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FERNANDO FELICIANO DE MELO |
Fernando Feliciano de Melo nasceu em 1929 na freguesia de Relva, S. Miguel. Radicou-se em 1967 no Canadá. Residiu em Toronto onde faleceu, em 2003.
É autor dos livros "Os visitantes da América", "Nadine a sereia dos Corais e Reminiscências"(1996), "Vertigens", "A Ilha do Dolphin_Reminiscências"(1999) e "Folhas Levadas p'lo Vento"(2002).
Beau Geste (*)
Ou "Aventuras com barbeiros"
Acabara de chegar da festa de um
amigo, cuja neta celebrara a primeira comunhão e sentia-me
um bocado sonolento, talvez por ter dado um pouco mais de trabalho
aos dentes e ao estômago. Era um tal abrir de boca - sentia
que estava mesmo a pedir uma soneca!
As comidas tinham sido apetitosas e o vinho não lhes
ficara atrás, e, contra o meu costume, depois de tirar
o casaco e os sapatos fui estirar-me sobre a cama a "passar
pelas brasas".
Quando "Morfeu" começava a tomar-me nos braços
para me levar ao país dos sonhos e eu já estava
mais p'ra lá do que p'ra cá, o telefone tocou.
No andar de baixo minha mulher atendeu a chamada e como levasse
muito tempo a falar com a pessoa do outro lado da linha, pensei
que não fosse para mim, pelo que voltei de novo a carregar
no "acelerador"!. Dentro em pouco tive de meter o "travão".
Afinal a chamada que já havia esquecido era mesmo para
mim. Desci a escada aos tropeções.
Estava na linha o meu amigo Daniel Cardoso, que descobrira
no livro que lhe havia vendido no dia do lançamento, o
relato das peripécias do "Doutor", uma das nossas
figuras típicas, que se relacionava com coisas do seu
passado, ali para os lados da velha piscina de S. Pedro.
Por aí começou uma longa conversa, que pelo
sabor das suas peripécias, lhe prometi que iria dar início
a uma história - a que a seguir vou contar:
Falamos primeiro dos nossos netos como é natural,
vindo depois os "Pets" para a conversa.
Disse-lhe cheio de pena, que o "Puccini", o meu
"lourinho", havia morrido. O pequenino cantor de "ópera
à hora do almoço", escolhera o dia de Sexta
Feira Santa para deixar o palco da vida!. O pobre para o fim
andava já ceguinho, aos trambolhões pela gaiola,
o que me confrangia. Foi melhor assim! Há porém
silêncios mais difíceis de suportar do que o barulho!.
Tenho de arranjar outro que me venha alegrar os dias de solidão!
Nestas coisas nada como seguir o ditado de: "Rei morto rei
posto"! Uma gaiola vazia é como uma casa abandonada.
Dos pássaros passamos aos caninos - o meu amigo Daniel
tem um cão de pelo felpudo e grandes orelhas, o "Beau",
que tal como o nome indica é bonito, e o qual, com o seu
modo de viver, é um dos mais importantes e caros membros
da família, (e neste caso posso usar o termo nos seus
dois significados - querido e dispendioso)!
Claro que ao falar-se de animais de estimação
cá por estes lados e nesta sociedade complicada, onde
tudo gira à volta de produtos fabricados e enlatados,
casas especializadas em veterinária e dietas para todo
o bicho careta, entra logo em calculações as despesas
que incorre quem tem um cãozinho, (e não precisa
ser dos muito grandes, que há para aí alguns que
comem mais do que os donos).
No que diz respeito à higiene pessoal, a dos cães,
de longe que leva a palma à dos donos!
Eu, apesar do pouco cabelo que tenho, (o que não me
dispensa uma visita à barbearia de mês a mês),
quando o quero cortar, só tenho de ir até à
esquina da rua, e logo abaixo tenho uma oficina da especialidade.
Se na altura estiverem algumas pessoa para serem atendidas pelo
"fígaro", é uma questão de esperar
um pouco pela vez. Há sempre no Sun a "Girl do dia"
ou o "desenho do Donato", para ajudar a passar o tempo,
que quando muito, não vai além de uma hora!
Com o cãozinho já não é a mesma
coisa e foi isso que me deixou boquiaberto.
O meu amigo Daniel esteve a contar-me a espécie de
"Tragédia Grega" que tem de passar, cada vez
que vai cortar o cabelo ao "Beau", o seu famoso cãozinho,
cujo pelo faz lembrar o "astracã".
Só para o percurso de ida e volta entre a casa do
meu amigo e o Salão de beleza Canino, diz ele que medeiam
uns bons 140 kilómetros, coisa que dava para ir e vir
ao Nordeste. O raio do barbeiro tem as suas instalações
para os lados da 401 com a 10 e o trabalhinho de tosquia tem
os seus rituais conforme poderão ver.
Como se a personalidade canina se tratasse de um embaixador,
antes de dar Início ao trabalho estilizado é preciso
marcar um apontamento! Os "Vira latas" do meu tempo
de rapaz, que andavam a revirar caixotes de lixo e passavam dias
sem comer, rebentavam de inveja se ouvissem esta epopéia!
Por volta de um quarto para as dez e após um longo
passeio de automóvel, o meu pachorrento amigo, seguido
do seu protegido, vai largá-lo no estabelecimento, onde
voltará por ele aí por volta das 4 horas, com "quarenta
e oito patacas" na mão!. Ele há permanentes
para senhoras que ficam mais baratas. Mas como têm de lavar
e secar o cãozinho, ainda assim não é mau
de todo. Não me lembrei de perguntar-lhe se o preço
incluía serviço de pedicure.
É o que digo, vivemos num mundo cão!. Penso
que é por essas e outras que se têm ido acabando
as pulgas!. Sem transporte, elas já não vão
a lado nenhum. Uma injustiça.
Sai mais barato hoje em dia amarrar uma guita numa escova
de dentes e sair a dar um passeio ao cãozinho, elas pelo
menos não mordem nem fazem desfeitas no relvado da vizinhança!
(*) Beau Geste. "Belo Gesto"
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-Com este título fizeram há muitos anos um filme
a branco e preto, cuja acção decorria no Norte
de África e tinha por protagonistas figuras da célebre
Legião Estrangeira. O meu amigo que é um romântico
inveterado deu ao seu cãozinho, que realmente é
bonito, o nome apropriado - Beau!
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