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ISABEL PEREIRA DOS SANTOS |
Isabel Pereira dos Santos, nasceu em Faro. Completou os
estudos em Lisboa, na Escola Superior de Teatro do Conservatório Nacional.Foi uma das fundadoras do Teatro Laboratório de Faro onde durante vários anos foi directora artística, dramaturga e artista.
Em 1989, com uma bolsa de estudo da Secretaria de Estado da Cultura, veio para Montreal, tirar um
Mestrado em Teatro (Universidade do Quebeque), onde acabou por se radicar. Outras páginas sobre a autora: III QUADRO (Entra em cena um guarda. Aproxima-se sem ser visto da vidente). GUARDA : Ouve lá mulher, que fazes aqui a esta hora? Pessoas de bem não andam nas trevas. VIDENTE :
(muito beata) Senhor, sou uma mulher honrada. Venho de Santa Madalena, onde estive
a rezar. GUARDA : Uhm..., para tanta reza deves ter grandes pecados. Ora vais é contar isso ao Tribunal do St. Oficio. VIDENTE : Não, não meu senhor. Atendei: há
catorze anos, neste mesmo dia 19 de Janeiro, fiz perante o St. Mártir S.
Sebastião a promessa de todos os anos nesta santa noite, rezar à porta de uma
Igreja, caso ele nos concedesse a graça de nos dar um príncipe herdeiro, para
assim nos defender do cobiçoso castelhano. ( alucinada ) Ei-lo, esse rapaz
belo, destemido e piedoso! o nosso rei, o nosso reizinho, o principe D.
Sebastiâo em quem todos temos os olhos postos. GUARDA : (cínico) Supondo que tudo isso é
verdade, nada se perde em tornares a dize-lo de novo no St. Tribunal... VIDENTE : Não, não. Peço-vos! Não me entregueis... GUARDA : (insinuante ) Bem, já que
queres demonstrar tua inocência: tens bolsa? VIDENTE : Moedas
não tenho meu senhor, que o meu marido partiu já há dois anos para a Índia e
ainda não tive notícias dele. GUARDA : Ah!...
Não tens marido... (apalpa-lhe
as ancas) E a cama, ainda tens? VIDENTE : (muito
aflita ) Não meu senhor! Eu prometi ficar casta. (o guarda continua a avançar sobre ela) VIDENTE :(aterrorizada) Não, não meu senhor, que não
posso... (pega-lhe num braço e puxa-a; a vidente, desesperada, oferece resistência) VIDENTE Não, não meu senhor...(pára e enfrenta o
guarda, muito calma) Sim, sim meu senhor, ainda tenho cama. (o guarda sorri. A vidente deita-se no solo e levanta as saias) |