Escrevivências
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O sino da minha aldeia |
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M inha aldeia!…Doze anos depois. Ia sedento por reviver carreiros, saborear os sons da infância, a sinfonia do vento sussurrando no tal enorme carvalho, do qual recolhíamos anéis das carapuças das bolotas, contemplar os recantos da saudade onde se acoitavam as memórias do peão, da bola em trapos tecida, dos botões arrancados à braguilha. E do largo, onde os homens folgavam em grupos. Na camisa, de saltitante brancura, apertada com um colete, alojava-se, garbosamente, o relógio domingueiro; sobre os ombros, o casaco pendente. Falavam dos pinheirais, de permeio com alguma garfada em ninharias da vida alheia… Minha aldeia!… Lá estavam as casitas alcantiladas, dormitando, impávidas no seu esbelto granito nas abas da serra, entre tojeiros, pinheiros, eucaliptos e alguns imberbes e esgrouviados sobreiros com vestígios de dorna sepultada na terra, uma canastra semi-devorada pelo tempo, eira ao fundo — pedras milenares onde o malho no ar ensarilhado, os músculos e o suor esbagoaram rimas de loiras espigas. Os carreirinhos, moldados por botarras de aldeão para abreviar caminhadas, eram os mesmos, agora ladeados e invadidos por silvedos e ervas, que cresciam a esmo e estoiravam pletóricos, por entre as nesgas das pedras. Soerguia-se viva a memória de minha avó. O rosto, sulcado da vida inclemente de chuva, sol e vento, e o lenço, tão negro, os olhinhos a bailarem, ajoujada ente a ramagem de um desumano e enorme molho-podão, intercalado entre a corda e um graveto de pinheiro. Minha aldeia!… Evocação da falta de braços, a desolação de um país que vê partir seus filhos para franças e araganças. Uma chaminé lança no ar poéticos rolos de fumo que se esvaem em espirais caprichosas entre uns fios de luz, o vento e o azulino das nuvens. Logo ocorre o cheiro dos torresmos, retirados do fundo do cântaro em unto atafulhados. E o estrépito do aroma resinoso da ramagem fumegante—borralho em labaredas. As silvas, com seus espinhos, rasgam no espírito a dor de emigrar por um naco de côdea na estranja sonhado. Aqui e ali a passarada pipiava indiferente ao drama de um país. Invejei-lhes a melodia. Ruela acima, encavalitada entre pinheiros e um frondoso carvalho, erguia-se a casa do Pedro, em França; ao lado, semi-construída, a do João, embarcado havia meses para a Venezuela; da banda de além, andaimes e pedreiros, numa cadência morna, temperada por assobios e um cigarro em lentidão tragado, erguiam-se as paredes da casa do Januário, que se amanhara de caixeiro para as bandas de Lisboa. Minha aldeia, de casebres enegrecidos e descurados, de velhos resignados, patriarcais, silentes, amarrados ao conformismo dos dias, da galinha a debicar uns grãozinhos de pedra, da pesada carroça a gemicar congosta arriba, do mugido a embasbacar o silêncio. Minha aldeia!…Quanta poesia pungente nos versos contristados deste abandono. A casa da Ti Nazaré, entre as ribanças, enfeitada de alecrim e flores silvestres. A pedra gigante, ovular, ao lado da porta onde ele repousava a perninha manquejante e rogava clemências para o verão esturricante que estiolava os seus filiais milheirinhos. Meu avô, oblíqua peneira sobe o ombro erguida, rogando ao vento que joeirasse os feijões, e eles caindo em fio de cascata sobre uma manta em mil retalhos tecida. Eu, absorto naquele cenário, gozando as delícias da brisa numa tarde de canícula em que sem o saber — sei-o agora — sorvi nacos de vida, verdadeiramente paradisíacos. Minha aldeia-fantasma, pela ausência da juventude, dos arados imobilizados, do sangue novo que reconstrói franças e araganças e nos deixa o acre sabor do abandono. Meu Portugal, minha aldeia, corpo moribundo, de veias esclerosadas o sangue dos teus braços reparte-se pelo mundo na ventura de pão menos agreste, a troco de construção de mundos-outros. Desventurado povo... Que isto de emigrar é uma aventura/desventura da alma transplantada para solo alheio, espírito que persiste em vaguear no terrunho genésico, onde moram petrificadas as memórias cruciais da vida. O Ti João da Aurora, O Manel Silvestre, a barbearia ao ar livre, sobre a cúpula umbrosa da vinha do Joaquim da Eira, a taberna desoladamente térrea com arroz, cigarros e duas pipas , e o Ti Ângelo da Cuca, mais o seu belo apelido que respondia dos milheirais a dessedentar num eco gutural a um apupo que lhe faziam do cimo da serra, inquirindo sobre o correio. Ah!… Aquela caixa vermelha que retratava um homem sobre um cavalo trombeteando novas, era o repositório da esperança que trazia da "Brenzelas", dos brasis e das araganças a garantia de leiras e prometia pinheirais de regresso e enlaces matrimoniais fartos e requintados. Ninguém poderá negar: o largo da igreja. O coreto, os homens que testemunharam os nossos sonhos da infância e tudo o mais que nos haverá de acompanhar vida fora, até ao fim último dos dias. Somos emigrantes. Transpusemos fronteiras. Jamais transporemos o espaço-vivência na terra mátria. Daí, porque a saudade será um sino a badalar plangente na alma emigrada. O sino da minha aldeia. Brampton, Janeiro/2001
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