BARBOSA TAVARES

Escrevivências


Carta a Ílhavo com 1/4 de século de atraso



N unca imaginaria que a nossa separação se prolongasse para além do sonho encenado na coroação do regresso , na crença que haveria de encontrar o que a mátria negara por esse mundo largo, estói- co, sem peias nem rosto, onde da alma apenas me requerem os braços.

Era uma casita e duas patacas recatadas na euforia do regresso, na cumeada do sonho.Depois: repou sar os olhos nos juncos da Barquinha, ver a miudagem saltitar entre o alarido e alegria, emergir dos juncos com a roupa e os sapatos entrouxados nos sovacos; embevecer o olhar nas casas gafanhoas banhadas daquela luz suavissima que cinge os pinheiros pela rama e reacende os verdes do musgo; contemplar a terra enternecida fecunda , com sua medas de palha, afanicadas, que se assemelham a fatonches atravessados por uma vara aprumada da qual pendia no topo, um chapéu em vértice descaido, tal guarda chuva sem varetas, esturricado pela inclemência do sol e chuva.

Desejava reencontrar aquele barquito invertido, semi-olvidado em repouso numa língua de areia, aguardando maré de calafetagem. Deixar o bailado das ondas e o estrepitar das velas de um moliceiro sinfonizar caprichos de vento na majestática beleza da ria e colher o mistério do sol e do vento na crista das ondas de um barquito a cabritar altaneiro. Permanecer, sem relógio, por ali absorto naquele cenário a olhar as oliveiras que personificam a paz e reacendem memórias biblicas e evocam o jardim por onde peregrinou o doce rabi da Galileia.

Ah!.. As oliveiras que debruavam a estrada por entre as quais palmilhavam as belas enamoradas , meninas-deusas no sonho do enamoramento e aquele mistério por decifrar de um rosto que se nos afigura celeste , tais eram os olhos que albergavam a chave de todos os paraísos no mundo possiveis.

A pacificação da tarde, por entre a sombra das árvores , o largo da capela da Senhora da Penha de França, o colorido do casario , o rumorejar da centenária fonte, o viço do arvoredo , o casario alegre aconchegado na branquidão monastical, pincelado a faixas de ocre e uma aragem mística que não se sabe de onde emergia e perpassava na alma ,eufónica, ciciada na ramagem do arvoredo.

O ti Morais , homem atarracado, hercúleo de camisola de lã grossseira aconhegada ao pescoço. Com a vara fincada na ria, impelia a sua barca em dias de feira, com o mulherido ataviado de negro e sua tralha diversa mercada na feira que ia das cordas, sogas, panelas, podões, engaços, frigideiras, caçarolas , conchas de sopa, arroz, flanelas e cadeiras-- infinda panóplia--, passando pelo bacorinho impaciente e resmungão que, anilhado por um cordel, atordoava o ar de grunhidelas.

Desejaria palmilhar as vielas—fieis abrigos da infància-- contemplar os braços da ria, pelas Malha-das e Alqueidões e dúzias de outros recantos da memória em Ilhavo esculpidos, onde se abriga o irrepetível tempo da infância. Ver uma mulher, sentado no rebate da porta, fazer renda ou entrelaçar as malhas do tempo num par de meias bacalhoeiras, com a serenidade de quem a mais não aspira da vida para além do momento vivido.

Renovar a fé baqueante à vista do andor do Senhor Jesus dos Navegantes, a crença que se lia nos rosários e no rosto das velhinhas de rugas sulcadas pelo temor que apertavam o terço , tal gesto de salvação, e seguiam o andor de olhos lacrimejantes .

No rosto gretado que albergara agonias, ressaltavam maceradas as angústias das procelas que lhes extravasavam a alma, quando os ciclones e a ausência de cartas eram agoiros a rondar os umbrais de uma viuvez pré-anunciada.

Vaguear no labirinto dos Sete-Carris, ouvir os tambores e os ensaios da música entrecortados pela batuta de Mestre Zé Padeiro--homem harmonizado e suave-- naquele viela onde os trombones clarinetes e saxofones deflagravam rapsódias em contínuas vias de esmero.

Nas vielas as bicicletas acotevelavam-se a esmo e os músicos absortos na perfeitação das suas pautas após um dia de exaustão, eram devotos extremos da Santa Cecilia . Pouco se lhes reconhecia o empenho na arte, a não ser quando, no dia de festança os anciãos ciosos da sua filarmónica atroavam um elogio da "Velha" que era um desprimor para a "Nova" , com uns piropos etilicos, um mordiscar de lábios ou punho erguido, logo atabafado pelo estralejar de nova rapsódia.

As filarmónicas era assim a modos que a ópera dos plebeus . Não cativavam o ouvido elitista da fina flor do baronato, um daqueles obscuros fenômenos sociológicos que cruelmente consagrava o desdém e nele se acasalava em impiedade.

Retorno à Vista Alegre. Saborear o rumorejar do vento, flauteado numa daquelas centenárias oliveiras, com o tronco fendido do tempo a cimento romendado contemplando o efeito do vento a farfalhar na crista das ondas e perder o olhar nas albas casinhas, coroadas pelo vermelho--telha do casario. Uma carroça descansa , com os beirais repousados no areal, onde o vento, o sol, um barquito ondulante e o ser empolgado se reencontravam plácidamente.

Não sei que lei ditou o enamoramento da terra, aquele sentir da gentes, onde um homem ventrudo, talhado entre moliço e a areia, e milheirais , de botarras arcaicas e casaco surrado , ali e acolá esfiapado, saboreava serenissimo um naco de pão escuro intercalado de toucinho e uma garrafinha bebericada em três fôlegos, enquanto o vento fagueiro harpejava por entre as folhas do milho e o verde imerso em luz irradiava a paradisiaca quietude, enquanto ao longe uma vela farfalhando ao vento , conferia à alma um banho de perene serenidade.

Terra maruja que moldaste os olhos da alma, em tuas vielas aprendi o linguajar da vida Ilhavense, o sabor aconchegante das vielas estreitas, os pescadores curados de sal e tempestades que em grupos visitavam as "capelinhas" e puxavam com ares de quem conhece o mundo , requintadamente, das suas carteiras de cigarros: "Marlboro" e "Rothmans".

O estralejar dos tamancos da peixeira no tempo ido das calçada; o pescador da Malhada de barba de três dias, cigarro pendente dos lábios e mãos rugosas , imbricado nas suas redes entre o presépio do seu bairro, ornamentado nas chaminés com rosa dos ventos, estrelas do mar, roda do leme e figura de arrais—evidência artistica de quanto o mar moldou a terra.

Ah .... A soneira do barbeiro que, sem barbas para escanhoar nem falatório, emergia sonolento e assarapantado, o merceiro que de vez em quando assomava à porta para desenfastiar o tédio, o cheiro do pão fresco na viela da "Rendida". e uma bola de trapo, temerosamente ensarilhada no quintal vizinho.

Os gatos acomodados que se contentavam com as entranhas dos chicharros, ou algum robalo taludo; as pachorentas bicicletas em que as meninas se moviam com a mão pundonorosa em jeito de concha sobre os joelhos cerrados, as tilias e bancos do jardim, onde os velhotes repassavam de saudade e tossicavam a glória da juventude; o ressoar das tétricas badaladas do sino que ainda mais doloriza o sabor acre da expatriação e ressoa na mente o exíguo tempo da vida e nela o estertor de tantos gestos, palavros e actos em vão.

Oh terra maruja que me habitas nesta masmorra de saudade, reserva-me aí uma nesga num ban-quinho do jardim, onde este teu filho de si e de ti desavindo, possa um dia contemplar serena-mente os rostos das gentes Ílhavas, respirar o aroma das tilias, colher das vielas as memórias que revivificam a alma, as procissões e festas perdidas em décadas de ausência, que a bem da verdade nunca de ti me ausentei. Que isto de estar de Ílhavo ausente é a forma mais torturante de estar presente, porque a saudade enternece o espirito da terra e tece encantos desconhecidos de quem nunca de ti se apartou.

Meu Ílhavo, tu já não és apenas terra-recordação , és o próprio sonho, pedaço do espirito, de quem sabendo os dias breves, vai às tuas fontes colher a água que vicejou os encantos da meninice e se perdeu no mundo, no infinito adiar de um ausência breve.

Quero que saibas, terra-raíz-saudade-encanto-tormento que o pão da vida , também encerra tormentos do espírito, porque o cifrão, tantissimas vezes, ordena mais que o próprio querer, e um destino não se tece apenas com amor e mil desejos.

Não venho para julgar a razão de uma infidelidade não desejada, tão-só reafirmar, dúlcissima terra-maruja, menina dos olhos do sonho a cumprir, que me navegas nas artérias, tal o sangue vivo que me percorre e alimenta, inclemente, em assomos de saudade, neste desejo indómito do regresso.

Afinal, Ílhavo, tu não és apenas gente, terra, vielas, braços da ria, jardim, dulcífica memória na alma enternecida, tu és um naco da alma que me falta, para voltar a ser menino e banhar nos olhos da candura o encanto da luz , com que inebriado em ti acordei para o mundo. Tua ausência é cruz de saudade na alma expatriada.

Brampton, 2001