Escrevivências
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IDALINA |
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M ulher esguia, lenço negro amarrado à nuca, ainda jovem, rosto moreno, tisnado, lavrado de sol e vento, enxada ao ombro, ligeirinha, subindo os íngremes carreiros ladeados de erva e silvedos com cabecinhas de macela, a sorver o viço das levadas De poesia, havia o cantarolar da água, sussurrando nas pedras que a vida era dura que nem lajedo e, a Idalina, descalça, carregava ao ombro a cruz de sua enxada. Ao longe, de um curral assolapado num socalco da serra, a cortar o ar silente, inebriado de pasmaceira, pairava o inocente balido de cordeiro e o rio, no fundo do vale, salmodiava cânticos de ternura por entre fraguedos, ecoando poesia, por todos os recantos, menos no coração da Idalina. Jovem ainda, acenara-lhe um brasileiro, semi-falido, entradote nos anos, recomendado por um primo que, naquele tempo, um casório acastoava-se perfeitamente num aconchego de uns alqueires maneirinhos, duas vacas, meia dúzia de sobreiros e uma salgadeira. A vidinha desenrolava-se na harmonia de um viver contrito de pão e vinho, um naco de toucinho, alguma sardinha, embrulhada em folhas de vinha, apregoada em foguetes e, o amor, era, tantíssimas vezes, um arranjo acasalado no desejo de uma vivência menos tormentosa. A Idalina mourejava, erguia sua enxada, cavava fundo seu fadário e deixara-se engravidar, dorida, resignada e tristonha. Nunca se lhe conhecera largo sorriso. Sua expressão natural e predilecta, ao menor reparo ou invectiva, saltitava-lhe num tom enjoado e macambúzio: "Boca, diabo , boca " O homem deixara no Brasil o suor da juventude, nas estivas, amanhara duas courelas que lhe valeriam o coração da Idalina e, com santifica resignação, fazia seu cigarro, com uma ternura tão pacificada que eu adorava dar-lhe uma carteira de "Provisórios", só para ver-lhe os olhos saltitar de encanto. Resignado, calcorreava serranias a dar dias, decepando pinheirais e eucaliptos. Nunca se lhe ouvira palavra de exasperação, raiva ou desespero. Era um homem, a um tempo, granítico e adocicado. Sabia-se que a mulher, jovem e aguerrida nas lides da terra, não lhe gabava a bonomia e, um dia, dera em beber desalmadamente. Ninguém se afadigava em saber porquê, para além da lástima em surdina proclamada. Na aldeia, todos notavam entredentes, com ar trocista, que a Idalina se referia ao marido sempre num "ele", acre, distante e desdenhoso. Não se sabia exactamente quanto desdém cabia naquela terceira pessoa, presumia-se, sabia-se, que era um abismo a distância afectuosa a cindi-los em duas almas distintíssimas, sem possível ponte erógena. A Idalina dava tardes, erguia sua enxada, tão alto qual homem em penedios talhado, sachava milhos e feijões seu corpo esguio, lenço negro com atadura na nuca subia os carreiros alcantilados da serra, com tábua à cabeça carregadinha de rolos de eucalipto, com os olhos mortiços, presume-se, de uma paixão soterrada na alma. Morreu a Idalina. Cumpriu seu tempo, foi a enterrar, sem os fulgores deíficos de uma paixão cumprida, como porventura a sonhara no zénite da juventude. Que ninguém me não diga talvez nem ela própria o soubesse que as orgias de Baco não tivessem sido a forma, mais à mão, de festejar a ausência do amor que o destino não ousara outorgar-lhe. Desceu à terra, um coração indecifrado. Será justo dizer-se que os mistérios da vida e o desejo da felicidade incumprida na terra, a sobrelevem e, talvez , sejam apenas decifráveis no Além? Que Deus te conceda todas as venturas que a terra agreste e o amor te não consentiram. Haja perdão. Eu, por me haveres surripiado, na morte, um naco da infância. Tu, por eu ter, infantilmente, rido de ti, minha amiga humilde e chã como a pureza da terra por nunca ter sabido compadecer-me da tua dor, em vinho vertida. Que ninguém sabe ao certo, Idalina, o desejo de ternura por acontecer que cada qual encerra no
silente recolhimento de suas ignotas vidas.
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