BARBOSA TAVARES

Escrevivências


Memórias do meu país



A inda em Portugal. Alguém bate com a aldraba. São três pancadas retinidas no arcaico portâo, anunciando rosto vizinho.

Sons que se acatam, tais afagos, e têm o condão do retorno, numa viagem nostálgica, ao tempo de infância.

Sabe-se, inelutàvelmente, que é gente de paz. Uma mulher de tamancos, lenço negro atado sobre a nuca, avental afarinhado e uma verruga no centro do queixo, com três pelos eriçados, viera saber se o emigrado trouxera novas de uma afilhada que habita agora os fartos sonhos das Américas e, no intervalo da amassadura, aproveita com desvelo, para ladainhar as comadrices da vida alheia.

No largo, a miudagem, joga a bola e, salpica a manhã de alaridos que desembocam nas míticas raizes da meninice. Uma levíssima brisa, adocicada pelo sol, sopra em jeito de cantata. O canavial compraz-se. Sobre os pinheiros ondulam carícias de vento. A terra tem o sabor perfeito da harmonia reencontrada. O céu pintalgado de azul-tinta, aporta o sentir da saudade recrudescida, de onde me revejo, longínquo-presente, a reviver este cenário.

Regressado que sou, por brevíssimos dias, ainda me atormentam os garrotes da saudade vivida nos anos além-mar, padecer de um emigrante na distância compungido, fonemas estranhos, mal digeridos, gente diversa que faz da luta do pão abundante todo o seu norte, que nunca compreenderá a metafísica de uma azenha de Vale de Ílhavo, um rosto tisnado, gretado, por mil sóis, mãos talhadas na terra, com chuva e vento, imagem pacificada dos aldeões do meu país, de alma suave na agrura do pão de cada dia… ai de mim !.. como vos sinto a ausência...

Viva na memória , uma carroça, atafulhada de erva, a gotejar o viço das águas das vessadas, o cântico de um ribeiro debruado entre amoras, ervas silvestres e canaviais, ainda a contemplação de um pedaço de brancura , deslizante, a bolinar por entre o remanso das águas da ria, falo-vos , claro, de um moliceiro, essa imagem dulcificante, suavíssima, tal serenidade de vela enfunada, entre vento fagueiro e caprichos de luz, aspergidos na ria, ainda fundeada na memória.

Uma velha embiocada num xaile negro, negro, negro, que resguardou gerações, carrega com sua negrura todos os lutos da vida , havidos e por haver . Logo me revejo miúdo, a ser lambiscado por minha avó, beijoqueira e desdentada.

Eu, consternado e mimado, a suportar bafientas carícias que hoje retinem na alma, tais gestos pristinos de amor, com o sentir ensombrado de não lhe haver reconhecido o gesto, no exacto momento.

No alpendre, um cesto velho a desvencilhar-se , forrado a trapos, repousa sobre um carro de bois semi-abandonado, albergando uma ninhada de gatos, a gemicar em tropelias , na busca do leito materno.

Os pássaros cantarolam sem pausas e orquestram-nos o desejo de ser feliz. A vinha com seus ramos enegrecidos, desnuda, renova a seiva neste sol quase primaveril.

A terra, pletórica, delicia-se em auríferos banhos de ígnea luz. Onde estará a exaltação deste cenário? Possivelmente, numa reminiscência de amor, ou no clamoroso desejo do regresso definitivo às raízes.

Viver a felicidade das coisas que nos eram insignificantes, comparadas com o glorioso pé de meia que haverá(?) de garantir velhice opulenta. Entretanto os anos sepultaram o sonho sobre o qual se erigiu a ilusão, hoje a desmoronar-se na hipotética felicidade nas terras da América. Nem pé de meia que baste--não há matéria que saceie quem do espírito da terra carece-- e, a velhice, não cessa de crescer e encredulecer a esperança no regresso. Um dia....olhai, sem artifícios , nos olhos da Parca, essa deusa inexorável e impiedosa, a quem tanto apraz o luto. Um dia!... não haverá dia,

Ílhavo encerra a história das pessoas e dos recantos que esculpiram na alma todo o imaginário da infância, lugares por onde saltitei de alegria: o arco , o peão a carrela, o irrecuperável viver da infância. Bastará para que a alma se tenha grudado no espírito de lugar ,nas mais límpidas e inocentes memórias que aportam o reencontro da alegre inocência, agora, desoladamente, apenas repetível na memória.

Quando evoco o bater das trindades, revejo andorinhas rasantes, a tarde recolhida num transe de absoluta pacificação, minha mãe, ternurenta de Avé-Marias, o rosto recortado num perfil suavíssimo , enquanto eu levitava no ressoar brônzeo das badaladas do sino que inundava a sala de mística suavidade crepusculina.

Na cozinha: batatinhas novas, favas e nicos de toucinho frito, cebola estrujida, boroa (seria do Rito ou Durão ) uma bilha sobre toalha de linho Pela janela entrava uma luz, branda e macia , tal crepúsculo dulcificado. Tudo tão pleno de serenidade, um catecismo sobre o cómoda do guarda-louça. enquanto eu vogava nas imagens de arcanjos e santos que resplandeciam toda a doçura paridisiaca-- posssivel e imaginada—nas piedosas lições da catequista.

***

Rogo aos peritos no idioma de Shakespear que me sugiram como haverei de traduzir em Inglês : Malhada, Barquinha, Vale de Ílhavo (padas e azenhas), Senhora das Dores, jogos da malha, Senhor Jesus dos Navegantes, Senhora do Pranto, Sete-Carris, mastro, ao alto, com bacalhaus no confim -- sebo na tortura de lhe chegar ao topo---coretos e ranchos, Sâo João da Ponte, que estas são algumas das milhentas expressões de ser de um povo, das quais não desfruto, neste exilado "reino emigrado" onde amargamente se trocou a realidade de um viver pleno da alma, por duas famigeradas patacas, que o tempo, meu caro, nâo se compadece de quem trocou a vida por uma fatia de pão mais avantajada.

***

De forma que me recolho silente—eu e minha saudade-- a escutar na voz do Leonel Garrido, na letra do Prof. Guilhermino que conheci--personalidade integérrima e apaixonada do nosso Ílhavo-- e comovo-me até às lágrimas. Recolhi o CD. Escuto-o em momento de muita brandura do espírito ou, quando a alma se me afigura inexpugnável ao sentimento que a música plangente, na distância da nossa terra, infunde.

Um emigrante sabe, como ninguém, reconstruir esperanças sobre o tempo exaurido da

luta , para se resgatar dos pardos dias na aventura dorida e erguer sobre as ruínas do

 

tempo esvaído ,a ilusão de que a vida há-de recomeçar no tempo mítico da juventude, na idealização de um tempo irrepetível, lá na aldeia ou vilória do encantamento.

Um homem que não soube exigir a côdea da sobrevivência na terra natal, com que desplante a exigiria na pátria-hóspede? Razão, porque ser expatriado é ser-se verdadeiramente artista na arte de atabafar as mágoas com que haverá(?) de vingar, um dia, no canteirinho genésico, sob a forma de um glorioso placete, as vísceras dos que não ousaram conquistar na estranja o símbolo indestrutível da nova aristocracia erguida sobre incontáveis saudades, argamassada em infindáveis neves e solidão, por entre línguas com arestas que polvilharam o martírio a celebrar um dia ( quantos o celebrarão?) na lusa terra.

Eis o palaciano sonho, erecto, sobre as ruínas do corpo e inenarráveis tormentos do espirito, no término da vida "emigrandada" peregrinada, por ente línguas que nada dizem para além deste viver esquinado, entre dois mundos, aguardando o resgate que tende a consumar-se no entrelace do nosso barro com o barro alheio.



Epílogo

Quantos de nós , interrogam a vida no gume da alma, em busca de saber porque existimos? Vulgarmente, pensa-se que a vida radica simplesmente no acto de viver ,sendo-se feliz, no acto de existir, sem mais. Felizes dos que não necessiam sê-lo, Ao homem não lhe bastam as magras doçuras de seus dias na terra. Aspira à Eternidade e este desejo salvifico, ser-lhe-á conferido na crença. Mas, o barro da nossa condição constantemente nos trai, ainda que alma peleje entre a dúvida, crença e constrição . Certezas absolutas !, Só as tem o Altíssimo.

Os santos --que ninguém sabe ao certo--se escolheram a santidade ou foram por ela escolhidos, dilaceraram-se, até as entranhas da alma, na torturante tensâo de viver o humano e aspirar o Divino, na aventura árida e pedregosa de imitar Deus, tarefa que não recai, para nosso bem, sobre as asas de qualquer alma.

A vida encerra catadupas de mistérios que nunca serão revelados na face da terra, nem mesmo aos que, sem uma vírgula de dúvida, piamente acreditam. Felizes, serão, os contempladores do Sol, da Terra, do Mar, aqueles que renunciam às insignificantes mixórdias da vida e, acreditam que, a beleza do mundo , é, apenas, a ponta do véu que anuncia o mistério absoluto, a desvendar no encontro com a magnífica luz reveladora de todos os mistérios.

Pergunta-te? Porque tiveste de rasgar o ventre de tua mãe? Por um acto de amor que te foi tão alheio como a ausência do teu próprio desejo de surgir no mundo. Indubitàvelmente, uma vida não reside apenas no próprio querer, será um barquinho cujo leme terá sido confiado, para navegares uma fracção da eternidade, contudo—para te poupar a angústia da neurose-- ao porfiares alterar , com belíssimas intenções, o que não pode ser modificado, convém não olvidar que, nem as ondas, nem o vento, nem o mar, estarão à tua mercê, tal como desejarias. Onde o teu querer é aniquilado, nulo, por nada poder, aí, sim-- magistralmente-- existe Deus.