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ANTERO DE QUENTAL EM HALIFAX |
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Como Bulhão Pato, seu companheiro de viagem, descreve a passagem de Antero de Quental por Halifax, em Julho de 1869.
A viagem para Halifax foi boa e mansa, mas ainda assim Antero sofreu
muito, porque se lhe repetia o enjoo sempre que o balanço crescia ou variava. Deitado
é que tinha algumas horas de alívio e tomava uns caldos, ou qualquer outra
coisa de fácil ingestão. Estes intervalos de descanso aproveitava-os ele na leitura. Não me
recordo se lia o Vico, como V. pensa, mas Hegel sei que ainda lia, talvez
como ginástica do espírito. Como eu, ao tempo, tivesse vontade de estudar alemão e tivesse a bordo
os livros para esse fim, Antero preferiu este género de trabalho e começou com
tal vontade que, mesmo quando enjoado, lá ia tirando o seu significado, ou estudando
os malditos casos daquela gramática. E com tanto proveito o fez, que já na
viagem de regresso à Europa veio lendo Goëthe no original e não me lembro quem
mais que tinha comprado em New York. A demora em Halifax foi curta, de uns quinze dias e pudemos dar alguns
passeios nos arredores e aproveitar alguns dias de animação, que aquela cidade
sorumbática teve com a visita do príncipe de Gales.
Lembro-me de um concerto ao ar livre, num lindo parque, de cinco mil
vozes – assim dizia o anúncio – e que foi um fiasco enorme, um charivari medonho!
Antero ria como doido. Aqui se restabeleceu um pouco das fadigas da primeira
viagem e, como de Halifax a New York tivéssemos uma viagem sem balanço, chegou
a este ponto com mais vigor. Já Eça de Queirós, no
texto "Um génio que era um santo", publicado no volume In Memoriam, dedicado a Antero, revela que Antero lhe falava com ternura de Halifax: "E aí, num domingo, tem uma visão que nunca esquece, a duma cidade puritana (Halifax ou Lunenberg), silenciosa, como adormecida no Senhor, toda de tijolo cor-de-rosa sob um céu cor de pérola, com fundas avenidas mais pensativas que as dos Elíseos onde os namorados passeiam, numa mudez de sombras. De dedos enlaçados, de pálpebras baixas, respirando sem outro desejo a flor da sua emoção. Quantas vezes Antero me contava dessa piedosa e suave cidade, e do longo apetite que ela repentinamente lhe dera de quietação eterna!"
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