|
"Aonde as fragas dão pão E a água de muitas fontes É de prata no verão." A sua condição humilde parecia condená-lo à secular servidão de, com o suor do rosto, arrancar à terra mãe-madrasta o magro pão da sobrevivência mas o destino, que faz e desfaz vidas, traçara-lhe outro caminho, diferente sina. Em dia de todas as promessas, um grito telúrico, quase choro, quase prece, arrancado das entranhas, rasgou o peito da criança, elevou-se do amontoado granítico do casario e abriu caminho, por entre urzes e fragas, até ao alto da serra. "Deixai-me subir nas nuvens, voar Nas asas do sonho, da imaginação." Impelido por forças inelutáveis, cedo quebrou amarras e partiu, NAS ASAS DO VENTO, ao encontro do mundo que rumorejava , irresistível , para além dos montes. "Parti sozinho Disse adeus àquela serra, Àquela serra tão linda Mais ao lar onde eu nasci. Foi em Setúbal, a princesa do Sado, deslumbrado pela beleza luxuriante da Arrábida e das praias douradas sem fim, que, inevitavelmente, a poesia, essa fiel companheira de tantas horas, lhe foi bater às portas da alma. Também por lá saboreou o encanto dos primeiros idílios, das melhores amizades e da mais nobre solidariedade. Mas, como escreveu mais tarde, "tudo é uma meta e uma partida." Inesperadamente, a febre da errância, essa (in)felicidade da alma lusíada, envenenou-lhe o sangue. "Quero correr a rota mais difusa, Viajar, conhecer um mundo novo." O já longínquo, mas tão vivo na memória, ano de 1982 viu-o chegar a Montreal. Trazia uma mala carregada de sonhos, na mão uma viola para afugentar as horas de solidão e uma vontade imensa de "falar a todo o mundo do seu povo, da sua gente, a sua terra, Portugal." De permeio com o labutar quotidiano desta "vida emigramada", como lhe chamou outro poeta da diáspora, Fernando André, "entre dois mundos dividido", sente-se, por vezes "emudecido pela saudade, perdido entre outras raças, outras línguas…confusão", alimenta a memória dos espaços míticos da infância e da juventude, sonha com a miragem do regresso, esse bálsamo para tantas mágoas e ausências. Mas foi também nestas terras, onde, passo a passo, lhe cresceram raízes insuspeitadas e envolventes, que encontrou o amor, a serenidade, a maturidade e a inspiração para nos presentear com este precioso livro onde, com destreza de alquimista das palavras, soube cristalizar, sem transigências nem renúncias, a essência dos valores mais profundos da vida. Porque, para o Fernando André o exercício poético nunca se esgotará no alinhar de áridas figuras de estilo ou no cerzir de estéreis florilégios, antes pelo contrário, será sempre perseverante busca da verdade e aprumado culto da dádiva, da partilha e da intervenção social. Precisando: para o Fernando André, a poesia é aguçado lápis com que deita atentas contas à vida; rede que lança ao mar profundo das emoções; paleta onde mistura as cores do sonho; foice com que ceifa a seara farta da fraternidade; arma que empunha na luta por um mundo melhor; cinzel com que esculpe o rosto, sempre renovado, do Amor, pois cedo compreendeu que, como o disse Gabriel Garcia Marquez "não deixamos de Amar quando envelhecemos, envelhecemos quando deixamos de Amar". Manuel Carvalho (Prefácio do livro de poesia "Nas Asas do Vento", de Fernando André, cujo lançamento decorreu no dia 18 de Novembro de 2000, em Montreal. Fernando André é natural da aldeia do Castedo, Moncorvo, e reside em Montreal há cerca de 20 anos.)
|