LUÍS AGUILAR


Luís Aguilar nasceu em Lisboa, em 1951. Reside em Montreal.
É diplomado pela Escola Superior de Teatro do Conservatório Nacional de Lisboa. Fez um doutoramento em Psicopedagogia. Foi encenador e director do Teatro Experimental de Faro. É leitor do Instituto Camões em Montreal. Tem vasta obra publicada nos campos do ensino, da arte dramática e da literatura. No ano 2000, publicou o livro "Egografia, Pai-Adulto-Criança em Acção Transaccional". Colabora no jornal LusoPresse de Montreal.

Outras páginas sobre o autor:

  • EGOGRAFIA
  • Página Pessoal de Luís Aguilar




    SARAMAGO: UM NOBEL A PRETO E BRANCO


    O primeiro prémio Nobel atribuído à Literatura em língua portuguesa, é pleno de significado. Por ser o primeiro e pelas características pessoais do laureado. A língua portuguesa já o merecia há anos, há décadas. Pessoa, Torga, Nemésio, Jorge de Sena, Jorge Amado, para citar apenas os da nossa preferência. Para além do genial escritor que é, Saramago, o Nobel homenageia e reconhece a qualidade da expressão e comunicação em língua portuguesa. Duplo mérito para Saramago que, para além do talento, criatividade, frontalidade, irreverência, sarcasmo e humor que caracterizam a sua escrita, teve o mérito de saber divulgá-la, gritá-la pelos quatro cantos do mundo, fazendo-a ouvir-se em cerca de trinta línguas. Não se fechou no seu orgulho isolado, à espera que o lessem e reconhecessem-no como tantos outros que, apartados do mundo e com ele (des)iludidos, ficam à espera do Godot. Sem precisar de se pôr em bicos de pés como muitos que agora o criticam ou louvam, Saramago, para quem na vida é preciso, por um lado não precipitar nada e, por outro lado não perder tempo, foi colhido de surpresa com a atribuição deste prémio, quando se preparava para mais uma batalha em favor da língua portuguesa na Feira International do Livro de Frankfurt, a tal ponto que lhe saíu de um jorro toda a emoção, alegria, generosidade e muita sedução e encanto que, pela rudeza dos seus paradoxos existenciais, não o sabiamos capaz.

    In Nomine Dei, o prémio Nobel, atribuído a uma figura irrequieta, controversa, rude como Saramago, não torna fácil uma Viagem a Portugal, onde só são autorizados os Poemas Possíveis dos brandos costumes, mas de aguerridos combatentes aos que ousam, como ele, denunciar os crimes religiosos, transgredir as regras da gramática e da escrita pontuada, e sobretudo, combater a estupidez, o carreirismo, o arrivismo e o conformismo.

    Na Terra do Pecado, José Saramago, Objecto quase do que pensa exclusivamente a sua cabeça é gerador de múltiplos confrontos e afrontas ao Evangelho Segundo Jesus Cristo cujo Memorial do Convento, não tolera.

    Saramago é um homem Deste Mundo e do Outro que, de uma vida pouco mais que medíocre, primária, corriqueira em que terminava A Noite perguntando-se O que Farei com este Livro ? renasce Levantado do chão, aos cerca de sessenta anos como escritor e como pessoa.

    Saramago, como Pessoa e outros vultos da língua portuguesa fabrica-se a si próprio como escritor e atinge a genialidade no Ano da Morte de Ricardo Reis, sem Manual de Pintura e Caligrafia fornecido por qualquer universidade que, tal como Fernando Pessoa, nunca frequentou.

    E é por volta de O Ano de 1993, que sem ambiente para trabalhar e viver, em que A História do Cerco de Lisboa fê-lo bater com a porta, tornando inevitável a sua partida de Portugal, para dar asas ao seu espírito inovador numa ilha espanhola e aí viver com a sua mulher Pilar Provavelmente Alegria e dedicou-se à redacção dos Cadernos de Lanzerote. A Segunda Vida de São Francisco de Assis, quero dizer de José Saramago, é muito diferente dos tempos em que esteve à frente dos destinos do Diário de Notícias onde, nessa altura, tivemos a oportunidade de encontrá-lo em ambientes nem agradáveis, nem conviviais, nem nada democráticos, ser testemunha da autêntica Jangada de Pedra em que o seu pensamento viajava nos mais patéticos dos sectarismos.

    Na sua Bagagem de viajante tem quatro doutoramentos honoris causa concedidos por quatro prestigiadas universidades estrangeiras. Nenhuma portuguesa. Vetado um rol de vezes para tão simplesmente o seu nome ser dado a uma escola ou fazer parte de uma lista indicada pelas "autoridades" portuguesas para receber um prémio internacional, forma-se agora, na hora da consagração mundial de Saramago, quer o cortejo ululante do costume para aplaudi-lo quer, triste sina a nossa, os que, no seu Ensaio sobre a Cegueira, tentam em bicos de pés, minimizar o que representa a sua obra, que provavemente não leram, mas não gostaram. Eis senão Todos os Nomes, alguns dos que inventam, tal polícias do prazer, do belo e do sentido crítico, lobbies, excomunhões, arrivismos, cruzadas, perseguições, invejas, para quem o combate de José Saramago, certamente se dirige e naturalmente incomoda: os Laras, os Sousas, os Santanas, os Lopes, os Damásios, os Manuéis, os Dons Duartes, pios ou parvos, reis de Portugal ou de Além Alentejo, os bipos do Porto ou de Bragança, os comunistas ortodoxos, os Portas e Paulos... Todos estes e outros encontram-se simbolizados e retratados nas obras de Saramago cuja leitura é mais do que nunca necessária à compreensão de muitos fenómenos religiosos, políticos, sociais, históricos que explicam a grandeza e a pequenez de se ser português.