RAUL MESQUITA



Raul Mesquita nasceu no Porto (Sto Ildefonso), em 1941.
Estudou no Porto e em Lisboa. Esteve na guerra colonial, em Angola. Emigrou para o Canadá em 1971 tendo-se radicado em Laval, no Quebeque.
Muito activo no seio da comunidade portuguesa e na sociedade de acolhimento, entre outras actividades, pertenceu a diversos organismos comunitários, é professor de língua portuguesa, foi o fundador da revista Portucale e colabora na imprensa portuguesa de Montreal. É presentemente director-adjunto do semanário A Voz de Portugal.
Em 2005, publicou o livro No Centro do Meio, onde compilou artigos escritos ao longo de mais de trinta anos.




JORNALISMO E CONTOS DE FADAS


A ética da Tia Mariquinhas

(25/2/04)

 

            É sabido que são raros — ler raríssimos — os profissionais de jornalismo que escrevem nas páginas dos jornais comunitários. Há, isso sim, muita gente que gosta de escrever e que o vai fazendo levando para a impressora ideias, notícias, opiniões ou reportagens mais ou menos alinhavadas, modéstia à parte. Um jornal, porém, seja ele qual for e não importa em que quadrante, deve ser fiel aos acontecimentos e para isso, os seus colaboradores, os seus escribas, deverão retratá-los numa base de respeito por todos osintervenientes, certo, mas sem qualquer tipo de amigável apego ou evidência pessoal.             Modéstia àparte. De nada serve até, exagerar nos adjectivos. Que por vezes estes crescem, crescem, crescem, desmesuradamente. Ora, se um evento foi fraco, todas as pessoas que a ele assistiram o constataram e tudo quanto se possa dizer com falsos elogios,culminará no ridículo.

            Arrastando consigo a credibilidade do jornal.

            Só os fracos de espírito acreditam que modificando a realidade, contribuem ao encorajamento dos organizadores. É falso. A menos que estes últimos sejam do mesmo calibre intelectual, em nada os ajudará falsear os factos, utilizando a fórmula de nivelar por baixo.

            Ninguém quererá certamente menosprezar os esforços de tantos benévolos, que na maioria dos casos, mereceriam melhores resultados. Acontece no entanto, como diz o rifão popular “ o homem põe e Deus dispõe", que nem sempre o trabalho despendido é bem recompensado, devido a imprevistos de difícil solução, atingida então, a meta

final. Em cima da hora. Contudo, em nada saberá diminuir, a capacidade e a boa vontade daqueles que estão por detrás desses eventos. Trata-se antes, e apenas, de manifesta pouca sorte. E contra isso não há argumentos ou acções que valham.

            Onde se verifica o erro e onde poderá surgir a crítica, é naquelas "fadas milagrosas" que transformam os calhaus em ouro...Insultando a inteligência dos espectadores — de qualquer espectáculo realizado e que apesar duma boa planificação não terá conseguido sobrepor a mediania, — esses seres predestinados por não sei quais dons sobrenaturais, conseguem como por magia, falar de sucesso, de êxito e outras piruetas adjectivescas, num exagero linguístico enfático — que os próprios visados muitas vezes desaprovam. E o leitor perde o seu latim ao ler que em cada vez, em cada ano, um determinado evento foi um êxito.

            O melhor de todos os tempos, o maior de sempre, etc, etc"... Modéstia à parte. Como um parafuso sem-fim. Basta!

            Qualquer mortal, considerado normal, não poderá ter visto ou ouvido aquilo que toda uma assistência ao longo das ruas ou no interior duma sala, não descortinou. É portanto tempo de recolher as varinhas de condão e todos os abracadabra deste mundo, limitando-se a contar de modo inteligente o que se tenha realmente passado, em qualquer lado, sem as baboseiras lambujadas de espalhafatosos escribas sem arte, entalados entre os espelhos das vaidades.

            Porque isto é o tipo de ética da tia Marquinhas.

            Modéstia à parte!

            E então não serão necessários os repórteres.

            Partindo-se da ideia preconcebida de que tudo estava bem, muito bonito e bem engalanado, com as batatinhas a saltar e as saladinhas muito frescas como alfaces, faça-se um directório com textos elogiosos, modéstia à parte, preparados de avanço para cada tipo de evento, mudando-se apenas em cada ocasião os nomes dos elogiados.

            Deste modo, — à maneira da tia Marquinhas, fica tudo muito lindo! E ficam todos contentes. Por vezes até com retrato no jornal.

            E a tia Marquinhas muito bem vista por todos.

            Que isto de elogiar sem rodeios, sem vergonha, é pago na mesma moeda. E afaga egos. Dá boa imagem. Vaidosa dos agradecimentos a tia Marquinhas agita-se, ao ritmo de pinceladas à toa num quadro sem alma.

            Pois sim. Pena é que seja falso. Incongruente. E chamamos-lhe então, jornalismo de opereta. De esferográfica em riste a servir de varinha, como é da praxe, estes "maestros" da escrita amorfa nos moldes dos contos de fadas, tipo Gata Borralheira, transcendem com frequência a partitura do bom senso. Muitas oitavas acima do realismo, dão fífias em solo, numa harmonia falhada, porque com notas falseadas.

            Como nos contos de fadas.