AIDA BAPTISTA
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As cambalhotas de um hífen |
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Não me lembro do dia em que nasci. Só sei que, mal pus um pé na porta entreaberta do Mundo, me deram um presente muito estranho – um hífen. Sim, um hífen que eu próprio não sabia para que servia. Comecei a gatinhar e o hífen nunca me empecilhou os joelhos que se arrastavam ao ritmo das coisas que eu queria agarrar. Pus-me de pé e, a cambalear, dei os primeiros passos. Também então, nunca senti que o hífen se enrodilhasse por entre as minhas pernas sedentas de mundo por palmilhar. Balbuciei as primeiras palavras acariciadas por uma avó, que me guardava enquanto os meus pais iam trabalhar, e nunca me dei conta de que o hífen fosse um estorvo. Ficávamos tardes inteiras à sombra do Acer num jardim limitado por uma cerca a ver brincar meninos que falavam a língua doutros avós. Eu, sem saber, revolvia as folhas do chão que me havia de talhar uma outra bandeira e uma nova identidade. |
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Percebi pouco do que disseram, mas algumas frases ficaram-me sublinhadas na memória. Falavam de um país grave, acentuado pelo circunflexo da vergonha por falta de uma cedilha de liberdade. E apontavam-me o futuro com um grande ponto de exclamação. Eu não sabia o que era o futuro, mas comecei a acreditar que a minha doença passaria com o tempo, o tempo futuro. Mas eu vivia um presente envenenado, com um imperfeito inacabado em que só me ocorriam frases no condicional: se eu fosse canadiano... E fazia tentativas para conhecer o outro lado do hífen. Mas de cada vez que eu ousava saltá-lo, os meus pais enegreciam o itálico da minha atitude, obrigando-me a viver entre os parêntesis das missas, das procissões, das festas, do folclore e ainda daqueles beijos repenicados com que as parentes afastadas me lambuzavam por entre chavetas de abraços apertados. Eu queria arrancar aquele hífen da minha vida, que me obrigava a comer as sandes na casa de banho, às escondidas, para que os outros meninos se não rissem das algemas de chouriço que ditavam a minha prisão. Cheguei a não comer para que o cheiro da minha merenda me não denunciasse a origem. E na fome do desespero eu calava o hífen da diferença. Tentava engoli-lo, mas ele ficava preso na garganta onde tudo dói mais porque faz saltar as lágrimas da revolta. Assim ultrapassei a curva ascendente do til da minha adolescência, continuando sempre a querer esconder o meu hífen de forma a que, pouco a pouco, ninguém desse por ele. Mas era escusado: ficara-me gravado na pele para que eu soubesse sempre a que rebanho pertencia. Conheci, então, muitos outros jovens com a mesma doença. Começámos a falar sobre o tema, a deitar cá para fora todas as rasuras das dores que tínhamos acumulado num passado de rascunhos e, concluímos que, afinal, estávamos em maioria. Outros meninos tinham recebido o mesmo presente, diferente do meu, mas provocava os mesmos sintomas. Hoje, já adulto, reconciliei-me com o meu hífen e percebo a utilidade que teve na grafia deste texto inacabado que é a minha vida. Quem tem um hífen é muito mais rico, vive com duas metades onde vai buscar o melhor de cada uma delas. Quando recordo a minha infância, tenho pena de não ter sabido usar melhor o meu. Tal como no jogo da macaca, eu poderia ter saltado de um para o outro lado do hífen, com a mesma destreza com que hoje o faço. Perdi algum tempo, mas ganhei a longa batalha da modulação de uma nova identidade. Sou um luso-canadiano – a geração hifenizada – muito orgulhoso do meu hífen na lapela do país onde vivo. Reconheço agora que um hífen não é uma fronteira — é um traço de união, uma ponte que abraça dois mundos, o parapeito de uma janela aberta para dois universos diferentes, que eu poderei escolher ou fundir, conforme a posição em que projectar o meu olhar na linha de horizonte do futuro. | |