FERNANDO ANDRÉ


Fernando André nasceu na aldeia de Castedo, Moncorvo,em Portugal, em 1956.Viveu vários anos em Setúbal antes de se radicar em Montreal, Canadá, em 1982, onde colaborou na imprensa local. Organizou vários concursos literários e foi membro- fundador dum rancho folclórico e dum agrupamento de música popular. É autor dos livros de poesia "Gostava de ser poeta"(1981), "Nas Asas do Vento"(2000) e "Tão Longe...e Tão Perto..."(2006 ) e das peças de teatro infantil "O porco e o burro" e "A cegonha e a raposa"(1981).
Faleceu em Abril de 2006.

Saiba mais sobre o autor:


  • OLÁ, FERNANDO

  • A COMUNIDADE ESTÁ MAIS POBRE

  • REGRESSO À VIDA

  • CRÓNICAS DA EMIGRAÇÃO

  • NAS ASAS DO VENTO


  • É tão lindo


    HOMENAGEM-Clique aqui para mais detalhes do acontecimento

    Lápide inaugurada no Castedo a 18-8-2007





    VELHO AMIGO BRITO



    Velho amigo Brito

    Como tens passado,

    Desde que te vi?

    Eu não tenho escrito

    Estou sempre ocupado

    Nem me apercebi,

    Nem dou pelo tempo,

    Sou desmazelado,

    Muita vez o digo

    Mas neste momento

    Guardei um bocado

    Para um velho amigo…

    Diz-me, por aí

    Como vão os teus

    E família também?

    Pois nós por aqui

    Dou graças a Deus,

    Vamos todos bem.

    E o vosso rapaz,

    Como tem crescido!..

    Tem boa estatura

    E é tão falador,..

    O nosso é capaz

    De me ter batido

    Em peso e altura…

    Como te contei

    A vida é pacata

    Mas um pouco dura

    Mesmo se eu bem sei

    Que é muito barata

    E há muita fartura….

    É muito comprido

    Com frio e com neve

    O inverno inteiro,

    Tenho compreendido

    O sofrimento que teve

    O povo pioneiro…

    Para compensar,

    Nós vamos jantar

    Na cave da igreja,

    Para conversar

    Comer e dançar

    E que alguém nos veja..

    Mesmo se à saída,

    Está menos vinte,

    Cá no interior

    A casa é aquecida,

    Não só não se sente,

    Como até faz calor….

    O Natal é belo,

    Com decorações

    Nas ruas inteiras,

    Até mesmo o gelo

    Reflete ilusões

    De muitas maneiras….

    Quando vais comprar

    Cartões de Natal,

    Tu vais encontrar

    Mesmo em Portugal,

    Imagens sem igual,

    Como há aqui só,

    Na neve em trenó.

    Consoada é festa

    <

    Pois com todo o esmero

    Se enchem as mesas

    De coisas portuguesas,

    Carnes, bom tempero,

    Bacalhau, filhós

    E só do que resta

    É um grande exagero,

    Quando comparado

    Ao tempo passado,

    Dos nossos avós…

    Há colectividades

    Onde passa a gente

    Alguns bons bocados,

    Clubes, sociedades,

    Que são geralmente,

    Bem organizados….

    Pelo São João,

    A festa é sagrada,

    Flutuam nos ares,

    Manda a tradição,

    A sardinha assada

    E marchas populares…

    Tenho muito amigo

    Que toca comigo

    Folclore português,

    Vamos muita vez

    Com o rancho actuar,

    Cantar e dançar ,

    No meio francês.

    Como é aborrecido

    Estar sempre metido

    Em casa fechado

    Uma tarde inteira,

    Fui um pouco ousado,

    Já sei patinar

    No gelo e esquiar

    Á minha maneira.

    Desde que aprendi,

    Eu compreendi

    Que isto também tem

    Piada no inverno,

    É frio, porém

    Quem não quer sair,

    Pode até cair

    Nas horas do inferno…

    Tão longe do Minho,

    Até faço vinho,

    Do branco , do tinto,

    De uva americana,

    Olha que até sinto

    Não é nada mau,

    De elevado grau,

    De uva carraspana.

    Está tudo bem,

    Trabalho , saúde,

    A família, tudo,

    Ás vezes porém,

    Sem saber que mude,

    Eu acho-me mudo….

    Ao ver-me ao espelho,

    Vejo-me mais velho

    E não acredito,

    Se às vezes medito,

    Como o tempo voa…

    E vôo a sonhar,

    Até à beira-mar,

    Ao Tejo, a Lisboa…

    Ou lembro os amigos,

    Dos tempos antigos,

    Da vida de outrora,

    Até vir-me embora….

    Setúbal, o mar,

    O jardim do rio,

    Namorar ao frio

    A olhar p`ró castelo…

    Apetece-me vê-lo…

    Lembras os bocados

    Em tempos passados

    No sul, lá na praia

    Em Faro, Quarteira,

    Lagos, Albufeira?…

    Era cada catraia!…

    Com a tenda ás costas,

    Essas nossas férias

    Contando umas lérias,

    Ás moças estrangeiras…

    Ao sol que nem ostras,

    Suecas, Francesas,

    Alemãs, Inglesas,

    Expostas, inteiras,

    Sem nada a esconder…

    Estou-te mesmo a ver

    De olhos bem abertos,

    Curiosos, despertos,

    Sem pestanejar…

    O nosso turismo

    De praia, campismo,

    Era sempre a andar…

    Tempos de ramboia,

    Figueirinha, Troia,

    Que o tempo levou…

    Como a gente mudou..

    Hoje estou diferente,

    Estou mais maduro,

    Estou mais inseguro,

    E mais sossegado

    Do que antigamente.

    São outros os planos,

    Moldado p`los anos,

    P`la vida em familia

    E noites de vigília….

    Hoje o nosso sonho,

    É lindo e risonho,

    Um jardim plantado,

    No norte, tratado

    Repleto em verdura

    Fruta e mais fartura,

    Uma pequena herdade

    P`ra andar à vontade,

    Com casa branquinha

    No meio erguida,

    por nós construida,

    Á nossa maneira,

    Com bar e lareira

    E ninhos de andorinha,

    Como há em Palmela

    Em baixo da janela,

    Nossa e da vizinha…

    E talvez bem cedo

    Vou perder o medo

    E vou decidir :

    Apanho o avião

    Vou daqui partir

    Com as malas na mão,

    Fazer a vontade ,

    Enquanto é idade,

    Ao meu coração…