Escrevivências
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MEU AVÔ E A SAUDADE |
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A serra!.. Sempre que era anunciada em casa, eu tinha logo o pressentir de um lugar idílico, de pinheirais infindos e carreiros onde cresciam amoras a esmo, ofertando-se ao viandante, de riachos que cantarolavam alegres e viçosos , das águas que lambiam pedras do tamanho de ovos descomunais em pequenas cachoeiras e encenavam uma cantata emoldurada pelas folhas de vinha e milheirais que ladeavam as margens do rio. O mundo recuava aos tempos em que o paraíso era possível. Havia rolas com seu meloso arulhar e gaios majestáticos de azul nas suas penas e ninhos por tudo quanto fosse sobreiro ou carvalho. O tempo era uma eternidade, porque na aldeia o sol sempre fora o mandarim dos dias que se mediam pelas colheitas . As únicas operações de finança eram a venda do leite, um vitelo uma vez ao ano e, talvez, uns eucaliptos descamisados, capazes de render rolaria. Havia um moínho que era o lugar do meu encantamento. Talvez porque meu avó ali me levara absorto na sua missão de arquipatriaca provedor. Munia-se de um alforje, peça arcaica de couro, enfarinhada, de enormes tamancos que estralejavam calçada abaixo, antes de se chegar aos carreirinhos de cabra que nos conduziam ao moínho. Lá no fundo, o gorgolejar das águas infundia respeito, a ponte que ligava as margens era uma trave de carvalho retorcida, com pelo menos duas semi-curvas, a ranger sob o peso de duas criaturas e um fidelissimo cão. Pelas fendas tenebrosas espreitava-se o fragor das águas a ribombar nas pedras e, maças apodricadas, despenhadas, das macieiras alcantiladas em silvedos, vogavam nos minúsculos remansos de água, represada entre as pedras. Majestosa, era a polifonia do zunido e da água a espadanar no rodízio do moinho em espirais de salpicos, sobre as ervas e cabecinhas de macela a escorrer o viço das águas. Entrava-se naquele cubículo . O tamarelar da roda do moinho, a farinha a jorrar pelos cantos daquela roda rupestre , eram os momentos da minha inebriacão de miúdo. Era um quase acto litúrgico a moedura do milho. O meu avó, cheio o alforje, persignava-se, num acto simples e solene de acção de gracas , agarrava naquela ponta do alforje em forma de dedo, e, de uma única assentada, erguia-o na costas repleto de gratidão.. Ainda lá existe o idílico moinho da infância, as maças a vogarem na languidez da água entre represas de magníficos ovos de pedra. Para minha mágoa, são dois os elementos que não poderei repor naquele cenário: o meu avó e a minha infância. Ah… esquecia-me…a ancestral ponte de carvalho, curvilínea, carcomida, que, a esta hora, repousa no fundo do rio, embalada pelo eterno chilrear das águas em catadupa, servindo de labirinto aos peixes. Por isso, quando invoco aquele moínho, é a minha mortalidade que invoco na mais veracíssima saudade—a saudade da infância perdida.
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