Escrevivências
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Portões da Eternidade |
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C ai a tarde. Interrogações: mil. Dúvidas: outras tantas. Cada interrogação precede uma dúvida. Tenho sede de me saber, para além deste casulo de vida, desta luz suavemente mortiça, neste dia habitado por nostálgicas inquietações. Nâo basta esta exígua serenidade, um fio de vento tiritando nas folhas, as árvores a depenarem-se , as nuvens , plúmbeas, acasteladas no horizonte de um tempo, doridamente especado. Não fosse a inquietude de me saber neste mistério indecifrado de viver - esta dissonância do finito com o desejo de infinito - a tarde seria perfeita, se a não toldassem as minhas obtusas e ensimesmadas questionações. Perscrutar as labirínticas teias da condição humana, o visível do invisível. Crer, ou recriar um deus para afagar esta crispação de não saber da vida mais que a aridez do momento, dispor da certeza que nenhuma desolação ou agonia do homem, perante o seu destino último na terra, exista em vão. A natureza, por enigmática e belíssima, não decifra nenhum dos seus encantos, ergue perplexidades sobre a ideia do belo, na amplidão desta dissonância. Uma crença , na realidade, é tudo para quem crê, e, no entanto, pouco mais representa que uma possibilidade pressentida , ardentemente desejada. Sabe-se que na ausência da realidade, o desejo se faz sonho para ser, ainda que ilusoriamente, o real possível.
Não basta a crença para responder à vastidão da alma no pedregoso percurso da aridez não desejada, e no entanto!… Dizei-me: que outros utensílios disponho para penetrar neste emaranhado de vidas, sepultas, sobre esta pedras tumulares onde repousam cravos à sombra de anjos, virgens de pedra, e jarros de flores, numa tentantiva vã dos viventes, em desvanecer a ideia trágica do eterno olvídio. Sabemos que uma vida feliz não carece de explicações, que a alegria senta-se à mesa com os deuses, que as mágoas são por estes indesejáveis e ninguém admira os suplicantes. Há quem afirme que a autêntica grandeza do homem reside na sua própria solidão, mas não sei de outro sentimento que tanto apequene o sopro da consciência , como a ideia da finitude, perante a vastidão incognoscível de outros universos. Ah!..Mas esta noção exactíssima , esta revoada solar que se ergue na alma a esvoaçar a medida do tempo transcorrido? Acaso, carecemos desta badalada na alma a tilintar a brevidade dos dias? Eu adoraria saber porque artes e tormentos nos foi inculcado esta misteriosa sombra.
Ver o tempo escorrer, desabrido, sentir o fluir deste dia, a três quartos esvaído, que nada trouxe de novo senão a percepção dilacerante da vida exaurida, a mágoa indestronável de saber que a fronteira entre a vida e a morte jaz sobre a prericlitanta ideia: ser , não ser. Imaginar a sabedoria do tempo que sabe, eximìamente, esculpir na mente a ideia de brevidade, e tudo aniquila sem apelo nem agravo, em absoluta despiedade . Teremos nascido para um destino de esquecimento? Somos um minúsculo universo de memórias e afectos e, no entanto, uma vida por mais gloriosa ou torturada, resume-se perfeitamente em duas lacónicas datas. Muitíssimo pouco para quem tem sede de infinito. Amar, amar, para a vida ser eterna (ou parecê-lo), ou será apenas o nosso desejo de eternizar a doçura do belo, para nele extinguirmos as algemas do tempo que nos amarram à terra.e não permite extravasar as veredas do tempo-terra. A propósito, o que será o tempo? Para além do espaço-vida em que nos consumimos a tentar erguer e reerguer andaimes de felicidade testemunhando os capitéus sempre inacabados da nosa imperfeição. Admiro piamente, todos os artifícios da esperança com que a cada manhã renovamos os dias , sobre os escombros do tempo dizimado. Olhar o tempo esvaído, e nem sequer lhe poder contrapor um gesto de amor, na verdade,um homem dorido nem sequer sabe amar, vive para a mágoa , e nem sequer ousa cercear-lhe as raízes, porque as sombras da amargura resistem a todas as fontes da luz . Não há sol que saiba dizimar uma mágoa autêntica. Quem terá dito que nascemos para a felicidade? Se existe a dor, a descompaixão, a morte, e as sombras das amarguras se encastoam e trepam na alma como eras em musgos ensombrados de silêncio. À terra tudo haverá de recolher, a não ser que num sonho eterno, após a ela descidos o sonho-desejo-ardente se evole num feixe de luz e transmigre numa noite luarenta rumo a uma sarça ardente de imorredoura luz, para a qual teríamos sido arquitectados. Na magia do sono-sonho-eterno oxalá exista guarida para salvíficas crenças. Noite, espaço predilecto para interrogar o firmamento, a voz que ordenou as estrelas, e faz percorrer a alma nestre frémito de angústia de sabermos a nossa exactíssima finitude.
Único refúgio das dúvidas:o sonho. Bela a noite, crispada a noite. Dilecta a noite, lúgrube a noite. Mistério, a noite, sem resposta que não sejam as mãos, as veias ,onde o sangue crepita nesta inquietude. Deve haver um Deus, para a ideia das mãos, do sangue extasiado, do desejo incandescente de amar, do rosto de uma mulher que se nos afigura belo tal uma deusa, assim como a santidade com que sabemos acariciar angélicamene as mãos amadas. Noite, Tempo ideal e excruciante para nos inquirirmos sobre um fôlego de vida que sabe extasiar-ne no mistério, sem dele saber a origem. O silêncio na negrura da noite, tem o belo efeito de nos diluir os artifícios e reduzir a vida a este ténue fio por onde perpassa e se esvai a perecível consciência de ser. Ser na noite, na absoluta interrogação, é ser-se este sopro do sentir, este fio de ser, e será tudo o que da vida possuímos; a fugaz brevidade da fonte do sentir, passível de fenecer a qualquer instante. Talvez amar seja a única foram de sermos grandes, sendo minúsculos. Somos o barro sobre o qual erigimos deíficos sonhos. A distância ente o barro e o Divino é tormentosa--caminhada entre a condição humana o desejo de perfeição-- pejada de quedas, a evidenciar a fragilidade do pó em que laborados fomos. Desejaríamos superar a nossa própria condição, para isto ,existem os que apodamos de santos e sabem mortificar a carne e divinizar os desejos . Com umas gotas de divindade, haveremos de transpor o oceano do nosso humano barro, quanto mais não seja no desejo, acrisolado de ascender ao Eterno.
O Divino, sendo perfeito, será pela sua condição, excruciante na sua execução sobre a terra, A dor diviniza e, no entanto, ninguém a deseja. A mágoa também será apanágio da Divindade, porque, perante a falibilidade do homem, Deus, dizem, permitiu-se a humana e incomprensível glória de sofrer. Saberá Deus, porque pejou a vida na noite de mistérios infindos,e não permitiu uma única fresta que não seja a crença, para espreitarmos pelos portões da pressentida e/ou desejada Eternidade. Felizes aqueles que sabem viver como se os portões da Eternidade, permanceçam entreabertos a aguardar o último exalo, para que finalmente, de par em par, se rasguem todos os veús das dúvidas e mistérios que nos circudam ,extintas, num imorredoiro eflúvio de luz. Mais felizes ainda, os que enxergam nítida, preclaramente, com a presciência da crença e fé graníticas que nos portões da Eternidade, sob os umbrais de uma presença inefável,sereníssima e eterna , os aguarda o Deus que na terra lhes habitou a alma .
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