OSCILDO COUTO DE SOUSA


Oscildo Alcáçova Couto de Sousa, nasceu em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Açores, onde exerceu a profissäo de Ajudante de Despachante Oficial da Alfandega de Angra do Heroísmo. Casado, tem três filhos, dois rapazes e uma rapariga. Imigrou para o Canadá em 1969, e trabalhou até se reformar, para a multinacional McDonnell Douglas, depois Boeing of Canada. Na altura de se reformar era classificado como Work Unit Technician. Tem colaborado com Portuguese Times (USA), Gaseta Lusófona (Suiça), Portugal em Linha (Lisboa), Voz de Portugal (Montreal), Diário Insular (Ilha Terceira) e é, presentemente o colaborador mais antigo de Sol Português, que se publica em Toronto.




CONTO DE NATAL


Manuela era uma criança que sentia a sua vivência _ a vivência da casa. Quando estava com as amigas, procurava esquecer tudo por quanto passava logo que a casa chegava... O viver dos pais, gente humilde, pobres, que tinham - como muitos outros casais - variadas dificuldades, havia sido um verdadeiro inferno. Muitos desgostos havia passado já, mas na mísera vida que levada algo de muito profundo havia acontecido e que a tinha deixado marcada para o resto da vida.

Verdadeiramente, não se lembrava de ter passado na sua curta vida um dia de felicidade. Tudo havia começado há cerca de três anos. Mesmo no dia dos seus anos, que, para ela, afinal era um dia como outro qualquer.

Nesse dia, fora para o seu quarto sentindo ainda mais do que nunca a vida miserável que levava. Algo se havia passado e que em muito modificara a sua vida, já de si miserável. Algo que, na realidade, marcou muito esse dia que ela acreditava deveria ser um dia de felicidade...

Amigas haviam-lhe dito que no dia dos anos delas haviam recebido ofertas, quer dos pais, quer de familiares. Houvera festa, com bolo, riso e muita alegria. E elas brincavam com outras crianças da mesma idade festejando esse dia.

Ajoelhada junto da cama, perdia-se nestes pensamentos, que ainda mais lhe amarguravam a vida. Já vira as bonecas de muitas da suas amigas lá da rua _ eram feitas de restos de roupas, pelas mãos das mães... Bonitas as bonecas, como eram bonitas as mães das outras pequenas, mas nunca tão lindas como a sua mãe...

Um dia vira uma boneca de uma amiga que possuía um pouco de abasteza. Era linda! E ficou sonhando com ela.

Manuela foi ficando sonolenta, de tanto pensar, e antes de cair no sono iniciou as suas preces, que eram, como habitualmente as mesmas. Rezas que lhe haviam sido ensinadas, com muitas palavras bonitas, mas outras, sem sentido para ela, às quais não prestava grande atenção. Repetia-as como lhe haviam ensinado. Nada significavam para ela.

Por vezes, iniciava as rezas e terminava com palavras suas. E, quando dava por tal, pensava que estava a falar com Deus. Então sentia-se mais satisfeita. A conversa que tinha com Deus, como ela pensava, tinha o condão de a aliviar um pouco das amarguras que lhe iam na alma.

Assustava-se, então, e, arrependida, benzia-se e continuava as preces como as aprendera, tendo sempre o cuidado de pedir desculpa, no fim, por ter sido malcriada tentando falar com Deus...

E, ficava mais satisfeita, pois que assim como que sentia no íntimo que Deus lhe sorria e perdoava... Um sorriso que ela adorava e que a fazia dormir paulatinamente.

Nesse dia, que devia ser um dia solene para ela _ o dia em que fazia os seus sete anos _ tentou rezar, concentrar-se nas palavras, muitas delas sem o sentido da fé que pretendia imprimir-lhes.

Iniciadas as preces, ouviu um ruído diferente no quarto de entrada. Deu-lhe a impressão que se tratava do Pai, altercando com a Mãe. Nunca tal havia acontecido antes e a Manuela, surpresa, foi investigar.

Com muito cuidado _ pois que não queria ser acusada de estar a espreitar os seus pais _, pé ante pé, lá foi à porta do seu quarto e abriu uma fresta... o suficiente para poder ver o que se estava a passar. E o que viu gelou-lhe o sangue: o pai gesticulava e altercava com a mãe de uma forma como nunca tinha visto. Sabia que eles discutiam uma vez por outra, mas eram sempre discussões muito mais calmas, muitas das vezes, falando sobre a vida de miséria que levavam.

Mas naquela noite tudo era diferente; o pai falava com uma voz arrastada, a que ela não estava habituada.

E foi quando, algo aconteceu, que a marcou para o resto da sua vida. O pai, arrebatado, agarrou nas mãos da mãe e, sem demora, agrediu-a, esbofeteou-a!

Manuela nunca tal vira. Por momentos julgou estar sonhando e esbofeteou-se a si própria, pois que se estivesse dormindo certamente acordaria. Em vez disso, continuou acordada para uma realidade que a chocou _ o pai, depois de agredir a mãe uma vez, voltou a agredi-la, desta vez a soco. Repetidamente, mau grado o facto da Mãe tentar defender-se...

Num ímpeto, Manuela abriu a porta e gritou: "Pára, pára de bater na minha Mãe!" E nem esperou para ver o resultado dos seus gritos. Foi para o seu quarto e sem mais demora, deitou-se. Não rezou. Sentia dentro de si uma dor que não conseguia explicar... era mais uma dor de revolta do que de dor, como a que sentira ao ver a acção do pai...

O sono chegou. Adormeceu, mas toda a noite havia sonhado com o que vira. Um sono pesado, irreal, que a amarrava e lhe trazia à mente tudo quanto vira. E repetia-se este sono, vezes sem conta.

No dia seguinte, a mãe tentou explicar-lhe o que se passara. Manuela nem lhe deu ouvidos; sentia-se mais envergonhada do que a mãe. Havia interferido na vida deles e havia levantado a voz ao pai. Não sabia como desculpar-se. Mal acordara, tentara rezar, tentara pedir a Deus que lhe explicasse porque tal se havia passado, pedir perdão a Deus pelo que havia visto... mas não encontrara palavras para rezar aquilo que lhe fora ensinado. Tentou até mesmo improvisar e rezar à sua maneira. Em vão! O seu estado era deveras deprimente, ao ponto que nem comera todo o dia _ apenas um copo de água e com ela foi matando a fome, se é que a tinha.

Manuela receava a noite. Nesse dia, nada acontecera. Nem no outro. Dois ou três dias se passaram, nem sabia bem. Mas, inesperadamente, tudo voltou a acontecer como naquela noite terrível.

Agora era hábito o pai chegar a casa embriagado e descarregava a sua ira na mãe. Manuela nem sentia coragem para presenciar o que se estava passando. Deitava-se, cobria a cabeça com os miseráveis cobertores da sua cama, procurando tapar os ouvidos o mais possível e deste modo evitar ouvir os gritos da mãe, agredida pelo pai, que a deixava com as marcas do vício que, no dia seguinte... no outro... e no outro, apareciam sem pelo menos deixarem sarar as do dia anterior.

Manuela vivia neste inferno e, nas suas orações, ia novamente intervalando as palavras das orações com as suas próprias. Falava com Deus, julgava ela. Mas Ele nunca a ouvia.

Era noite de Natal, sabia ela por as amigas lhe terem dito, ao mesmo tempo que lhe iam dizendo o que haviam pedido ao Menino Jesus para este lhes trazer. Perguntaram-lhe o que ela pedira e ela respondera "nada". Mal sabiam elas que, a pedir ou não, receberia sempre o mesmo _ nada!

Mas, nessa noite encheu-se de coragem e, ao deitar-se, resolveu no seu pensamento ter uma conversa com Deus. Era tempo já que Ele ouvisse as suas preces. Seria uma conversa a sério, já que Manuela sentia o direito que os seus dez anos lhe davam.

Foi para o quarto e falou-Lhe. Contou-lhe tudo que se passava na sua casa. E fê-lo de tal forma que levou apenas uns escassos minutos a apresentar o seu caso. Sabia que Deus a tinha ouvido. Sabia que ele a iria ajudar e que ouviria as suas preces. E adormeceu beatificamente, nessa noite de Natal...

...Os anos passaram. Nesta noite de Natal Manuela apreciava, uma vez mais, tudo quanto se havia passado na sua vida de criança. E, como todos os anos, sentada no quarto da sua filha _ a Maria de Jesus _ recordou o que se passara nessa noite de Natal em que falara com Deus:

O pai, de tão embriagado que estava nessa noite, havia caído na valeta a caminho de casa. Batera com a cabeça na borda do ladrilho, tendo tido morte instantânea. A mãe, tuberculizada devido à vida que levava, sentiu a desgraça maior do que aquela a que estava habituada na sua casa onde imperava a violência. Não resistiu à dor e falecera uma semana depois.

Manuela fora entregue à misericórdia de umas freiras numa terra distante da sua. Aí fora educada por elas. Nunca tivera queda para seguir a vida de freira, por isso recebera toda a educação que lhe havia sido facultada, absorvendo-a com uma ansiedade e desejo de aprender que deram resultados.

De lá saiu mulher e preparada para a vida que enfrentou. Trouxera consigo muito de bom e encontrara um moço, um pouco mais velho do que ela, que a estimava e a quem contara toda a sua vida. Ele compreendera e amava-a. Haviam casado e tinham uma menina a quem puseram o nome de Maria de Jesus que era o nome da mãe da Manuela.

Agora, nesta noite de Natal _ muitos anos depois da sua vida haver modificado _ rezou, ao deitar-se, uma das suas rezas... agora pedindo a Deus que protegesse a filha, que nunca a deixasse passar pelo que ela havia passado.

Olhava a imagem em cima da cómoda, em frente da qual se ajoelhava todas as noites, rezando. Enleada, ia proferindo as suas preces à sua maneira. E teve a sensação de que algo se transformara, novamente, no seu corpo. Olhou mais atentamente a imagem. E como que ouviu Deus dizer-lhe que iria ser mãe outra vez, mas agora, um rapaz.

"Chamar-se-á José", disse Manuela em voz alta.

Olhando mais atentamente a imagem, como que lhe viu na face um sorriso de apreço... Agora sabia que Deus a ouvia!...