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JOSÉ D'ALMANSOR |
José d'Almansor é o pseudónimo literário do padre José Maria Cardoso. Outras páginas sobre o autor: Chama-se Germain e, quando se ri, leva a mão à boca para esconder a falha deixada por três dentes ausentes. Veio à missão para comprar duas árvores que tinham sido abatidas no terreno onde vai ser implantada a nova igreja. —
Quinze mil pelas duas, ofereceu ele. —
É pouco, reclamava o cozinheiro Sani que, nestas coisas de negócios, é sempre
ouvido. Pelo menos vinte mil. —
Não posso pagar tanto, dizia o nosso homem encostado à mota azul do “zemijan”
que lhe tinha servido de táxi. —
Olha que isto dá muita madeira. Tu és carpinteiro, não és?, perguntava o rapaz
curioso. —
Não, eu sou escultor. E o negócio não está muito bom. Eu,
que tinha estado calado, interessei-me. Estava diante de um artista. —
Pronto, quinze mil e uma pequena estatueta para conhecermos o trabalho do
mestre, adiantei eu para encerrar negócio. Deixou
escapar um sorriso pela cancela dos dentes e aceitou. —
E onde é que trabalha? —
Em N’Dali. É uma pequena cidade a 60 km daqui. Mas brevemente vou mudar-me para
cá. —
Para onde?, continuei eu interessado. —
Lá para baixo, para o cruzamento, perto do depósito da água. —
Mas já há lá alguém que vende estátuas, informei eu, conhecedor do canto de que
falava. -Pois há. São as minhas. - São suas?, perguntei eu ainda sem
entender como é um artista de N’Dali vendia estátuas em Parakou. -
Quer
dizer que é você que faz as estátuas que o Pascal vende? -
Exactamente, confirmou ele já a tapar a boca com a para ocultar a
gengiva descalça. Fiquei
radiante. Tinha diante de mim o artista da bela afrinana que eu tinha comprado
para me oferecer por altura meus anos. Levei-o ao meu quarto e mostrei-lha.
Notei que ficou contente ao ver a sua obra num lugar de destaque e que eu a
apreciava. Prometi que lhe faria uma visita quando ele se mudasse para cá. Hoje,
ao passar para o correio, vi o Germain no seu atelier: quatro paus levantados
que seguravam duas esteiras de palha para
proteger do sol. Dei a volta ao carro e fui pagar a visita prometida.
Quando me viu, riu-se mas, como tinha as mãos ocupadas, não pôde evitar de
mostrar a gengiva desamparada. O
artista ali estava, como um poeta que habita a palavra, a lavrar um tronco para
lhe arrancar o que já lá tinha visto. O suor perolava no seu rosto negro e
iluminado. Ia talhando a madeira como quem deposita nela um verbo conjugado ou
adjectivo. E aquele tronco, como criança aprendiz, começava a falar e a
insinuar um sentido. -
É um leão?, perguntei depois de algum tempo, como um estudante de uma língua
estrangeira que descobre o sentido de uma frase depois de ter rodado todos os
termos no dicionário. Acenou-me com a cabeça que sim, deixou fugir mais um
sorriso pela falha dos dentes, mas não falou. O seu poema de fibras ganhava
forma, e ele talhava a madeira como quem risca de um texto as palavras
parasitas. Admiro
esta gente, os artistas e os poetas, estes visionários do belo oculto e
ofuscado na vulgaridade das coisas. Admiro esta gente capaz de fazer obras de
arte de pedaços de dia a dia. Admiro estes navegantes do quotidiano que
descobrem arquipélagos de beleza onde os outros só vêem mar. Só
a arte, esta epifania do belo, nos ajuda a perceber que a compreensão da
plenitude requer interioridade. Ali
estava o artista de formão em punho, como um hissope, a tornar sagrado o
rudimentar. O
Germain ajudou-me a compreender que uma árvore não é só árvore. Ela é leão, é
cadeira, é calor, é frescura, é... É como se cada elemento da natureza, além de
ser o que é, fosse um resumo da totalidade. É
esta grandeza da vida e das coisas que a arte nos revela como um messias do
sentido, da plenitude e da harmonia. |