JOSÉ D'ALMANSOR


José d'Almansor é o pseudónimo literário do padre José Maria Cardoso.

Nasceu em Guimarães em 1961. É licenciado em Teologia pela Universidade Católica de Lisboa. Foi missionário no Benin e é actualmente responsável da Igreja de Santa Cruz em Montreal, no Canadá
Tem colaboração espalhada por várias publicações e é autor do livro de crónicas e poesia "Crónicas de Benin"-2002.

Outras páginas sobre o autor:

Presente de Natal


O ARTISTA


Chama-se Germain e, quando se ri, leva a mão à boca para esconder a falha deixada por três dentes ausentes. Veio à missão para comprar duas árvores que tinham sido abatidas no terreno onde vai ser implantada a nova igreja.

            — Quinze mil pelas duas, ofereceu ele.

            — É pouco, reclamava o cozinheiro Sani que, nestas coisas de negócios, é sempre ouvido. Pelo menos vinte mil.

            — Não posso pagar tanto, dizia o nosso homem encostado à mota azul do “zemijan” que lhe tinha servido de táxi.

            — Olha que isto dá muita madeira. Tu és carpinteiro, não és?, perguntava o rapaz curioso.

            — Não, eu sou escultor. E o negócio não está muito bom.

            Eu, que tinha estado calado, interessei-me. Estava diante de um artista.

            — Pronto, quinze mil e uma pequena estatueta para conhecermos o trabalho do mestre, adiantei eu para encerrar negócio.

            Deixou escapar um sorriso pela cancela dos dentes e aceitou.

            — E onde é que trabalha?

            — Em N’Dali. É uma pequena cidade a 60 km daqui. Mas brevemente vou mudar-me para cá.

            — Para onde?, continuei eu interessado.

            — Lá para baixo, para o cruzamento, perto do depósito da água.

            — Mas já há lá alguém que vende estátuas, informei eu, conhecedor do canto de que falava.

            -Pois há. São as minhas.

- São suas?, perguntei eu ainda sem entender como é um artista de N’Dali vendia estátuas em Parakou.

-         Quer dizer que é você que faz as estátuas que o Pascal vende?

-  Exactamente, confirmou ele já a tapar a boca com a para ocultar a gengiva descalça.

            Fiquei radiante. Tinha diante de mim o artista da bela afrinana que eu tinha comprado para me oferecer por altura meus anos. Levei-o ao meu quarto e mostrei-lha. Notei que ficou contente ao ver a sua obra num lugar de destaque e que eu a apreciava. Prometi que lhe faria uma visita quando ele se mudasse para cá.

            Hoje, ao passar para o correio, vi o Germain no seu atelier: quatro paus levantados que seguravam duas esteiras de palha para  proteger do sol. Dei a volta ao carro e fui pagar a visita prometida. Quando me viu, riu-se mas, como tinha as mãos ocupadas, não pôde evitar de mostrar a gengiva desamparada.

            O artista ali estava, como um poeta que habita a palavra, a lavrar um tronco para lhe arrancar o que já lá tinha visto. O suor perolava no seu rosto negro e iluminado. Ia talhando a madeira como quem deposita nela um verbo conjugado ou adjectivo. E aquele tronco, como criança aprendiz, começava a falar e a insinuar um sentido.

            - É um leão?, perguntei depois de algum tempo, como um estudante de uma língua estrangeira que descobre o sentido de uma frase depois de ter rodado todos os termos no dicionário. Acenou-me com a cabeça que sim, deixou fugir mais um sorriso pela falha dos dentes, mas não falou. O seu poema de fibras ganhava forma, e ele talhava a madeira como quem risca de um texto as palavras parasitas.

            Admiro esta gente, os artistas e os poetas, estes visionários do belo oculto e ofuscado na vulgaridade das coisas. Admiro esta gente capaz de fazer obras de arte de pedaços de dia a dia. Admiro estes navegantes do quotidiano que descobrem arquipélagos de beleza onde os outros só vêem mar.

            Só a arte, esta epifania do belo, nos ajuda a perceber que a compreensão da plenitude requer interioridade.

            Ali estava o artista de formão em punho, como um hissope, a tornar sagrado o rudimentar.

            O Germain ajudou-me a compreender que uma árvore não é só árvore. Ela é leão, é cadeira, é calor, é frescura, é... É como se cada elemento da natureza, além de ser o que é, fosse um resumo da totalidade.

            É esta grandeza da vida e das coisas que a arte nos revela como um messias do sentido, da plenitude e da harmonia.

(In "Crónicas de Benin")