JORGE DE CAMPOS


Jorge de Campos nasceu em Lisboa e está radicado em Montreal, Canadá, desde 1977. Com várias obras publicadas nos USA, é autor do livro de ficção científica "A Praia dos Deuses", publicado pela "Vega"(1995). Está incluído no repertório de escritores portugueses de ficção científica . Em 2004 alcançou o 1o prémio (prosa) no concurso literário Proverbo (EUA).

Outras páginas sobre o autor:

Conto premiado pela Proverbo




A PRAIA DOS DEUSES


Tinham as tradicionais bandeiras de gala e o pódio, e até houvera o desfile em parada dos blindados e das fardas a rigor. Mas faltava o esplendor que normalmente caracterizava aquelas cerimónias quando elas eram trasmitidas em directo na Holovisão e o público resumia-se a uma mão-cheia de convidados, a maior parte familiares dos oficiais estacionados na base.
Mesmo assim o secretário-delegado Pearson, o representante da Federação Terrestre em Eumenides, desempenhava com toda a reverência o papel que lhe fora confiado. Deu um passo atrás, voltou `a direita e dirigiu-se para o próximo homem perfilado diante do pódio.
Andava num ritmo compassado, com o tronco direito como uma tábua. Seguia-o de perto um coronel, segurando religiosamente uma pequena caixa castanha. Mais atrás vinha a habitual comitiva de dignitários militares e civis, jornalistas e o fotógrafo oficial do destacamento.
Quando chegou junto dele, o oficial do Governo Central virou-se com um movimento repentino, quase militar, e encarou-o.
- Walter Hileman, soldado! - anunciou um tenente que incorporava a comitiva. O tom era formal, despido de sentimentos. - Na noite de sete de Agosto de dois mil quinhentos e quarenta e um, no sector trinta e nove, uma escaramuça com uma divisão motorizada krahn resultou em danos severos para o posto de observação aonde Walter Hileman estava estacionado. Sofrendo de uma lesão na cabeça, e com uma perna queimada por uma descarga de laser, ele assegurou sozinho a posição, impedindo-a de cair em mãos inimigas. No processo provocou várias baixas às forças atacantes e fez um prisioneiro krahn.
O secretário-delegado pestenejou.
- Encurralado por elementos hostis - continuava o oficial -, ferido, sem água, nem mantimentos, Walter Hileman nunca perdeu o sangue frio nem a noção das responsabilidades. Com uma simples unidade rádio de campanha manteve cerrada vigilância do sistema de comunicações até conseguir quebrar a interferência electrónica krahn e pedir reforços. A sua acção contribuiu de maneira significativa para uma retirada ordenada do sector e para o reagrupamento das forças terrestres.
O homem fez uma breve pausa.
- Por excepcional bravura e espírito de sacrifício no desempenho do dever face ao inimigo, Walter Hileman é agraciado com a Cruz de Ouro da Ordem do Sistema Solar - concluiu ele.
O coronel abriu a caixa e estendeu-a ao secretário-delegado. Repousando sobre uma almofada de cetim branco havia cinco medalhas perfeitamente alinhadas e três espaços vazios.
- Parabéns - disse o representante da Federação Terrestre. Tirou uma medalha do estojo.
- Obrigado - agradeceu Walter.
Reteve a respiração enquanto o secretário-delegado lhe pendurou a condecoração na camisa. Ouviu o som do holo-vídeo a disparar e notou o fotógrafo deslocando-se de um lado para o outro atrás da comitiva.
O secretário-delegado recuou e levou a mão aberta ao peito nas saudação protocolar.
- Pela honra e glória da Terra! - disse ele.
- Pela honra e glória da Terra - repetiu Walter. Os músculos faciais estremeceram-lhe ligeiramente.