|
|
|
RAUL MESQUITA |
Raul Mesquita nasceu no Porto (Sto Ildefonso), em 1941. JORNALISMO E CONTOS DE FADAS A
ética da Tia Mariquinhas (25/2/04) É sabido que são raros — ler
raríssimos — os profissionais de jornalismo que escrevem nas páginas dos
jornais comunitários. Há, isso sim, muita gente que gosta de escrever e que o
vai fazendo levando para a impressora ideias, notícias, opiniões ou reportagens
mais ou menos alinhavadas, modéstia à parte. Um jornal, porém, seja ele qual
for e não importa em que quadrante, deve ser fiel aos acontecimentos e para
isso, os seus colaboradores, os seus escribas, deverão retratá-los numa base de
respeito por todos osintervenientes, certo, mas sem qualquer tipo de amigável
apego ou evidência pessoal. Modéstia
àparte. De nada serve até, exagerar nos adjectivos. Que por vezes estes
crescem, crescem, crescem, desmesuradamente. Ora, se um evento foi fraco, todas
as pessoas que a ele assistiram o constataram e tudo quanto se possa dizer com
falsos elogios,culminará no ridículo. Arrastando consigo a credibilidade
do jornal. Só os fracos de espírito acreditam
que modificando a realidade, contribuem ao encorajamento dos organizadores. É
falso. A menos que estes últimos sejam do mesmo calibre intelectual, em nada os
ajudará falsear os factos, utilizando a fórmula de nivelar por baixo. Ninguém quererá certamente
menosprezar os esforços de tantos benévolos, que na maioria dos casos,
mereceriam melhores resultados. Acontece no entanto, como diz o rifão popular “
o homem põe e Deus dispõe", que nem sempre o trabalho despendido é bem
recompensado, devido a imprevistos de difícil solução, atingida então, a meta final. Em
cima da hora. Contudo, em nada saberá diminuir, a capacidade e a boa vontade
daqueles que estão por detrás desses eventos. Trata-se antes, e apenas, de
manifesta pouca sorte. E contra isso não há argumentos ou acções que valham. Onde se verifica o erro e onde
poderá surgir a crítica, é naquelas "fadas milagrosas" que
transformam os calhaus em ouro...Insultando a inteligência dos espectadores —
de qualquer espectáculo realizado e que apesar duma boa planificação não terá
conseguido sobrepor a mediania, — esses seres predestinados por não sei quais
dons sobrenaturais, conseguem como por magia, falar de sucesso, de êxito e
outras piruetas adjectivescas, num exagero linguístico enfático — que os próprios
visados muitas vezes desaprovam. E o leitor perde o seu latim ao ler que em
cada vez, em cada ano, um determinado evento foi um êxito. O melhor de todos os tempos, o maior
de sempre, etc, etc"... Modéstia à parte. Como um parafuso sem-fim. Basta! Qualquer mortal, considerado normal,
não poderá ter visto ou ouvido aquilo que toda uma assistência ao longo das
ruas ou no interior duma sala, não descortinou. É portanto tempo de recolher as
varinhas de condão e todos os abracadabra deste mundo, limitando-se a contar de
modo inteligente o que se tenha realmente passado, em qualquer lado, sem as
baboseiras lambujadas de espalhafatosos escribas sem arte, entalados entre os
espelhos das vaidades. Porque isto é o tipo de ética da tia
Marquinhas. Modéstia
à parte! E então não serão necessários os
repórteres. Partindo-se da ideia preconcebida de
que tudo estava bem, muito bonito e bem engalanado, com as batatinhas a saltar
e as saladinhas muito frescas como alfaces, faça-se um directório com textos elogiosos,
modéstia à parte, preparados de avanço para cada tipo de evento, mudando-se apenas
em cada ocasião os nomes dos elogiados. Deste modo, — à maneira da tia
Marquinhas, fica tudo muito lindo! E ficam todos contentes. Por vezes até com
retrato no jornal. E a tia Marquinhas muito bem vista
por todos. Que isto de elogiar sem rodeios, sem
vergonha, é pago na mesma moeda. E afaga egos. Dá boa imagem. Vaidosa dos
agradecimentos a tia Marquinhas agita-se,
ao ritmo de pinceladas à toa num quadro sem alma. Pois sim. Pena é que seja falso.
Incongruente. E chamamos-lhe então, jornalismo de opereta. De esferográfica em
riste a servir de varinha, como é da praxe, estes "maestros" da
escrita amorfa nos moldes dos contos de fadas, tipo Gata Borralheira, transcendem
com frequência a partitura do bom senso. Muitas oitavas acima do realismo, dão
fífias em solo, numa harmonia falhada, porque com notas falseadas. Como nos contos de fadas. |