"E
sta terra não é pró sangue português”, dizia-me há
tempos um
filósofo-analfabeto — que também os há — com trinta e cinco anos de calvário
emigrado e picos de saudade das fajãs, das canadinhas, do cheiro a erva, do
bramir do mar, das carroças a gemicar, dos homens, pelas esquinas das
tabernas, bebericando bagacinhos, batendo com estridência a sueca com os
nós
dos dedos terrosos na mesa, e milhentas outras memórias, na estranja, a sós
remoídas.
“Eh sinhô, nuca mâ senti bâ dêsque pús pé nêsterra… E eu, com uma
vontade
indómita de dizer idem, idem, um milhão de vezes, calei fundo aquela
expressão tão verídica, tal a realidade compungente de não ter pátria para
nela celebrar o sonho do pão de cada dia.
Hoje, esta alma cindida do seu destino portugês, repousa no bojo da terra que
lhe acenou promessas de abundância e lhe recolheu o corpo, porque o espírito
deve andar por aí desvairado, em forma de nuvem ou vento, num ciciado
lamento, à procura de se reencontrar com o seu torrão genésico.
***
São 43 graus negativos, tenho a sensação nítida que estou no Ártico, alheio
à
civilização que me serviu de berço, num mundo a relembrar esquimós, de
intermináveis gelos e igloos, numa inenarrável angústia de brancura vestida,
da qual ouvira falar em criança, e vira nos filmes a flocos de neve
rendilhados.
Na baixa da cidade, paira a fumaça dos carros, o sabor a destroços de neve
espapaçada. Os poucos caminhantes, contritos de frio, enfardelados em
montanhas de roupa. As ruas desertas, relembram estado de sítio. Coloco uma
carta na caixa do correio, os dedos esfervilham ao toque com a chapa
metálica.
Então, recordo a verdura do Portugal que tive, o desejo atroz do regresso, o
jardim onde, neste exacto momento, os velhos pigarreiam as maleitas do sal e
as procelas no mar tragadas.
Renunciar a este inferno branco, a esta absoluta desolação onde cada estranho
se isola na sua concha emigrada, nesse sonho me esquivo a imaginar primaveras
da infância, fragâncias de tílias aspergindo a levissima brisa da tarde, com
o tempo enovelado nos gestos e olhar dos velhos que sabem colher o sol,
ternamente pacificados com os resto dos dias a colher.
Desperto destas deambulações, onde navego entre o verde do meu país e a
paisagem gélida, agreste, desumana que me circunda e crispa o ânimo.
Parece que mundo algum existe à minha volta. O mundo! Sou eu e este gelo que
tenho de digerir à conta da dourada côdea exilada.
***
A única grandeza de comparável ao universo, só o firmamento de um
egocêntrico. Há-os, com abundância. Por isso, minguém lhes merece qualquer
res
quício de vago apreço. A pequenez dos outros, engrandece-os, uma vírgula de
mérito alheio, amesquinha-os.
Dolorosamente, assim. De forma que se te sentes desolado com o mundo, ou as
pessoas nele, toma um chá de humildade, olhos nos olhos a miséria humana que
te circunda, sincroniza-te com os desaires da vida, e verás que melhor que o
recolhimento no silêncio, não haverá para digerir os desconcertos da vidinha.
***
Não te admires que as tuas mágoas, ninguém as compreenda, embora te digam
fugiente e fastidiosamente que. Cada alma carrega o seu penar. De que te
serve abrir os teus desencantos aos outros, senão para veres desferido um
belo par de coices na tua fragílima ossatura.
Serão mais dados a rejubilar com as tuas mágoas que com as tuas pequenissimas
glórias. O autêntico amigo — é uma raridade tão imperfeita, que
quase não
existe — será aquele que rejubila com a tua alegria e não o diz ter
compaixão, mas não se move além das palavras, e delas se utiliza com
parcimónia, ou então serve-se da tua desventura, para aferir a sua ventura e
exclama, cumprindo o ritual da comiseração enxuta: “coitado!” e por aí se
queda no seu comprazimento.
***
Terá sentido afirmar que o homem será, em toda e qualquer circunstância um
eterno solitário? Talvez a sua grandeza resida no cerne da sua solidão, que é
o espaço vivencial mais profundo na impossibilidade de condividir os
inefáveis temores perante o indecifrável mistério da da sua visível
finitude.
Estaremos condenados a ser ilhas de solidão (devo esta frase a um amigo)
porque somos insuficientes ,tanto para suavizar as próprias amarguras, quanto
as alheias.
Intransmutável é o sofrimento, que tal como a morte é intransmíssivel.
Quando
descemos em nós próprios em busca de refrigério para a alma, é, precisamente,
para suprir a falibilidade humana, na centelha do Divino que em nós coabita
com a ideia magnífica de um Deus no qual depomos, sem qualquer resquício de
dúvida a dimensão magoada do ser humano, confrontado com o desalento.
***
Olhai as almas portuguesas pelo mundo transmudadas. Os filhos vestem novas
cidadanias com o à vontade de quem veste fatiotas feitas à medida. Conservam
a lembrança dos torresmos, do cozido à portuguesa, da sopa de feijão. Da
morcela? talvez... Do bacalhau, não, que dizem tresandar.
Decididamente falta-lhes a vocação e o apreço pelas Terras Novas e
Gronelândias… deixá-los ser canadianos que outro remédio nao há, com a
costela de Portugal que melhor lhes aprouver.
Confesso. Já doeu ver perder os filhos para outra nacionalidade. Hoje,
resignado, que é um salutar indício da velhice e/ou da inutilidade de moldar
o nundo, ou seja da sabedoria de aceitação,do que não pode ser mudado, deixo
que as coisas aconteçam e se auto-regulamentem..
Que sejam felizes “à la canadiana”. Contudo quando lhes sinto a indiferença
a um fado, que apelidam de “weird” (1), a um vira, marcha, corridinho, e não
vibram com a Torre de Belém ou o
Mosteiro dos Jerónimos vistos na televisão, confesso, aí, dói a valer.
Desejaria que partihasssem o meu passado, não porque seja melhor ou glorioso
mas, simplesmente, porque foi a minha forma de me conhecer português no
mundo. Os meus filhos sendo meus, são já de um outro país.
Baixinho, vou digerindo as urtigas de não ter pátria. E eu que contestei por
escrito o Nobelíssimo Camilo Cela, por haver dito que “a pátria é o lugar
onde se come”, outro remédio não tenho senão digerir a expatriada côdea, não
para viver, mas para sobreviver porque, meus confrades
“vagamundos-emigrandados”, também se sobrevive, fingindo viver, e,
nesta
arte, de ludibriar a alma com promessas de retorno, somos perfeitíssimos.
(1) estranho, irreal, supernatural
Brampton, Ont. — Maio de 2000

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