BARBOSA TAVARES

Escrevivências


As mãos e o silêncio



O silêncio não existe em vão. Reverbera num fio de luz a essência do mistério. O céu é uma abôbada  soturna que alberga esta mágoa  de  me não ser permitido saber  para além do sopro  deste sentir.

Olho as mãos vazias e busco uma canção para afagar a dolência desta hora. Reinvento uma esperança esquiva, busco  um afago, uma explicação para o sangue que me percorre , na flâmula de vida que me foi soprada,  a caminho do barro desta imparável  condição.

Que palavras  se me oferecem  dizer, neste colossal silêncio  em que me sinto soçobrar. Um homem defronte da sua magistral solidão,  desnudo, a sós  perante o indecifrável mistério de ser. Por onde começar esta inquirição?  Olhos as mãos , escuto o  fremir do sangue que  pulsa, agita, alimenta o futuro do sonho , perplexifica  e atemoriza o outro em mim.

Tento saciar a sede de infinito que Alguém me reinventou. Uma rosa vermelha dentro de um vaso  de vidro sobre a mesa , deveria bastar.

Que insondáveis mistérios habitam a sede de um alma que se deseja saber no além-tempo desta fugiente viagem?

 

O silêncio é avassalador. Aniquilante e grandioso .Revelador e atemorizante  Esventra a alma  e  faz-me  sentir menos que a  insignificância.  Agora compreendo porque  terá Deus inventado  o homem. Provávavelmente,  para aplacar a Sua própria solidão. Só seremos perante e em função de alguém. Precisamos do outro para saber que somos, por isso a solidão é penível  e ainda mais tormentosa quando resulta do desejo não apenas de  inquirir  o infinito , mas de o sondar, para além do espectáculo  da própria vida.

Ninguém suporta o seu próprio vazio, só os outros poderão colmatar ineficientemente  as nossas brechas , suprir por algum tempo a nossa solidão.

Do desejo e da vontade de amar e ser amado se alimentam os caudais da vida. O mundo conquanto se nos assemelhe  cruel e descompadecido, deve a sua perpetuidade à inexaurível sede de amor.

 

Olho as mãos vazias, mãos  que sabem colher frutos e acariciar um rosto amado, mãos que servem para suster os vendavais e  dedilhar as  delícias da vida , mãos pacificadas, mãos erguidas no silêncio e na inutilidade de desejar  do  mundo um oásis  de fraternidade.  Mãos que se deveriam erguer  para as  nuvens  e  colher  numa clareira de luz o mistério da fruição da vida , sem outra pergunta que não seja contemplar esta ave que gorjeia e aquela outra que leva no bico o sentido paternal da vida e soube arquitectar  num acolchoado de penas o amoroso resguardo de seus filhotes.

 

Mãos que sabem ser piedosas  e deveriam servir perenemente a piedade.  Mãos que deveriam  ger-

minar um gesto de gratidão, um naco de pão espiritual, e se recollhem resguardadas, no seu abominável egoismo.

Preencho o intervalo do silêncio, reinvento-me  numa esperança. Não sei que força secreta impele a viver, para além do fruto azul esperançadao do amanhã, sabendo que cada dia  futuro  será fiel e fatalmente a cópia do dia precedido, no inexorável caminho da eternidade  da qual nada enxergo para lá  do  absoluto silêncio.

 

Olho as mãos vazias. Nada sei do mistério que as talhou. Sei apenas que este mundo não  basta para aplacar esta sede  que ultrapassa a humana condição.  Não posso saltitar sobre a minha própria sombra, sem diluir a alma num ignoto mar de trevas, nem a  magnifica  luz do sol me revela  este mistério ensolarado. Que vontade, desejo, sonho ou  destino, se oculta por detrás da aparência do mundo?

 

Acaso  saberá alguém  distrinçar esta sede de infinito? Olho  este cordame de veias por onde flui o sangue  de milhentas interrogações sem  resposta plausivel. Mãos talhadas para algum propósito, talvez mãos que se não consumaram ainda nos gestos de amor  para que foram traçadas  e que, por essa razão, não almejaram ainda a perenidade do seu fim último.

 

Quem me diz que as  mãos ,   acariciando   uma guitarra, serão as mesmas  que despoletaram uma granada?  Executam o que o coração ordena  e são instrumentos da alma  e tanto dedilham uma sinfonia como mancham de sangue um inocente.   As mãos deveriam viver  apenas para  semear e colher as sementes da fraternidade  para que a vida na terra não ensombrasse  de pesadelos  o mistério da criação.

Brampton,

Março/2002