FERNANDO CRUZ GOMES


1959 - Estágio e primeiros passos no "Primeiro de Janeiro" do Porto.
1960 - Repórter estagiário de "ABC Diário de Angola". Simultaneamente locutor estagiário e locutor de Rádio Eclésia, Emissora Católica de Angola.
1961 - Em pleno início da luta armada em Angola, redactor e, depois, chefe de redacção do "Jornal do Congo".
1963 - Redactor de "O Comércio", diário de Luanda (Grupo Champalimaud).
1965 - Depois de uma curta passagem, de novo, pelo Jornal do Congo, no Uige, chefia os Serviços de Produção do Rádio Clube de Benguela.
1968 - Sucessivamente, locutor de primeira classe, locutor-produtor, chefe do sector de informação, programas literários e intercâmbio e chefe do Departamento de Programação da Emissora Oficial de Angola, sendo responsável pelo trabalho de mais de 200 colegas, a maior parte dos quais estão hoje em Portugal, espalhados pelos Jornais, Rádio e Televisão. Simultâneamente, redactor dos Jornais "O Comércio" e, depois, "A Província de Angola".
Eleito em 1970 presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional dos Jornalistas, onde se manteve até finais de 1974.
1975 - No Canadá, fundador e director de jornais comunitários, como "Popular", "Comércio", "Mundo", ABC Portuguese Canadian Newspaper e "A Voz".
1976 - Durante cerca de um ano e meio, e enquanto aguarda o processo de emigração oficial para o Canadá - para onde tinha ido com um contracto provisório de trabalho - faz parte da redacção de "O Dia" e, como adido, trabalha no Ministério dos Assuntos Sociais.
1985 - Repórter e locutor apresentador ("anchor") da CFMT, uma estação de televisão canadiana com programa profissional diária em Inglês, Italiano, Chinês e Português. Promovido a Produtor Associado e Produtor, reservou para si a secção de reportagem, tendo feito para cima de 5.000 reportagens do dia-a-dia do Canadá e de Portugal.
Praticamente desde 1985, correspondente no Canadá da agência LUSA (e da sua antecessora NP).
Vários cursos de formação de gestão de pessoal, de Informação Televisiva, etc.
Prémio de Jornalismo por excelência da Associação de Jornalistas e Escritores do Canadá, no ano de 1992.

Entrevistas e reportagens:
Conhece quase todo o mundo. Em missão de reportagem, esteve na maior parte dos países de África, Europa e América.
Trabalhos sobre a secessão do Catanga.
Acompanhamento do início da luta armada em Angola.
Entrevistas com presidentes e primeiros-ministros de Portugal, Zaire, Angola, Suiça e França.
Acompanhamento de visitas ministeriais e de chefes de governo no Brasil, Angola e Canadá.
Como presidente da secção de Angola do Sindicato Nacional dos Jornalistas, foi eleito para representar os trabalhadores de Angola na OIT de Genebra, 52ª sessão.

Tem em preparação o ensaio "Um Homem Mau" e o romance "UM HOMEM NOVO"



Leia aqui:

  • PRÉ-PUBLICAÇÃO DO ENSAIO "UM HOMEM MAU"





    UM HOMEM MAU



     Sou um homem mau!

     Não pedi para nascer e muito menos para nascer onde nasci. Se é possível dizer isto, aqui e agora, nem sequer pedi para nascer.  Não sei porquê... sempre me pareceu que o mês ideal para nascer era bem capaz de ser o mês de Dezembro, talvez por que nele nasceu, também - ou, pelo menos, assim se convencionou dizer - o Homem que, tendo vindo ao mundo para ser Amor, acabou por ser morto (e morto na Cruz) pelos outros a quem ajudou, mesmo fazendo milagres que ninguém fizera até então.

     Por tudo isto... sou um homem mau! Imaginem que até acho que deveria nascer em Dezembro para me parecer com o Outro!

     Sou, mesmo, um homem mau!

     Naquela altura, na África grande onde os meus pais me fizeram nascer... era quase crime ser negro. E como eu nasci branco... natural se torna que tive, desde logo, a sorte de estar do lado dos vencedores... dos grandes. Nem nisso me perguntaram a opinião, imaginem.

     Da África  grande onde então nasci - pai branco e mãe assim-assim... - não recordo mais do que as acácias rubras espalhadas um pouco a esmo, por toda a parte, atiradas aos ares como que em pedido mudo de socorro... e umas luzes amarelecidas que bordejavam uma fortaleza colonial que o homem branco tinha construido para defender os seus privilégios, de que também sem querer, acabei por beneficiar (embora pouco... eu conto mais à frente).

     Pelo ano em que me recordo de ter "abancado" nos Jornais... já mordia, e fortemente, o espírito nacionalista que tinha sido soprado, de longes terras, pelos missionários americanos e canadianos, e que morava, no entanto, desde há muito, no coração dos negros que eu via, sempre, mesmo no meu pensar de menino, como seres, senão inferiores, pelo menos não iguais a mim...

     Mesmo que em casa me dissessem, a toda a hora, que todos eram iguais, e que Deus tinha feito negros e brancos, a verdade é que eu reparava, abertamente, nas gritantes diferenças. As lavadeiras e os muleques eram de cor negra. Os senhores do Governo e das lojas grandes eran brancos.

      Cresci, nos primeiros meses e anos - não muitos - com um qualquer Domingos, a quem, infelizmente, perdi o rasto. E foi ele que me conseguiu meter na cabeça que, na verdade, ser branco não é sinónimo de ser bom, nem ser negro é sinónimo de ser mau. Nos primeiros tempos, ainda discuti.

     ...Mas a sua alma, talvez mais branca do que a minha, fazia-me ver coisas que eu nem sequer imaginava. E contava-me lendas que só os mais velhos sabiam, desfiava rosários que só a "mãe preta" que havia em todos eles sabia desfiar, cantava-me canções, que eu tenho pena de já ter esquecido, e que falava de homens e de mulheres, em vez de falar de negros e de brancos...

     - Ai, Domingos... Domingos! Onde estás?!

     Um dia, aprendi com ele que é feio um homem chorar. Mas aprendi essa teoria, vendo-o a chorar.  Mais, chorando com ele!

     Mais velho do que eu uns 8 anos, fora passar o Natal - o tal Natal, de que eu tanto gostava... - lá longe, na terra de onde uma tia velha o arrancara para o trazer para a casa daquele senhor... Quando voltou, o Domingos vinha outro. Apesar de ter partido há pouco mais de 15 dias... vinha mais homem. E a despeito de eu nem entender tudo o que ele dizia, acabei por me aperceber da sua mensagem. De paz e harmonia, feita, afinal, de sangue e de ódio, em paradoxo que eu, às vezes, ainda consigo cultivar.

        Quando chegou a casa... da casa encontrou apenas o local. Indagando junto dos vizinhos... alguém lhe disse que o pai e a mãe tinham morrido. Proprietários de uma pequena quinta, onde floresciam, também, robustos pés de café, haveria de ser o famoso "ouro negro", a que continuam a chamar café, que lhes provocara a morte. Um senhor qualquer tinha uma fazenda próxima, que queria prolongar. Ainda tentou negociar... mas, não o conseguindo, arranjou meia dúzia de "capangas" que incendiaram toda a quintazinha que já vinha do bisavô do Domingos. Como foi de noite, ninguém teve tempo de fugir. Ficaram-se por ali...

     E o Domingos, ao ver que os meus quase 6 anos de então, não entendiam todo o drama dele, nem entendiam as lágrimas que lhe via cair... ia-me dizendo que o assunto estava em tribunal e que o tribunal haveria de castigar os criminosos e devolver a terra aos herdeiros.

     Só aqui, já nesta terra que chamam portentosa... eu soube que o crime ficou impune. É que, fugindo de uma cidade para outra, o homem autor do morticínio e do roubo, ia evitando ser confrontado com os homens da Justiça e o crime ia, aos poucos, prescrevendo.

     - Ai, Domingos... Domingos! Onde estás?!

     As lágrimas então choradas nem eram apenas pela perda dos entes queridos. Muito menos pelo terreno desaparecido. Era, afinal, pela sua história de menino feito homem aos solavancos da fortuna que se perdera de repente. Contou, ainda, que num dos dias em que por lá deambulou... deparou com um qualquer repórter de Jornal grande de um país grande que lhe queria escrever a  história. Que lhe queria pagar, até, uma pequena fortuna - para o que ele ganhava e para aquele tempo - por uma fotografia sua frente à casa que era então "esqueleto" feito pelo braseiro agora já sem fogo. E que no final... por que ele não aceitou o pagamento, lhe deu a máquina de fotos que levava consigo.

     Que não, disse-lhe ele! Não. A máquina não devolve a vida aos seus. A máquina não lhe traz de volta a primeira bicicleta pràticamente feita de madeira que o pai construiu. Não dá à irmã... que anda por aí e que nunca mais viu... a boneca de trapos que a avó lhe dera. Nem sequer lhe dá de volta o primeiro caderno que levou da escola da missão, onde aprendeu as primeiras letras... Não. Disse-lhe que não...!

     E eu - que sou, mais do que ele, um homem mau! - deixei que a mente e o corpo chorassem! Se fosse comigo,  era bem capaz de não fazer o mesmo. Era capaz de berrar, noites sem fim, o meu ódio a tudo e a todos. Era capaz de fazer justiça pela minha mão. Era capaz de pedir aos céus para me deixar exercer a minha vingança... Que outra coisa poderia eu fazer?! Alguém me dirá?!

     Sou, efectivamente, um homem mau! E sem querer, vez por outra, nesta mesma terra, onde dizem que não há racismo nem discriminação... onde o crime (dizem) não compensa... chego a pensar que o meu amigo Domingos deveria ter jogado outro jogo. Talvez chorar para dentro, sim, mas levar por diante a sua própria justiça, já que a dos homens... nunca mais chega.

     Efectivamente... não pedi para nascer. E muito menos para nascer onde nasci!!

     Só que a África tornou-me um cidadão do mundo. Com a Europa, talvez, por raizes. Com a América a argamassar-me a maturidade. Mas com o coração e a alma  mergulhados no humus fértil das terras quase vermelhas da África-mãe. Indomável no seu frenesim de crescer e generosa na abertura que deu ao mundo para que a abriram. Prenhe de riquezas mil em solo e subsolo que outros ainda hoje exploram e simples de morrer na forma como abre a porta a quem adrega de lá ir...

        In UM HOMEM MAU, em preparação