BARBOSA TAVARES

Escrevivências


O trigo da infância



N a reentrância de uma tosca janela, entre a chave da adega, sementes a esmo, um almanaque de folhas amarelecidas e pequenas imagens de santinhas a esmo semeadas, resguardavam-se umas moedas que eram o recurso financeiro dos aldeões que apenas de dinheiro sabiam, através de uns litros de leite, pinheiro cortado ou vitelo mercandejado pelo ardiloso Ismael que salmodiava entre a reverência e a manhosidade.

--Vá lá...Oh, ti Alfredo... Venda-me o vitelo, por cinco notas. Olhe que ninguém lhe dá mais um vintém. Mas é só hoje. Por esse dinheiro tenho o Manel das Corgas e o Joao Samarra que me ofereceram duas crias que nem bezerros. Mas este seu vitelo, tem boa pintarola, já está bem desmamado e até pode ser que eu o guarde para criar. Só por isso lhe dou as cinco notas.

O Ti Alfredo, alquebrado, com setenta anos de trepar serras, arrotear leiras, erguer combros, sem vontade para regateios e o desejo acendrado pela volúpia de cinco notinhas, cedeu o vitelo.

Decorridos minutos, a mãe da cria, urrava num desespero que ecoava, gemente, serra acima. Eram tão atrozes os seus gemidos que um homem não podia deixar de se enternecer, sem reflectir na mágoa da sua própria orfandade.

***

Naquele tempo, de minguadas patacas, pelas abas da serra, calcorreava carreirinhos de cabra uma rapariguinha de longas tranças e rosto afogueado em brando sorriso. Uma toalha a saltitar de brancura numa canastra enfarinhada, cobria o pão de trigo que era uma benção para as mulheres grávidas, e meio diplomático para dignificar forasteiros que, pelo verão, subiam a ares na serrania.

Um bolo de trigo era assim, um tratamento realesco, por sete tostões que, no resto do ano, tragavam-se aquelas enormes rodas de boroa, de côdeas gretadas que acabavam ensopadas em malgas de vinho, salvas, por dois agrafas metálicos que o funileiro, que também consertava guarda-sóis, lhes pespontava,"in extremis" para perpetuar a vida de tigelas com histórias de pelo menos duas gerações.

***

No dia da cozedura do pão, minha avó, andava num brazedo desatinado. Amarrava o lenço preto com o nó a desembocar na nuca e, no rosto, as rugas emergiam como fendas, que eram as mais evidentes marcas do tempo em agrura lavradas. Era uma masseira medieval, quatro tábuas em ângulo, afuniladas, rudes como as árvores na hora genesíaca do mundo.

Mais negro que a noite, o tecto cravado de fuligem e fendas por onde as fogueiras de inverno, desprendiam espessos rolos de fumo.

O aquecer do forno era uma incursão pelo dantesco, os gravetos de pinheiro e a rama do eucalipto, estralejavam num inclemente estertor, a ranger num desapiedado inferno de lume. Logo me trepavam à mente as citações apocalipticas da biblia, quanto ao castigo dos nossos pecados. Timorato, especava-me num cantinho do banco de pedra, junto à lareira, a imaginar desenfreadas súplicas.

Com a pá do forno minha avó, volteava, com jeito de séculos, a amassadura no forno e barrava a tampa--uma tosca e ancestral pedra-- com uma mistela de cinza e barro. Fazia-lhe uma cruz, com a mão em forma de cutelo. Estava encerrada a liturgia do acto da cozedura.

Nesse dia não havia o afago da conversa em torno da lareira, o calor vomitado pelo forno, esturricaria um infiel. Recolhiamos a dormir.

Pela manhã, com o ar arejado, a levitar a pão fresco, sobre uma mesa, com festiva toalha de linho, repousavam quatro a cinco enormes rodas de boroa,que em nacos, regadas a vinho, com a ajuda das sobrevidas malgas--artificios de guarda-soleiro--, eram a sustança da vida aldeã. E os dias decorria, em letárgica pasmaceira, entre soutos, riachos debruados a milho, charruas e arados, gemidos de carroças ,o som cavo da enxada a fender a terra para mais uma semeadura e, alguma voz sumida, desavinda com a lentidão da carroça congosta acima.

--Eixe, Ei... Ah , Ramalha dos diabos que te parto os cornetos...