Escrevivências
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A PÁTRIA E O PÃO |
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A expressão de Camilo Jose Cela: " a pátria é o lugar onde se come" radicalizando a sagacidade de um estado sibilino de revolta, subestima ou relega a dimensão anímico-espiritual que liga um indivíduo ao lugar genésico, para um plano terciário, senão de pura nulidade. Ora, quem sorveu o leite linguístico e as mil incidências culturais que talham um homem, adentro da sua mundividência própria, sabe que não se despe a camisa pátria com o mesmo desdém e sem cerimónia com que se despoja arcaica fatiota. Sabemos que. uma vez inculcados os valores de raíz sócio-cultural-histórica num indivíduo, eles (valores), serão em larga medida fautores da personalidade. Daí se explica que comunidades emigradas, há dezenas de anos, conservem, com afã e denodo, o essencial das suas tradições que vão da língua a todas as outras peculiaridades intrínsecas da expressão cultural de um povo. Mais: é na estranja que os valores da portugalidade ou hispanidade-- no caso do célebre Nobel e autor de expressões bárbaras e desgarradas--tendem a manter-se íntegras (ou quase) sobretudo entre os emigrados adultos, exactamente porque o confronto com outras culturas, reacende e acentua na personalidade a sua autenticidade cultural e o consequente desejo, por vezes subconsciente, de permanecer fiel às raízes vivenciais, no leito pátrio absorvidas. Por isso, nos parece que a expressão de Cela, longe de exprimir a relação pátria-pão é redutora ao ponto de aniquilar a substancia imaterial pátria-espírito no homem emigrado , ao reduzi-lo ao mero aspecto sobrevivencial, lançando à fogueira a matriz fundamental de uma cultura e o seu travejamento na formação de uma personalidade distinta que veicula tradições internalizadas de séculos. Se é exacta a afirmação que o homem não sobrevirá sem pão, não menos exacto e prudente, seria recorrer à consabida e milenária expressão biblica de que nem só de pão viverá o homem, O drama reside neste acto aparentemente simplicista, mas profundamente complexo, expresso na transposição geográfica de fronteiras e o dramatismo configurado num emigrante, ao apartar-se do terrunho pátrio, manifestado na incapacidade de superar a insuperável fronteira que carrega no bojo da alma, a fogo lavrada pelos ditames de uma língua e um povo--não direi únicos--todavia, peculiar no jeito de ser e estar (ou ter estado), no seu mundo lusíada. Ao apartar-se do quintal genésico por naco de pão mais farto, um homem torna-se súbdito implacável de dois amos: da pátria, lugar de nascença e da pátria estranha, lugar do sonho em abundância. Se na pátria original dilacerava a alma na exiguidade económica, na terra da prometida abundância, sofre a excruciante dor da alienação, que será a não menos dolorosa marginalização do seu autêntico viver. Teremos o pão a ditar o elemento de infidelidade, pela via da ausência da portuga- lidade que se não desejou e a disjunção do espaço telúrico e sobrevivencial, mitigado na miragem do regresso, porventura inconsumável, na plenitude do sonho animico---cultural no qual e para o qual fomos talhados,.
Por isso a dor emigrada, radica-se num azedume reprimido, num "entre-mundos", polvilhado de estrelas, entre o rebrilhar de abundância e os tentáculos da saudade. Insinuar ou postular que a vida é apenas o pão da sobrevivência, é não assumir a dimensão atormentada que a saudade gera , é rejeitar liminarmente a ideia de que o homem, na sua complexidade sócio-anímico-espiritual, carece, para a plenitude do ser, de muitíssimo mais que a côdea da mera sobrevivência. Viver, não cabe apenas no pão , embora dele se não prescinda para (sobre)viver. Assim a expressão de Camilo Cela: "a pátria é o lugar onde se come", encerra a afirmação orgulhosamene reiterada de que no exílio o não torturam os que a ele (exílio) porventura o submeteram. É um sinal de rebelião contra a natureza únivoca de uma cultura e o indivíduo, petulantemente, desafecto da mesma. Não deixa de causar perplexidade, por parodoxal, que, o igualmente grande escritor e lusitanista íntegro, Vergílio Fereira, tenha afirmado ao "JL" em emtrevista de 02-11-93 : " (…) Acho intrigante, incompreensível que haja portugueses que passam a vida no estrangeiro, Quanto a mim, ser-me-ia insuportável viver fora do meu país". Suportável ? Sim, à conta de inúmeras mágoas, saudades e amargos de alma que nunca ninguém ousará contabilizar, porque a angústia sabe ser silente e vive a recato no sotão do espírito. Não será exagero dizer que na alma de cada português há um coração a bailar pelo regresso, um desejo clamoroso que, a mor das vezes, se extinguiu e finou nos filhos, e, esta realidade não descerra, porventura, a fatia menor no culminar do drama emigratório. Não encontro melhor feixe de luz para iluminar--em contraste absoluto-- a afirmação do azougado Camilo Cela , repondo , através da poesia, a realidade pungente sobre a condição das almas conscientemente exiladas, ensombradas , pela ausência do sol genésico, que este poema de Sophia de Mello Breyner Anderson, com o qual encerro a minha discordância sobre a visão, eminentemente camiliana, comestível e risível, de uma estomacal concepção pátria. EXÍLIO
Quando a pátria que temos a não temos Perdida por silêncio e por renúncia Até a voz do mar se torna exílio E a luz que nos rodeia é como grades
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