BARBOSA TAVARES

Escrevivências


O azeite do emigrante



S empre me conpungiu ver gente de mala , em atilhos cingida, apinhada no aeroporto de olhos lacrimejantes e abraços entrelaçados de saudade.

Humildes, tal a própria condicão vivem a pátria na ausência do estertor dos foguetes, do ressoar da alegria das romarias, das colchas a esmero debruadas, do junco e do jarro que ainda perfumam os tempos de uma juventude a prumo cortada pela promessa da abundância nas fartas terras da América.

Era um emigrante com duas espalmadas vasilhas de azeite e uma mala vagamunda. Logo me acorreram as oliveiras da nossa proveniência, o venerado fiel amigo, o transportável da gastronomia de um país sobre o inamovível da alma que em nós ficou aprisionada na horta genética.

Para ser fiel ao espírito, um emigrante, deveria carrear consigo para a estranja um ror de coisas, entre as quais: um adufe, alguns foguetes, uma concertina, o verde dos campos, a cor-telha do casario, o campanário da igreja, o coreto, a ancestralidade dos espigueiros (canastros na minha aldeia de nascença) um pedaço de areia , maresia e rostos-sobretudo os rostos-que povoaram o imaginário da imaculada infância.

A gastronomia , na sua função de embaixatriz do vértice estomacal pátrio, e muitíssimo mais portátil que a vibração telúrica de um país, memória dos tempos arquivados que reemergem sedentos do espírito do lugar e das gentes, a qualquer instante, em forma de contristada saudade.

Que terá pensado o diligente alfandegário canadiano, ao ver este vasilhame de azeite, que o emigrante ,afanosamente carreava com o desvelo de quem ama bacalhau? Estranha, esta gente que abdica por força inglória do destino do seu mundo , carregando-o, integro,. no bojo da alma, com absoluta fidelidade, de quem nunca traiu o genésico canteiro, traindo-se forçada, , ou assim o ditou o destino do pão em terra madrasta.

Ah.. Mas as romarias, os foguetes, as colchas pendentes, os músicos aprumados, aspergindo no ar a devoção musical ao Santo, o misticismo do pálio, o Senhor Prior, beatífico, os mil aromas de um país e os rostos-sobretudo os da infância-que nos dizem da nossa história vivencial, as almas renegadas na promissão da redentora pataca que nada redime. Ai amigo emigrado, que o tempo ninguém no-lo devolve-tempo na estranja esvaido e tempo sepulto por viver-e nem o Luso destino nos perdoará os sofridos dias exilados,

Valha-nos o azeite do nosso contentamento, para abreviar a patrial nostalgia. Temos da azeitona uma afinidade. Triturados no alambique da saudade, em nome do mal aventurado e expatriado pé-de-meia, extraimos do azeite o luzeiro com que , ilusoriamente , alumiamos o caminho do regresso,

Tragédia-porventura a maior-e, compreender, nos confins do espírito. que nenhum exílio salda a mágoa da saudade, neste sentir da vida a derramar-se em ilusão a ouro debruada,