Escrevivências
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As mãos e o silêncio |
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O
silêncio não existe em vão. Reverbera num fio de
luz a essência do mistério. O céu é uma abôbada soturna que alberga esta mágoa de me não ser permitido saber
para além do sopro deste sentir. Olho as mãos vazias e busco uma canção para afagar
a dolência desta hora. Reinvento uma esperança esquiva, busco um afago, uma explicação para o sangue que me
percorre , na flâmula de vida que me foi soprada, a caminho do barro desta imparável condição. Que palavras se me oferecem dizer,
neste colossal silêncio em que me sinto
soçobrar. Um homem defronte da sua magistral solidão, desnudo, a sós perante o indecifrável mistério de ser. Por onde começar esta
inquirição? Olhos as mãos , escuto o fremir do sangue que pulsa, agita, alimenta o futuro do sonho ,
perplexifica e atemoriza o outro em
mim. Tento saciar a sede de infinito que Alguém me
reinventou. Uma rosa vermelha dentro de um vaso de vidro sobre a mesa , deveria bastar. Que insondáveis mistérios habitam a sede de um
alma que se deseja saber no além-tempo desta fugiente viagem? O silêncio é avassalador. Aniquilante e grandioso .Revelador
e atemorizante Esventra a alma e
faz-me sentir menos que a insignificância. Agora compreendo porque
terá Deus inventado o homem. Provávavelmente,
para aplacar a Sua própria solidão. Só
seremos perante e em função de alguém. Precisamos do outro para saber que
somos, por isso a solidão é penível e ainda
mais tormentosa quando resulta do desejo não apenas de inquirir o infinito , mas de o sondar, para além do espectáculo da própria vida. Ninguém suporta o seu próprio vazio, só os outros
poderão colmatar ineficientemente as
nossas brechas , suprir por algum tempo a nossa solidão. Do desejo e da vontade de amar e ser amado se
alimentam os caudais da vida. O mundo conquanto se nos assemelhe cruel e descompadecido, deve a sua
perpetuidade à inexaurível sede de amor. Olho as mãos vazias, mãos que sabem colher frutos e acariciar um rosto
amado, mãos que servem para suster os vendavais e dedilhar as delícias da
vida , mãos pacificadas, mãos erguidas no silêncio e na inutilidade de desejar do
mundo um oásis de
fraternidade. Mãos que se deveriam
erguer para as nuvens
e colher numa clareira de luz o mistério da fruição da
vida , sem outra pergunta que não seja contemplar esta ave que gorjeia e aquela
outra que leva no bico o sentido paternal da vida e soube arquitectar num acolchoado de penas o amoroso resguardo
de seus filhotes. Mãos que sabem ser piedosas e deveriam servir perenemente a piedade. Mãos que deveriam ger- minar um gesto de gratidão, um naco de pão espiritual,
e se recollhem resguardadas, no seu abominável egoismo. Preencho o intervalo do silêncio, reinvento-me numa esperança. Não sei que força secreta impele
a viver, para além do fruto azul esperançadao do amanhã, sabendo que cada
dia futuro será fiel e fatalmente a cópia do dia precedido, no inexorável
caminho da eternidade da qual nada
enxergo para lá do absoluto silêncio. Olho as mãos vazias. Nada sei do mistério que as
talhou. Sei apenas que este mundo não
basta para aplacar esta sede que
ultrapassa a humana condição. Não posso
saltitar sobre a minha própria sombra, sem diluir a alma num ignoto mar de
trevas, nem a magnifica luz do sol me revela este mistério ensolarado. Que vontade,
desejo, sonho ou destino, se oculta por
detrás da aparência do mundo? Acaso saberá alguém distrinçar
esta sede de infinito? Olho este
cordame de veias por onde flui o sangue
de milhentas interrogações sem resposta plausivel. Mãos talhadas para algum propósito, talvez mãos
que se não consumaram ainda nos gestos de amor
para que foram traçadas e que,
por essa razão, não almejaram ainda a perenidade do seu fim último. Quem me diz que as mãos , acariciando uma guitarra, serão as mesmas que despoletaram uma granada? Executam o que o coração ordena e são instrumentos da alma e tanto dedilham uma sinfonia como mancham de sangue um inocente. As mãos deveriam viver apenas para semear e colher as sementes da fraternidade para que a vida na terra não ensombrasse de pesadelos o mistério da criação. Brampton, Março/2002
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