou forma, e a linda loura, de repente, decidiu que as suas vidas, nada tinham em comum. Segue-se uma época de D. Juanismo para o "Litman". Entretanto, a casa azul passou para as mãos de um casal de farmaceuticos. Os vizinhos adivinham uma família infeliz. Não, não era fruto de imaginação de faladores baratos. O tempo prova que os seus pressentimentos eram infelizmente fundados numa triste realidade: desespero, abandono ao destino... Um dia, sem ninguém compreender o porquê, a esposa comete suícidio. E a casa azul ficou a ser como a casa enfeitiçada do Point Pleasant Park. Foi assim que Anaid a notou um dia quando a fazer joging na serpentine road, lhe apercebeu a pancarta: for sale. E destino? Ou coincidência? O Litt que corre com ela diz-lhe: - Devias dar um sentido à tua vida e pensar na compra de uma casa. Nessa à tua frente. - Sempre reparei nela, responde Anaid, quando desço a colina, suave a vejo aos meus pés... - Vivi nela até que o drama acontecesse... Ela engole em seco e envolve-se de silêncio, porque lhe conheçe a história. Pareceu-lhe a casa de repente triste tocando o macabro, quando ele explica porque razão está à venda: A mulher que era inteligentíssima suicidou-se e ninguém sabe porquê. Deixou de lhe ver encanto mas mesmo assim, o Lit convenceu-a a fazer uma proposta. Tão ridícula que pensou que recusassem. Foi aceite. Quando lhe tomou posse, ouve um limpar de nariz, que lhe pareceu anormal, vindo da casa de banho. A filha mais velha, da infeliz falecida senhora, apoiada à janela da casa de banho, num mar de lágrimas olhava os veleiros na baía. Anaid, envolve-a nos seus braços, enquanto que adornada de soluços a sua vozinha enfraquecida lhe balbucia: - era o lugar preferido da minha mãe. Gostava de olhar os veleiros deste pequeno canto da casa de banho. Ela sente um nó na garganta. Pobre menina. Num adeus doloroso, ela acaricia o vidro da janela, olhando o oceano, e o branco das velas levadas pelo vento. Sente desamparo no desespero dela, e diz-lhe: - sempre que te apeteça vir aqui, vem. Veio, várias vezes para se apoderar da correspondência que para lá ia. E depois pouco a pouco as visitas escacearam. De vez em quando, uma carta aparece, que manda para trás. O Lit toca de novo o passado. E com emoção que ele sente de novo os seus passos na mesma carpete. Olha as cortinas que são as mesmas, do quarto da Tracy e do Ryam. Ah, como esse acidente mudou para sempre o perfil da família Lit. O pai dele, veio para a Nova Scotia muito pequeno, orfão. Sem história. Conheceu uma senhora de Cape Breton com quem casou. Juntos tiveram 5 filhos: a Maryl casou com um director de banco e vivem um reforma confortável, em Bedford. A Rose, depois do marido se suicidar casou de novo com um homem mais jovem e vive a crise do medo de o perder por uma mulher mais nova. O irmão Larry depois de vários roubos a bancos à mão armada, foi finalmente recuperado por uma mulher muito crente e que se apaixonou por ele. O Frank que abandonou o filho é um óptimo padrasto para os filhos retardados mentais, da 2-a mulher. A vida não o poupa e lega-lhe um cancro da garganta. O Litman como ele gosta de ser chamado é o tipo de homem que se faz olhar. Pela gargalhada odienta e imprevista, pela maneira impecável com que se veste e pelo seu maneirismo que toca muitas vezes o ridículo. No seu escritório uma tira iluminada e intermitente, passeia pelo computador: I AM THE LITMAN I AM THE LITMAN. É um mulherengo que usa de todos os recursos, para atraír as raparigas novas. No escritório a ausência de bonbons na "bombonière" indicam a que ponto o escritório dele é popular. C.E.O. of the renewel Agency of Nova Scotia, posição que lhe foi oferecida em bandeja de prata pelo muito influente presidente da Coopers and Librand, posição que ele desdenha categóricamente: - Tenho muito poder e um salário de merda. Mas é o salário que o faz viver depois de três anos. Não tem escrúpulos de espécie nenhuma. Vende as fórmulas às companhias de gaz envolvidas no negócio da Sable Island Oil, e vinga-se dando informações confidenciais,a nível governo, ao frank magasine, revista de retrete, mas que toda a élite da nova scotia devora. Enfim detesta o sistema que ele próprio desenha. Pensa resolver a sua vida material com a sua amiga, só que ela descobriu-lhe o jogo prematuramente. Ela sorri quando se lembra da frase preferida da sua filha quando esta tinha 6 anitos : - "Rira le mieux qui rira le dernier". Ela olha-o todas as manhãs como olharia o castanho denunciador duma doença, a invadir o verde das folhas das azáleas do seu jardim. - Será que as vou salvar? Tem salvado as azáleas, a ele perdeu a ilusão. Olha as biografias, mal escolhidas, na sua mesinha de cabeceira. O rádio alarme que o acorda todas as manhas às 6 horas. Meia hora de notícias até acordar completamente, 3 quartos de hora a correr pelo point pleasant park. Todas as manhãs o vê chegar através da janela da cozinha, enquanto prepara o pequeno almoço, abatido e torto. Foi ela que se atreveu uns anos atrás a lançar-lhe, com cuidado para não lhe ferir a vaidade: - não te quero ofender, mas tens um ombro muito mais descaído do que o outro. Zangou-se, mas sem lhe dizer nada, foi consultar o médico que o proíbiu categóricamente de continuar a frequentar o ginásio. Sente-o tirar os ténis antes de entrar em casa. Seguem-se 20 minutos de exercício. Ela olha-lhe as pernas magras e musculosas. Unica parte do corpo que não lhe denuncia a idade. O ventre sem ser enorme é balofo, os braços são curtos e as mãos pequenas e gorduchas expoem dois grandes aneis: Um do curso e outro das origens. Ela tenta compreender donde lhe jorra tanta vaidade. Talvez dos olhos explendidamente azuis, ora maliciosos ora crueis, mas nunca suaves e bons. Juntos tomam o café, da manha, razão pela qual lhe conhece a rotina. A seguir um duche seguido da escolha minuciosa do fato, da camisa, dos suspensórios e da gravata. Gosta de gravatas jovens e coloridas e através delas se fazer notar: - Donny, mas que gravata diferente... - comprei-a em Paris, responde ele, mentindo e omitindo que foi a "namorada" que lha tinha oferecido durante a visita à cidade das luzes. Estrela cadente com uma poeira aromática chamada Giorgio, de rasto... Um dia de trabalho a saltitar de secretária de ministro para secretária de sub-ministro. Tudo que tenha menos de 25 anos de idade é brilhante. Não gostam dele no governo. - Sou íntegro demais, para eles... Detesta o ministro Richman, e não o poupa, denunciando-o ao Frank magasine. Porque é que o destino os colocou no mesmo caminho? Que lição é que ele ainda lhe quer dar, a ela, que sempre procurou no oposto dele? Ela sente-se lúcida, apesar de deixar de o reconhecer, por tanto o conhecer. Franze pensativa, as sobrancelhas, tique dela indicativo, de questionamento profundo. |