EDUARDO BETTENCOURT PINTO


A língua, oceano da fala



Q uando comecei a falar, a primeira palavra que aprendi foi "tunda", do quimbundo do Sul de Angola e que quer dizer "vai-te embora". Vivíamos nas Salinas, nas margens pobres do rio Chilo, aturdidos por um calor insuportável e onde o tsé-tsé (tripanossomíase), fúnebre, reinava. Basta dizer que era um lugar onde o quinino valia mais do que um diamante. Pelo menos para a nossa família.

Eu passava os dias com meninos negros, o Segunda e o Portugal. Este, o mais velho deles, tinha idade e robustez suficientes para me levar ao colo. Eu deleitava-me com as suas boleias (sobretudo com as do meu pai) nesses africanos e tórridos dias da infância. Tanto, que acabei por exasperar a minha mãe. O meu desinteresse em usar as pernas rompia a costura da sua paciência. Um dia, vencida e desolada, juntando as mãos implorou à santa da sua convicção católica: "Ó Senhora de Agosto, concede-me a graça deste miúdo andar no teu dia." O certo é que no dia 15 de Agosto de 1955, atraindo-me com um brinquedo no lado oposto da sala, dei os primeiros passos neste mundo. Não sei se foi milagre ou apenas um caso extraordinário de preguiça, contornado pelo engenho maternal.

Em adulto, nunca cheguei a conhecer os meus primeiros amigos. Ficou-me desse tempo um par de sandálias, couro velho e sem préstimo para ninguém e do qual já falei, com nostalgia, num poema. Vim a perdê-las depois no Zimbabué, nos anos setenta, nas minhas inúmeras errâncias pelo país. Ainda hoje, passados tantos anos, me comove a perda desse grande tesouro pessoal. Em álbuns velhos, ordenados com a paciência e o candor de minha mãe, regresso algumas vezes ao contacto com as imagens dessa África onde tudo era grande e interminável. O passado, maior do que o presente, é um grande oceano. Nele a memória navega e a poesia crepita, emocionada e utópica.

Sempre me fascinou o som de uma voz. Na minha terra, as quitandeiras — vendedeiras de fruta —, cantavam pela rua o nome dos frutos, sobre a cabeça, numa quinda. Eram a pobreza de pés descalços e dos panos de chita cobrindo-lhes o corpo de bronze. Eram também a voz da cidade, das laranjas e dos abacaxis, o estrídulo do Verão. Oiço-as ainda, neste preciso momento em que as escrevo aqui. Princesas e mães da terra descem ainda a minha rua, paradas no Tempo: "Laranjêê, minha senhora, laranjêê! Ai-uê ainda não vendi! Compra minha senhora, laranja fresquinha!"

Certo dia, jovem já, tivemos a visita do senhor Jacinto, nosso amigo dos Açores. Estava no fim da sua vida militar em Angola. Apareceu de tarde, à civil, bronzeado pelo sol mortífero dos matos e da guerra, feliz por se ir embora. Sentado junto aos meus pais e ao senhor Jacinto, fascinava-me a sua pronúncia micaelense. Pela minha mente passavam imagens dos Açores, de S. Miguel, onde estivera em pequeno, dos quatro aos seis anos. Através da voz dele "via" a minha avó agachada sobre o croché, os dedos ágeis e muito brancos compondo uma recordação para levarmos no regresso a África; via ainda a face bondosa e rubicunda de minha tia Veneranda, cortando o pão na enorme mesa da cozinha, os jarros do quintal, muito alvos, através das janelas húmidas e que pareciam crescer-lhe das costas. Esse murmúrio antigo de imagens, comecei a compreender, era indissociável da minha língua. Noutras ocasiões, em que deparava com alguém dos Açores, regressava ao meu tempo açoriano. Voltava, como as estações, à transcendência do mar. Às vida que, cruzando-se com a minha, tinham deixado sobre mim um rasto de luz eterna.

Há pouco tempo, ao chegar a casa, tinha uma mensagem no atendedor de chamadas. Era do Nelson, um amigo meu angolano. Revendo-me na sua pronúncia luandense, achei-me de súbito noutro tempo, junto às sombras da goiabeira do quintal da nossa casa angolana. Senti na boca o sabor das sandes com doce de manga e goiaba que a dona Luísa nos mandava de vez em quando do Quissobe, a quase quatrocentos quilómetros de distância; revi-me na ilha de Luanda, à hora mágica do crepúsculo, na luz embriagada pelo torpor do mar, enrolando-se-me nos pés em espuma vermelha e cintilante. Amornando a nostalgia com um látego de água, parecia chicotear o silêncio num misto de sensualidade e mistério.

A voz de um amigo, crescendo de um aparelho, passava a ser a inequívoca testemunha daquilo que sou: um sonhador errante em busca de si próprio num constante vale de areias. Esse lugar, que é qualquer lugar no mundo, é a poeira que levita sobre os que, saindo de África com a memória órfã no coração, nunca conseguirão regressar à casa da sua infância. Por um momento, enquanto a chuva cobria de humidade e escuridão mais um dia de Inverno, "voltava" à minha terra olhando para dentro de mim.

A língua é uma espécie de metafísica que transcende os triviais espaços da comunicação diária. Traz consigo a história de um povo, de um tempo, de um homem e de uma mulher cercados pelas inumeráveis fronteiras do Tempo. A pronúncia afrancesada do senhor Jacinto e a luandense do Nelson não era apenas isso mas a correlação entre tempo e espaço, com todas as incandescências emocionais a ela associadas. A língua, que cresce connosco com o prodígio invisível de uma roupa que estica até ser parte do nosso corpo, demarca-nos uns dos outros no imenso mosaico cultural no mundo em que vivemos. Ela é uma identidade. Fala de nós como uma testemunha inequívoca, dá-nos o sentido do grupo e leva-nos continuamente, pela mão da cultura, ao princípio de nós. Não podemos fugir nunca dessa voz interior onde, nas artérias sensoriais, corre, límpido e incessante, o sangue da tribo.

Escurece enquanto escrevo. Tenho os dedos repousados no teclado do computador, cansados de um dia longo. Ainda me lembro quando eles, aflitos sobre o caderno escolar, pareciam pequenas raízes de medo buscando o som das palavras num branco antigo. À medida que as ia juntando, sabia que fugia com elas, descalço e mudo como um cego, para um mundo de luz e prodígio. Fugiam de mim às vezes, como pardais assustados. Paciente, sentado na carteira da infância, buscava-as nos mais insondáveis lugares do espírito como se corresse num campo de trigo nas altas tardes do Verão, estonteado por tanta luz e suspenso de magia.

Vivo há muitos anos no coração da poesia. É um território supremo e solar. Quem ama a música das palavras, quem as recolhe nas mãos como maçãs, sabe que não é um país que traz na voz mas o amor pela sua língua. Esta língua que amo desde sempre, que me proporcionou horas de júbilo com Camões e Eça e tantos outros, tem sido o ombro onde me apoio, o interlocutor que me ouve crepitando na sombra branca onde os anjos cantam. No solstício da vida, a milhares de quilómetros das minhas raízes, com serenidade e paciência, passo o testemunho à geração que me procede.

Vejo na cadeira a roupa dos meus filhos, desordenada, resvalando para o chão e ainda com o insistente cheiro do Inverno. Os sapatos, pequenos, estão encostados à parede. Como andaram por aí!, sobre o mundo dos seus dias, pisando a erva do quintal, as chuvas, a amarga luz de Pitt Meadows e um vento sem remissão que nos persegue com o desdém ferrugíneo de insectos lunares. A infância deles, essa estrela de água que desponta segundo a segundo nos cantos dos dias, guardo-a nos olhos. Nos mais esconsos lugares da casa a descubro: carrinhos, bonecos minúsculos de plástico, ursos macios onde se aquecem os abraços da inocência, lápis de cor, livros de histórias, pokemon’s... A voz estrepitosa e o entusiasmo deles, que se levanta do vazio como uma debandada de tordos, voam por todo o lado. Quando aqui chega, a este garimpar de palavras, fujo logo com um livro sob o braço. Fechado no canto obscuro da minha idade, regresso a ecos despovoados, à penumbra do exílio de que sou feito.

A minha casa, entre uma floresta de chuva, é um país. Somos uma pequena tribo; já foi grande quando o meu pai era vivo e aqui, com minha mãe, se veio juntar ao filho para aquecer as mãos junto ao fogo do nosso nome. Viemos, como toda a gente, com uma mala de sonhos pela mão, seguindo a linha do horizonte deste país tão vasto, o Canadá. Atravessámos o Outono de muitos anos, esse que estala sob os pés quando calcamos a nossa sombra e o gelado folhame da solidão. Muitas vezes entrámos, sem remédio, nos espelhos da melancolia; mas nunca saímos deles a coxear mas a sacudir dos ombros a neve do fatalismo. Nunca pedimos desculpa por termos trazido tão pouco, que o espavento, a dança de circo e a corneta de falsas exuberâncias apenas servem de alimento ao bucolismo de cartaz turístico.

A nossa bagagem, quase toda de livros, era a de quem vinha habituado a ter nas palavras um casaco para o inapagável frio dos dias. A poesia, fechada em pequenos e frágeis cadernos com o odor húmido dos Açores, calçava-nos de utopias. Nós éramos os estrangeiros nesta fronteira onde o eco do passado se pode apagar, como a tenuíssima chama de uma vela, caso não persista em nós o espelho e a voz onde a imagem do que sempre fomos se reflecte continuamente.

Quem entrasse pela porta da nossa casa desse tempo, encontraria apenas o indispensável: o pão e o leite sobre a mesa e um livro aberto junto a uma jarra de margaridas, ainda húmidas do quintal. Não vínhamos para conquistar uma coroa de oiro em batalhas materialistas ou, prostrados entre as colunas de um quérulo, rasgar de vergonha as vestes da tribo com as quais sempre cobrimos o corpo da nossa vida. O que somos, como família e como indivíduos era e é demasiado precioso para se atirar para um canto como um trapo, como uma coisa da qual se guarda uma vergonha mortiça. Vem, como um eco, das imagens sonoras de que somos feitos: do fluir do sangue dos antepassados. Nas fotografias, quase todas a preto e branco, vêem-se, numa ampla cartografia do Tempo, as gerações que nos antecederam — desde as terras verdes e as pedras brancas das paredes dos Pintos e dos Baptistas, em Montemor-o-Velho, ao incessante mar açoriano dos Limas e dos Bettencourt, até aos da minha geração, em Angola, a correrem descalços e felizes nas vastas anharas do Sul. Os que nos procedem, nesta casa fustigada pelos mais imperdoáveis ventos, crescem no último país da minha vida.

Tentarei um dia indicar aos meus filhos o caminho do passado, do mesmo modo que o aprendi do meu falecido pai. Só vim a conhecer Verride, a sua terra, quando ele, já debilitado pela doença e pela idade, caminhava socorrido de uma bengala. Foi numa tarde de Junho, solar e quente, que seguimos vagarosamente pelas ruas da sua infância. Emocionado, o meu pai caminhava com a veneração de quem entrava de súbito num templo, perscrutando, através das suas lentes grossas, momentos que já haviam morrido entre as ervas do Tempo mas que dentro dele viviam ainda, incólumes à impiedosa devastação do olvido. "O teu avô Pinto amava as pedras", parecia querer dizer quando falava do pai, dos seus rasgados trabalhos escultóricos, espalhados um pouco por todo o lado. Os seus passos, curtos, tinham o langor de quem voltava pela última vez. Ele sabia que se fechava um círculo no dobrar de cada esquina. Sentindo o ardor desse lume a extinguir-se, eu não podia evitar um grande sentimento de perda. Ao mesmo tempo ia ganhando, com o olhar, uma herança inominável. Socorrendo-se da sua memória prodigiosa, o meu pai parava de vez em quando e cantava enquanto as andorinhas cruzavam os espaços e um odor a vento seco, amando devagar a luz forte do dia, caía sobre os meus ombros como um velho casaco.

Pela voz, levo agora o Mauro e o Fábio aos mais diversos caminhos da minha história pessoal. Insistindo diariamente com eles para que falem português em casa, não os restrinjo, contudo, a um casulo cultural. Incito-os, é certo, ao conhecimento das suas raízes; mas ao mesmo tempo alerto-os para que exaltem e amem o país onde nasceram.

Eu próprio sou fruto de uma cultura crioula, a angolana, com âncoras também fincadas na açoriana e, agora, na canadiana.

Li, de um jovem espanhol, um comentário que vem ao encontro daquilo que sinto sobre a questão da língua e da identidade:

"Eu cheguei à conclusão de que a minha identidade não tem de ser estática. Sinto-me por vezes espanhol e gosto de me identificar com a cultura espanhola; outras vezes dou comigo a reforçar os meus laços alemães, ingleses e irlandeses aos quais também estou ligado. Parte de mim expressa-se através da língua espanhola, quando a falo ou canto canções espanholas, o que não acontece quando falo inglês ou toco música clássica. Cada língua que eu fale e cada género musical que eu abrace carrega um diverso mundo e significado."

Independentemente de me sentir uma mescla de culturas e experiências sociais, sei que a defesa da minha língua, o português, será para os meus filhos uma herança de valor inquestionável. Com ela terão os mecanismos linguísticos para um diálogo com o seu passado familiar, presente e futuro.

Os que vivem fora de Portugal têm, no mínimo, a obrigação moral de ensinar aos filhos a língua materna, na qual a sua identidade cultural assentou raízes. É neste princípio que se cimenta, creio, a continuidade do português na América do Norte, a par da excelente contribuição dos professores, activistas culturais, jornalistas, escritores e de todos quantos mergulham as mãos nas águas deste esforço comum de continuarmos a amar, naqueles que nos procedem, aquilo que somos.

Tento, enfim, dizer aqui que a história da minha vida é inseparável da minha língua. Levo-a comigo até ao Verão do poema, ao princípio de mim. Tanto quanto me compete, farei dela um barco transgeracional.